Toda vida é política
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Eleição não é apenas o momento de escolher candidatos; é principalmente a ocasião para dar voz às insatisfações e cobrar respostas do poder público e dos candidatos. Não estudamos para ficar o tempo todo justificando as desigualdades sociais. O conhecimento deve servir para revelar suas causas, exigir compromisso e responsabilidade de quem disputa o poder e pode depois transformá-las. E o período eleitoral é também um período de debate público e uma das raras ocasiões em que a sociedade pode abertamente converter suas insatisfações em pressão política.
O cientista social Albert O. Hirschman tem vasto estudo sobre como os indivíduos reagem quando as instituições ou governos deixam de corresponder às suas expectativas e geralmente são três os comportamentos observados: o indivíduo abandona o partido, o candidato ou a instituição; o indivíduo usa sua voz para manifestar sua insatisfação, criticar, pressionar por mudanças e assim permanecer no projeto ou por lealdade, adia a saída do grupo confiando que a situação será corrigida. No livro Exit, Voice, and Loyalty, o autor propõe que ajamos nos momentos em que a voz é privilegiada e que a usemos para questionar políticos e transformar o descontentamento em demandas coletivas.
Ao expor sua teoria o autor não diz necessariamente que toda insatisfação gera mudança, mas diz que devemos verbalizá-la. O Papa Francisco certa vez disse: “Envolver-se na política é uma obrigação para o cristão. Nós, cristãos, não podemos nos fazer de Pilatos e lavar as mãos. Não podemos!”
E o período eleitoral é também um período de debate público e uma das raras ocasiões em que a sociedade pode abertamente converter suas insatisfações em pressão política.
É tempo de eleição e cobrança de um lado e promessas do outro. Depois do voto, vem a obrigação de transformar promessa em política pública. Os 2.63 milhões de eleitores de Mato Grosso terão 06 candidatos disputando o governo do estado; 10 candidatos na disputa pelas duas vagas no Senado Federal; 01 candidata a presidente da República; 136 candidatos a deputado federal e 264 candidatos a deputado estadual. São estes que solicitaram ao TRE o registro de suas candidaturas. Não falta quem dispute o seu voto. Há muita gente para ouvir e sobretudo para cobrar propostas e respostas para os problemas do Estado.
Afastar-se da política é escolher a saída. E o afastamento da política não elimina seus efeitos e reduz a capacidade de influenciar decisões que continuarão sendo tomadas em seu nome. Em Hirschman não falar de política é uma escolha, o que não pode é achar que a política não importa. A política tem impacto no cotidiano desde que controla os serviços básicos, do saneamento ao funcionamento dos hospitais públicos e valor do salário-mínimo.
No contexto das políticas públicas o mesmo problema, a mesma demanda surge eleição após eleição. Portanto, no período eleitoral devemos estabelecer uma relação de troca política entre a verbalização das insatisfações, as carências e expectativas e as respostas institucionais, prioridades claras para os problemas amplamente conhecidos dos candidatos.
Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com