Júri sobre morte de PM acumula “estranhamentos” entre defesa e MP e desgaste de testemunhas
O julgamento teve início nesta terça-feira (12); o crime ocorreu em 2023, em uma distribuidora em Cuiabá
O julgamento do investigador da Polícia Civil Mário Vieira da Silva Gonçalves - réu pela morte do policial militar Thiago de Souza Ruiz, em uma conveniência de um posto em Cuiabá, em 2023 -, que está em seu segundo dia nesta quarta-feira (13), ocorre regado a embates e sucessivos “estranhamentos” entre os advogados de defesa do réu, Renan Canto e Cláudio Dalledone, e o promotor do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), Vinícius Gahyva Martins. Além disso, há uma clara abordagem de desgaste dos depoentes, por parte da defesa. A sessão está sendo transmitida pelo canal do TJMT no YouTube.
Desde ontem, após o MP encerrar os questionamento da testemunha Gilson Vasconcelos Tibaldi de Amorim Silva - amigo de Mário, que dirigia o carro que levou e tirou o réu da conveniência, à época dos crimes - a palavra foi passada à defesa, que começou a fazer questionamentos similares aos do promotor, Vinícius Gahyva, além de ler o depoimento da testemunha dado na data do crime, o que levou a um "estranhamento" entre MP e defesa sobre um possível desgaste à testemunha.
Alair Ribeiro/TJMT/Montagem
O advogado Renan Canto (de pé) e o promotor do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), Vinícius Gahyva Martins; no detalhe, o réu Mário Vieira
A situação foi marcada, o tempo todo, pelo sarcasmo entre Dalledone, Canto e Gahyva, em que o representante do MP chega a dizer que Dalledone estaria tentando induzir o depoente a responder de uma determinada forma.
O cenário ficou acalorado após Renan Canto dar sequências às perguntas, levantando da cadeira e solicitando imagens de parte do processo, com fotos da cena do crime. Mais uma vez o MP rebateu, chegando a dizer que a defesa estava adiantando uma parte do processo que não deveria ocorrer naquele momento.
No momento em que o depoente passa a ser Walfredo Raimundo Adorno Mourão Júnior - investigador da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e amigo de Thiago, que estava presente no momento do crime - a situação de desgaste aumentou.
Visivelmente abalado e alterado, Walfredo inicia o depoimento desabafando sobre o dia do crime, chegando a dizer que “ajoelhou e pediu perdão” à mãe de Thiago “por não ter conseguido salvá-lo”.
Ao longo do depoimento, Walfredo acabava declarando situações fora da cena do crime, como o fato dos problemas de saúde da filha dele, que possui uma condição médica complicada e que requer atenção. Além disso, assumiu que, devido a esse e outros problemas pessoais, fez uso contínuo de cocaína e maconha e que, atualmente, é dependente desta segunda droga, mas que busca a associação de Alcoólicos Anônimos (AA) e Grupos Familiares Al-Anon.
Alair Ribeiro/TJMT
Walfredo Raimundo Adorno Mourão Júnior, durante depoimento no primeiro dia do Tribunal do Júri
Na sequência, após fazer diversos questionamentos sobre o uso de entorpecentes, inclusive perguntando se Walfredo havia feito uso de cocaína no dia do crime - algo que o depoente negou -, a defesa pediu a transmissão do vídeo de câmeras de segurança da conveniência, fazendo perguntas técnicas sobre trajeto e trajetória de tiros, uso de coldre e até mesmo o motivo de um dos vídeos - que está anexo aos autos - estar 52 segundos a menos, algo que Walfredo respondeu, muitas vezes emocionado e até chorando, não saber, destacando que tal informação não cabia a ele, já que não estava à frente as investigações.
Já nesta quarta-feira (13), questionamentos sobre Walfredo continuaram, mas desse vez ao depoente Guilherme Facinelli, que é delegado de Polícia Civil e já trabalhou com Mário. O advogado Renan perguntou se Facinelli sabia sobre Walfredo ter problemas com relação ao uso de drogas, ao que o depoente responde que “em relação à documentação não, mas de ouvir falar, sim”.
Renan perguntou novamente sobre o uso de drogas por parte de Walfredo e Facinelli disparou: “Se o que você quer saber se ele trabalhou comigo, foi na Derf [Delegacia Especializada de Roubos e Furtos]”. O advogado provocou mais uma vez, questionando sobre a conduta de Walfredo ao colega, que respondeu: “O Walfredo era instável. Quando ele está bem é trabalhador e diligente, quando não está bem, aí….”.
Renan pede, novamente, a reprodução do vídeo das câmeras de segurança da conveniência e questiona, mais uma vez, sobre trajeto e trajetória dos tiros no dia do crime, ao que o depoente fica confuso e questiona se tal pergunta não seria técnica.
“Isso não é técnico? Isso não é a perícia que tem que dizer? Isso não consta nos autos? Se não estiver [nos autos], eu falo. Eu respondo o que for, mas eu quero entender o que tem a ver isso com o fato, para eu falar. Mas se mandar eu responder, eu respondo. Eu quero entender a pergunta para poder responder”, rebate o delegado depoente.
Ainda reproduzindo o vídeo, Renan questiona o depoente: “Se a arma já teria sido retirada, porque que ele [Thiago] continuou [o enforcamento] contra ele [Mário], já que o MP alega que ele [Thiago] queria recuperar a arma?”.
Alair Ribeiro/TJMT
O delegado Guilherme Facinelli, durante depoimento nesta quarta-feira
Advogado disse estar "armado"
A teatralidade conduzida pela defesa é escancarada quando, ainda no depoimento de Facinelli, o advogado Dalledone, enquanto falava sobre porte de arma de fogo, diz que estava armado. Gahyva o interrompe e pergunta: “O senhor está armado?” e chega a sugerir que a equipe de segurança o reviste "respeitosamente", ao que Dalledone diz: “Sim, estou armado de argumentos”.
Exame toxicológico
Outro ponto que gerou embates na sessão foi em relação ao exame toxicológico realizado em Thiago após a sua morte, que, segundo a defesa, não estava nos autos. Nesse momento, Gahyva disse que teve acesso ao exame e que não anexou aos autos em respeito à defesa, pois o havia recebido ontem, fora do prazo, mas que poderia fazê-lo naquele exato momento, porém os advogados de defesa não responderam a isso.
Facinelli foi questionado pela defesa sobre a ausência do exame nos autos e o delegado respondeu: “Doutor, eu não sei. Isso aí é baixar no site da Politec. Eu tenho a senha, magistrado tem a senha…”. Em seguida, foi interrompido por Dalledone, que disse: “Mas nós não [tivemos acesso], porque o MP não quis surpreender a defesa”.
Alair Ribeiro/TJMT
Os advogados Renan Canto (sentado) e Cláudio Dalledone e o promotor do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), Vinícius Gahyva Martins
No momento, o promotor rebateu: “Não, não. Eu não anexei pois chegou a mim fora do prazo”.
O julgamento segue com sua transmissão até a finalização das oitivas e deliberação dos jurados.
O crime
Mário Wilson responde por homicídio qualificado, com as agravantes de motivo fútil e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima, conforme denúncia do MPMT.
De acordo com as investigações, na madrugada do crime, a vítima chegou à conveniência acompanhada de um amigo. Posteriormente, Mário Wilson também chegou ao local e foi apresentado ao policial militar.
Imagens de câmeras de segurança registraram os envolvidos conversando momentos antes do crime. Conforme o inquérito, em determinado instante, Thiago Ruiz teria mostrado a arma que portava na cintura. Na sequência, o investigador civil se apoderou do revólver e efetuou os disparos. O policial militar morreu no local.