Elegância política é disputar o voto sem perder o respeito
Rodinei Crescêncio/Rdnews
A elegância na política é uma forma qualificada de transitar na vida pública, sustentando posições com clareza e equilíbrio, respeitando a dignidade do debate sem converter o adversário em inimigo pessoal, trabalhando com foco na liturgia do cargo, na moderação verbal e na busca por consenso. O autocontrole, a capacidade de escuta e a serenidade nunca estiveram fora de moda e não são sinais de fraqueza. E talvez seja justamente na campanha política que essa elegância mais faça falta.
Norberto Bobbio, filósofo e político italiano escreveu “Elogio da Serenidade e outros escritos morais”, estabelecendo diálogo sutil entre elegância e serenidade, que para ele é um valor moral e virtude capaz de civilizar os conflitos políticos. “Serenidade é a única suprema potência que consiste em deixar o outro ser aquilo que é”. A serenidade, característica elegante de maturidade política permite discordar sem odiar; a elegância permite combater ideias sem perder a medida moral. A autoridade, mesmo que exercida com rigor, não depende de excesso verbal, menos ainda de intimidação. Quando todos gritam, falar com serenidade é uma forma de poder.
Elegância não é percebida apenas na aparência, status ou refinamento social, mas também e sobretudo na convivência educada, mostrando que é possível exercer o conflito, sustentar convicções contrárias sem ódio, sem arrogância e defender convicções sem transformar a vida pública em uma batalha.
A política exige responsabilidade e nesse sentido, a elegância, o pragmatismo deixam de ser apenas questão de estilo e passa a ser uma destacada qualidade política
Em um ideal moral moderno, elegância é fazer o outro se sentir respeitado. Em A Ética da autenticidade, Charles Taylor, filósofo canadense, explica que o indivíduo autêntico não é aquele que fala o que pensa impulsivamente ou agressivamente. Autenticidade é viver e agir de acordo com aquilo que se considera valioso, inclusive na relação com o outro. É interessante analisar o equilíbrio entre a elegância política contida na serenidade e na autenticidade e o choque que causa o estilo belicoso porque essas dinâmicas movem engajamentos e definem estratégias de comunicação com o eleitorado.
A política exige responsabilidade e nesse sentido, a elegância, o pragmatismo deixam de ser apenas questão de estilo e passa a ser uma destacada qualidade política. Recorro a história recente para identificar líderes elegantes como: Ângela Merkel, Nelson Mandela, Barack Obama e Fernando Henrique Cardoso, que durante seus governos personificaram a elegância institucional, buscando consensos, controlando o teor dos discursos para pacificar crises.
Por outro lado, o estilo belicoso e confrontador, de Winston Churchill, porém, no contexto da Segunda Guerra Mundial, Donald Trump, Jair Bolsonaro e Nayib Bukele, que se utilizam de retóricas inflamadas para sustentar suas bases em permanente estado de guerra com discurso de ódio, principalmente das mídias sociais.
No momento presente, em que quase todos os contextos estão contaminados pela retórica agressiva, polarizada, políticos dispostos ao confronto, é chique sustentar posições firmes sem recorrer à agressividade e humilhação ou ao estado permanente de espetáculo, que tanto mobiliza quanto desgasta rapidamente.
No contexto da comunicação atual, temos como resultado um eleitorado mobilizado mais por vínculos afetivos do que por engajamento qualificado. O estilo belicoso ganha destaque tático porque prioriza o engajamento rápido, baseado em emoções negativas, como a indignação. Justamente no cenário saturado por gritos, provocações e hostilidade, a elegância política pode ser uma força moral contundente.
Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com