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Olga Lustosa Domingo, 09 de Agosto de 2026, 00:30 - A | A

Domingo, 09 de Agosto de 2026, 00h:30 - A | A

OLGA LUSTOSA

Eleições entre a neutralidade política, apoios estratégicos e alianças

Olga Lustosa

Rodinei Crescêncio/Rdnews

 Nova arte Olga Lustosa - usar essa

As eleições são como a travessia de um rio em período de cheia. O que muda rapidamente é o curso das águas. Porém, mesmo um rio impetuoso, cheio de corredeiras que derruba árvores e arrasta tudo à sua frente, que ninguém consegue detê-lo de transbordar, tem o seu destino alterado pela agitação das águas. Esse pensamento combina e completa a ideia sobre não reagir com indignação e susto a cada movimentação política antes do fechamento dos registros das candidaturas, ou seja; até as 19h do dia 15 de agosto de 2026. Até lá, ainda é momento de travessia no processo natural de reorganização do poder.

Vivemos um interregno político. Período que pode ser comparado ao conceito conhecido de Antonio Gramsci, filósofo, historiador e político italiano, ao falar sobre uma ordem política velha, onde as antigas certezas perdem força e a nova ordem, ainda não está pronta para nascer. Um período intermediário em que as antigas alianças se desfazem, enquanto as novas estão em formação. No ano eleitoral, embora o sistema ainda funcione sob a lógica de quem está no governo, todos já se movimentam em direção à nova correlação de forças. É um tempo de negociações e reacomodações que podem trazer conflitos e fazer surgir soluções inesperadas.

Para quem acompanha apenas os acontecimentos do dia, tudo parece desordem. Mas não é. Não significa que todos perderam o rumo. Significa apenas que o ambiente exige adaptação para a mudança repentina do curso das águas. O que hoje parece ruptura pode ser apenas acomodação; o que parece definitivo pode desaparecer amanhã

A história eleitoral recente mostra que a rigidez das alianças verticais cede espaço para ampliar a liberdade dos partidos nos estados. Grandes partidos nacionais, como o MDB e o PODEMOS decidiram em convenção nacional pela neutralidade na eleição presidencial de 2026 e isso significa que não aderirão a nenhuma candidatura ao Planalto e os diretórios podem construir alianças com diferentes forças nos estados. Viu-se em vários estados do país, partidos diversos optando pela neutralidade formal ou apenas indicando apoio a uma candidatura majoritária, porém, sem enquadramento rígido, liberando os filiados e diretórios para escolherem quem vão apoiar.

Não escolher um lado também é uma escolha e neutralidade não é ausência de posição. A Rede de TV CNN reforçou a ideia interessante de que partidos grandes do centro estão evitando fechar compromissos nacionais para priorizar governos estaduais e ampliar as bancadas no Congresso Nacional. Estamos, então, diante de uma eleição em que a neutralidade política nos arranjos nacionais e a autonomia pragmática nos estados para costurar alianças e apoios podem coexistir.

Para quem acompanha apenas os acontecimentos do dia, tudo parece desordem. Mas não é. Não significa que todos perderam o rumo. Significa apenas que o ambiente exige adaptação para a mudança repentina do curso das águas. O que hoje parece ruptura pode ser apenas acomodação; o que parece definitivo pode desaparecer amanhã.

Em tempos eleitorais, é preciso saber distinguir e entender a turbulência como parte do ciclo natural da política antecedendo uma nova configuração de forças, que será colocada à mostra após 04 de outubro de 2026. Cada eleição transforma o ambiente político. Os atores podem ser os mesmos, mas o eleitorado, o contexto econômico, os acontecimentos, a forma de conduzir as alianças mudam.

Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com 

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