Até a rapa do tacho com as tradições e com rapadura: conheça Seo Nequinho
José Medeiros
Seo Nequinho faz com amor e alegria as rapaduras, parte do sustento da família, ele ama agradar com os doces. Sua produção dura horas e esposa o ajuda
Desde as 2h30 da manhã o tacho, que está no fogo, aquece o caldo da cana, cortada do fundo do quintal. A colher de pau tanto se mexeu, que entornou. Já o caldo, virou melado. O cheiro vai longe, cada vez mais dourado, e a missão é transformá-lo em rapadura. Tradição que se repete ano após ano de um costume centenário, herdado do período colônia no Brasil.
José Medeiros
Mistura ferventada é saborosa e revela segredos de aroma e sabor. Rapadura é parte do costume imperial, e antes eram dadas ao povo que foi escravizado
Quem mantém o costume é um casal simpático, Seo Nequinho, 71 anos, e sua esposa Dona Maria, que este ano completou 70 anos. A rapadura é famosa em comunidades que cercam o rio Cuiabá e o Cuiabázinho. O modo carinhoso e artesanal que é preparada a iguaria tem seus segredos, mas é evidente que o maior deles é a simplicidade e alegria do casal, que contagia. Nequinho nasceu em Jangada e Maria é ribeirinha da Sela Dourada, que fica em Nobres, mesmo lugar em que vivem até hoje e onde o rio Cuiabázinho se torna o rio Cuiabá. Eles são personagens retratados na Expedição 300 - O rio das lontras brilhantes: da nascente à foz.
José Medeiros
Família adora as rapaduras e criançada faz a festa com os doces do avô, seo Nequinho diz que ela é nutritiva e, por isso, ele inventa receitas diferenciadas
Parceiros, eles se ajudam. Quando um cansa o braço, outro cata a colher de pau e continua. Enquanto não fica pronto o doce, que de tão popular virou até ditado, as histórias correm solta nas memórias. Dona Maria meio tímida, ora fala e outra brinca, sente saudade do rio que cresceu “banhando”. Antes de se casar, brincava nas águas cristalinas, e depois que conheceu Nequinho – por muito tempo ia lavar as roupas da família naquelas margens. Com o passar do tempo, muitas cercas foram construídas, o acesso foi proibido – e o rio deixou de ser parte da rotina. Hoje, eles estão a 800 metros do rio, mas não visitam às águas há tempos.
José Medeiros
Para manter tradição secular, moradores da Sela Dourada lutam contra modernidade. Eles fazem a rapadura no tacho de forma artesanal: uma delícia
Receita especial de Nequinho, ele se gaba das suas criações, mas uma em especial revela fazer mais sucesso, a rapadura com castanha do babaçu. Se questionado de onde tirou o feito, ele esboça um riso e brilha os olhinhos. “Tirei da cabeça mesmo”, como quem justifica a feitoria – provada e aprovada, pois é a que mais vende.
José Medeiros
Fogo é alto e cheiro da rapadura chega longe com melado que é feito da cana, que foi cortada do quintal de seo Nequinho e dona Maria na comunidade
Outra coisa boa, uma dica de sua valia, é comer paçoca com farinha. Gostoso mesmo, sem igual, como quem indica uma dentre tantas outras docerias que lhe águam a boca. Fecha os olhos e se recorda faceiro. Dona Maria sorri como quem concorda em número, grau e gênero.
José Medeiros
Seo Nequinho , aos 71 anos, é ativo e bastante carinhoso com a equipe da expedição 300 que desceu o rio para encontrar sua família e acompanhar os feitos
Quando fica no ponto, com ajuda, logo despejam o melado em quadrados que formam “tijolos” de açúcar. Olhando de perto, de tão firmes depois de secos, poderiam erguer uma casa que nem a da estória do conto João e Maria, ou melhor, Nequinho e Maria. Às 9h30 da manhã a produção está pronta para ser consumida, mas acelera o passo com a colher de pau na mão e oferece ela ao fotógrafo José Medeiros com um servido que, ao ver do senhorzinho guarda o melhor sabor. “Prova a rapinha do tacho, é uma delícia”, finaliza.