Silval descreve pagamentos milionários de propina da JBS em troca de incentivos
O ex-governador Silval Barbosa (PMDB), em mais um trecho da delação premiada, fala sobre as vantagens recebidas pelo Grupo JBS S/A em decorrência da concessão de benefícios fiscais, bem como a propina pela empresa para garantir a manutenção do incentivo fiscal. Diferente do empresário Wesley Batista, um dos donos da JBS e delator na Operação Lava Jato, que deu detalhes dos valores pagos ao ex-gestor, o peemedebista descreve as tratativas de forma mais genérica.
Silval conta que após se reeleger, em 2010, soube que ocorreu uma troca na presidência do Grupo JBS, assumindo Wesley Batista no lugar do irmão, Joesley Batista. “[...] Sendo que a partir desse momento, até o ano de 2014, passou a tratar sobre a relação da empresa com o Estado de Mato Grosso, inclusive sobre os recebimentos da propina, com Wesley Batista”.
Gilberto Leite
Ex-governador Silval Barbosa detalha, na delação, esquema com Grupo JBS S/A
Antes das eleições, em 2010, Silval e o então secretário estadual de Indústria e Comércio, Minas e Energia (antiga Sicme) Pedro Nadaf fizeram uma visita a Joesley, ainda na condição de presidente, e lhe pediram ajuda financeira para a campanha, em troca de auxílio em questões tributárias da empresa no Estado.
Segundo Silval, Joesley concordou com o pedido e se comprometeu a doar aproximadamente R$ 3 milhões, “sabendo que as doações foram executadas através de caixa não oficial, no entanto, não se recorda o valor exato”, diz trecho do depoimento.
Já em 2011, em uma reunião com Wesley, o ex-governador conta que ficou acertado que a JBS pagaria propina anual a ele (Silval), visando auxiliar nos pagamentos de despesas remanescentes da campanha, bem como outros compromissos políticos. Em contrapartida, a JBS receberia benefícios fiscais no Estado. Coube a Nadaf aferir se os valores pagos a título de propina estavam corretos.
Silval revela que outros frigoríficos também foram beneficiados em esquemas similares, contudo, com tratativas individualizadas, negociadas por Nadaf. Os citados são Frialto; Marfrig; um frigorífico de Rondonópolis, cujo nome não é dito; e Redentor.
O segundo retorno que a JBS fez em favor de Silval foi o pagamento de um empréstimo de R$ 7 milhões, junto ao Banco Rural, feito em nome do empresário Cleudevaldo Birtche, conhecido como Tucura. O empréstimo foi realizado em nome de uma das empresas de Tucura, a Agropecuária Carolmila Ltda, para saldar uma dívida da Assembleia com o empresário Avilmar Araújo, assumida por Silval entre 2011 e 2012. A dívida foi paga em 2013 por meio dos “retornos” da JBS.
Outra dívida, também de R$ 7 milhões, contraída com os operadores financeiros Francisco Carlos Ferres, vulgo “Chico Badotti”, e Valdecir Piran, vulgo “Kuki”, foi paga com a propina da JBS. Nadaf fez o controle dessa operação, viabilizada por meio de cheques.
Trimec
O ex-governador diz que, entre 2012 e 2013, foram repassados cerca de R$ 10 milhões da propina da JBS e da Marfrig para a Trimec Construções e Terraplanagem Ltda, de propriedade de Wanderley Fachetti Torres. Comenta, ainda, sobre o recebimento de R$ 500 mil, por meio de um funcionário da JBS, durante uma viagem que fez a São Paulo.
Além disso, cita um empréstimo de R$ 1,3 milhão para o empresário João, da Enpa Construtora - responsável pela construção do viaduto do Tijucal -, oriundos de propina da JBS.
“Silval e Pedro Nadaf visitaram Joesley, então presidente, e lhe pediram ajuda para a campanha, em troca de auxílio em questões tributárias”
O peemedebista também faz menção à suposta doação ilegal da JBS à campanha do ex-governador Pedro Taques (PSDB). Segundo ele, foram destinados R$ 4 milhões da cota de propina do grupo, referentes à concessão ilegal de incentivos fiscais.
Por fim, Silval declara que tinha ciência que a JBS foi favorecida com créditos e incentivos, viabilizados por meio de um decreto, cujos detalhes foram tratados por Nadaf, “que era quem tinha a atribuição, inclusive, de encontrar os meios legais para a concessão”.
Apesar das tratativas para beneficiar a empresa, Silval não conseguiu evitar uma atuação em desfavor da JBS, pela secretaria estadual de Fazenda, o que resultou na propositura de uma ação civil que gerou o bloqueio de bens na ordem de R$ 73 milhões, atingindo a JBS, Silval, Nadaf, Marcel e Edmilson José dos Santos.
Por conta disso, Wesley Batista procurou o ex-governador “irado com a ação civil pública”, pois mesmo quitando a propina, “estava tendo entreveros no Estado”. Posteriormente, Nadaf conseguiu inserir a empresa no Prodeic, como forma de solucionar o problema.
Wesley Batista
O empresário, que também firmou acordo de delação premiada, disse que pagou R$ 30 milhões de propina para o ex-governador em troca da redução do percentual de impostos pagos pela empresa ao governo. O montante foi pago em três parcelas iguais em 2012, 2013 e 2014.
Os valores foram pagos em espécie, por meio de notas fiscais frias “que eles indicavam” e também por “doleiros, para terceiros que eles indicavam, que aí nós não temos esse registro hoje”. O primeiro contato de Silval com a JBS durante toda a negociação se deu por meio de Joesley. À época, Wesley morava nos Estados Unidos e, a partir de 2011, passou a operar o esquema.