Cuiabá, 17/09/2026

Essa urgência precisa chegar às urnas

Rodinei Crescêncio/Rdnews

A invisibilidade da violência que antecede o feminicídio ao celebrar 20 anos da Lei Maria da Penha, exaltada pela ONU como uma das melhores leis do mundo contra a violência doméstica, pela profundidade de seus artigos, a dureza das penas estabelecidas com a tipificação dos crimes, enfim, conhecida como a lei que mudou a forma como o Brasil enfrenta a violência contra a mulher. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, considerando o mês de conscientização pelo fim da violência contra a mulher repercutiu a realidade que era esperada pela sociedade como um todo: os feminicídios atingem números recordes: o Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025; mais de 4 mulheres assassinadas por dia, 80% dos casos pelos parceiros e ex-parceiros.

O Conselho Nacional de Justiça divulgou dados revelando que 225.535 medidas protetivas de urgência foram concedidas apenas nos quatro primeiros meses de 2026. O Observatório Caliandra do Ministério Público de Mato Grosso registrou 31 casos de feminicídio e somente 5 dessas mulheres haviam solicitado medida protetiva. O Sistema de Justiça concedeu 7.796 medidas protetivas de janeiro a maio de 2026 conforme dados alimentados pela Secretaria de Segurança Pública. Cerca de mil agressores de mulheres foram presos, afirmação da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher.

Não podemos naturalizar esses dados, até porque o Anuário detalha que cresceram também os crimes que antecedem o feminicídio, como violência psicológica, perseguição, descumprimento de medidas protetivas, ao tempo em que, destaca a queda nos números dos demais crimes letais. É estarrecedor, mas nem a queda da violência impediu o recorde de feminicídios.

O questionamento é: como fazer para que as mulheres cheguem ao sistema institucional de proteção antes do feminicídio

Temos boas leis, eficiente sistema de controle e estatística, porém convivemos com uma realidade preocupante: a violência e as mortes persistem, porque a cadeia de proteção não chega a todas as mulheres e o sistema (delegacias, abrigos, medidas protetivas) é insuficiente, além de abrigar funcionários despreparados, que ali mesmo, no ato do recebimento da denúncia já desqualificam a mulher. Sem o preparo, apoio e investimento institucional para o atendimento às mulheres não há a aplicabilidade real da lei. Sem educar contra a misoginia, o desprezo e a desvalorização da mulher vão sendo legitimados por células radicais do movimento conhecido como machosfera, que opera disseminando discurso de ódio contra mulheres mas mídias, cujos ídolos, os irmãos lutadores Andrew e Tristan Tate, expoentes do movimento redpill, que foram recentemente presos nos Estados Unidos, vão ganhando adeptos.

Barrar e enquadrar homens e movimentos que agridem e assediam é um bom começo. Desde um influenciador chamado Dudu Tips e um ministro do STJ, chamado Marco Buzzi foram pegos em atos de assédio sexual. Ambos foram denunciados e o ministro, inclusive, perdeu um cargo que ocupava no Superior Tribunal de Justiça.

O cenário nacional alarmante e vergonho se estende por Mato Grosso, como um fenômeno social tristemente persistente. Vivenciamos uma semana pesada, com imagens entrecortadas de mulheres sangrando em várias cidades do estado. Em Santo Antônio de Leverger, no distrito de Cangas, um homem assassinou a ex-esposa e a amiga dela; em Cuiabá, enquanto escrevo, neste sábado, dia 15, um homem, no bairro Alvorada assassinou a namorada, foragiu e deixou o filho dela, uma criança de apenas 3 anos com o cadáver na mãe na residência.  De 9 a 15 de agosto, não estão mais entre nós, a Sirlei, Maria Helena, Cleidinéia e Ana Cristina.

A indignação pública é necessária e deve atingir vários pontos, além da tragédia individual; o estado, a rede de proteção e a sociedade. O desafio é transformar a indignação em pressão pública, porque os dados apontam que grande parte das vítimas não pediram medida protetiva, mas muito provavelmente houve uma violência anterior e esta ficou fora do alcance institucional. Em Mato Grosso, o feminicídio nasce, cresce e acontece, dentro do ambiente doméstico e de intimidade.

O questionamento é: como fazer para que as mulheres cheguem ao sistema institucional de proteção antes do feminicídio e como fazer para que percebam que o risco que correm está dentro de suas relações próximas.

 Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com