A política acaba produzindo ambientes emocionais
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Quando a mente estiver escura, não tente expulsar a noite. Acenda a luz da atenção. Observe, e espere: nenhum estado permanece para sempre e a mente se acalma quando compreende que nem todo pensamento é uma verdade, nem toda dor é permanente. Esses ensinamentos budistas combinam muito bem com o tema que vou construir hoje sobre crises políticas e institucionais, conflitos permanentes que entram nas casas, nas conversas, nas relações familiares e nas redes sociais. Sobre viver em estado de maior vigilância.
Podemos dizer que a instabilidade financeira e política não determina automaticamente a instabilidade emocional, mas aumenta significativamente as condições que a favorecem. A instabilidade financeira e política pode influenciar a estabilidade emocional, porque ambas atingem algo básico: a sensação de previsibilidade sobre o futuro. Quando a renda parece incerta, o custo de vida aumenta, o emprego fica ameaçado ou o ambiente político transmite esse conflito polarizado permanente, a pessoa tende a viver em estado de ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação de impotência quando percebe que sua aflição ou participação não mudam nada.
Em uma sociedade já esgotada diante da difícil arte de sobreviver, a desigualdade social e política pesa nos ombros dos cidadãos e produz impotência. Quando estes percebem que não tem voz, pouco acesso às instituições ou pouca capacidade de influenciar decisões que afetam suas próprias vidas, pode surgir outra espécie de impotência: a cívica, com a sensação de que participar não adianta
Há uma relação interessante em Bauman que fala sobre a sociedade ser marcada pela insegurança e pela fragilidade das estruturas institucionais e o indivíduo carregar sozinho a responsabilidade de administrar riscos que são, na verdade coletivos. Ou seja, o problema é coletivo, mas a angústia e tristeza são experimentados individualmente. O indivíduo exausto, desapontado tem reduzida a capacidade de planejar a vida em um momento nacional em que a política além das urnas, alcança a saúde emocional da sociedade.
Há uma frase que li que resume bem essa relação: quando o futuro deixa de parecer minimamente previsível, a mente começa a tratar o amanhã como uma ameaça.
E há ainda uma dimensão política importante. A instabilidade, pressão, responsabilidade pública e conflitos políticos também alcançam aqueles que ocupam o centro do poder. O presidente americano, Abraham Lincoln atravessou períodos profundos de sofrimento emocional enquanto construía uma das trajetórias políticas mais importantes da história. Há documentação histórica sobre seus períodos de profunda melancolia, termo usado no século XIX para quadros que hoje podem ser interpretados como depressivos. Estudos biográficos relatam episódios graves antes de sua presidência, quando desiludido reconhecia a incapacidade da política de solucionar divisões profundas. Governou os Estados Unidos de 1861 a 1865, administrou uma Guerra e no final do governo foi assassinado. Sua história permite refletir sobre como um dos maiores líderes políticos da história americana conviveu com intenso sofrimento emocional sem que isso fosse determinante na sua capacidade de liderança.
Em uma sociedade já esgotada diante da difícil arte de sobreviver, a desigualdade social e política pesa nos ombros dos cidadãos e produz impotência. Quando estes percebem que não tem voz, pouco acesso às instituições ou pouca capacidade de influenciar decisões que afetam suas próprias vidas, pode surgir outra espécie de impotência: a cívica, com a sensação de que participar não adianta. Mas o que desencanta na política não pode ser motivo para abandoná-la; mas, uma razão para permanecer nela.
Neste ano, o Ministério da Saúde iniciou a primeira Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil), que pretende entrevistar pessoas e investigar não apenas transtornos mentais, mas também a transversalidade com as consequências das desigualdades sociais, vulnerabilidade econômica, violência, experiências traumáticas e acesso ao tratamento. A pesquisa está em fase de coleta de dados.
Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com