Cuiabá, 20/09/2026

Após Trump, líderes da América Latina endurecem políticas de imigração

Nos últimos três meses, Argentina, Chile e Colômbia começaram a emplacar medidas anti-imigração similares às americanas em seus governos

Em menos de três meses, três presidentes latino-americanos endureceram as políticas de imigração de seus países, adotando medidas que espelham a abordagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desde o início de seu segundo mandato, em janeiro de 2025.

As medidas anunciadas variam desde a proibição de entrada de estrangeiros considerados promotores de mensagens hostis até operações policiais para expulsar imigrantes não documentados.

Reprodução/Instagram

Essas medidas estão sendo implementadas em um contexto de crescente poder da direita na América Latina, alguns dos quais são abertamente apoiados por Trump, que busca a hegemonia dos EUA na região e, para esse fim, promove iniciativas em áreas como segurança, combate ao crime e controle da imigração.

Três presidentes focam na imigração

Os três países que endureceram suas políticas de imigração nos últimos meses são Argentina, Chile e Colômbia, todos com líderes alinhados a Trump, que fez do endurecimento da política de imigração nos Estados Unidos um pilar de seu segundo mandato.

Chile

O Chile foi o primeiro a tomar medidas sobre essa questão. Em 1º de junho, o presidente chileno José Antonio Kast anunciou um plano para incentivar imigrantes não documentados a retornarem voluntariamente aos seus países de origem, argumentando que isso lhes permitiria retornar posteriormente ao território chileno.

“Eles poderão solicitar novamente a entrada em nosso país, mas pela porta da frente, não pelos fundos. Sempre fomos acolhedores com estrangeiros que vêm de fora, e muitos de nós aqui, filhos de imigrantes, podemos atestar isso, mas isso precisa ser feito de forma ordenada”, disse o presidente, de ascendência alemã, que está no cargo desde 11 de março.

Dias depois, Kast anunciou mais duas medidas: uma iniciativa de reforma para estender de cinco para 60 dias — com possibilidade de novas prorrogações — o período durante o qual um imigrante pode ser detido pelas autoridades antes de ser expulso do país, e outra para ampliar a definição de tráfico de migrantes, incluindo não apenas aqueles que facilitam a entrada no Chile, mas também aqueles que facilitam a saída do país e aqueles que transportam internamente pessoas indocumentadas.

Argentina

Em 29 de julho, o governo argentino anunciou suas próprias medidas.

O presidente Javier Milei, no cargo desde dezembro de 2023, assinou um decreto proibindo a entrada ou expulsando qualquer estrangeiro que “dirija ou incite mensagens de ódio, discriminação e/ou violência contra o povo argentino ou seus cidadãos com base em sua nacionalidade, bem como aqueles que profanem símbolos nacionais”, segundo comunicado divulgado na época pela Presidência do país.

“Diante das recentes demonstrações de hostilidade contra a República Argentina e os argentinos, o Governo Nacional reafirma que a defesa da Nação, de seus cidadãos e de seus símbolos é inegociável. Quem ataca a República Argentina não é bem-vindo em nosso país”, declarou a Presidência, dias depois de Milei afirmar, sem provas, que o México e o Brasil estariam supostamente por trás de uma campanha contra a Argentina, alegação negada por ambos os governos.

Colômbia

Quase um mês depois, a Colômbia também adotou medidas mais rigorosas em sua política de imigração. Em 24 de agosto, o presidente Abelardo de la Espriella anunciou que seu governo iniciaria imediatamente operações para expulsar imigrantes indocumentados ou aqueles que cometessem crimes.

“Não aceitarei imigração ilegal aqui. Colombianos em primeiro lugar, colombianos em segundo e colombianos em terceiro, para que todos entendam. A ordem para a Imigração é clara, e vamos contatá-los agora mesmo e dar-lhes a ordem: iniciem as operações coordenadas com a Polícia”, declarou o líder durante uma reunião com autoridades, três semanas após assumir o cargo em 7 de agosto.

A Política dos EUA como Modelo

Analistas consultados pela CNN têm interpretações diversas sobre o que levou esses presidentes ao recente endurecimento de suas políticas de imigração.

O chileno Patricio Navia e o colombiano Lucas Martínez-Villalba concordam que nesses países existem fatores objetivos que tornam a migração uma questão de interesse público e até mesmo de preocupação para alguns setores, mas divergem quanto ao propósito das medidas adotadas.

Navia, professor da Universidade de Nova York, considerou que essas ações em si não buscam emular as de Trump, mas são aquelas que esses governos consideram mais viáveis ​​para enfrentar o que percebem como um problema.

“Não é que a América Latina queira copiar os Estados Unidos, mas sim que os problemas que os Estados Unidos normalmente enfrentavam com os imigrantes são os mesmos problemas que agora existem na América Latina”, disse ele.

Como exemplo, o especialista citou o Chile, onde a proporção de imigrantes cresceu significativamente nas últimas décadas, levando a uma maior demanda por moradia e serviços públicos, como saúde e educação.

Segundo o Serviço Nacional de Migração do país, o número total de imigrantes no país ultrapassou 1,9 milhão em 2023 — os dados mais recentes disponíveis —, representando um aumento de 46,8% em comparação com os 1,3 milhão em 2018. Desse grupo, os venezuelanos são os maiores, com 728 mil, seguidos pelos peruanos, com 260 mil, e pelos colombianos, com 209 mil.

Martínez-Villalba, professor do Tecnológico de Monterrey, explicou que uma situação semelhante existe na Colômbia, que recebeu aproximadamente 2,8 milhões de venezuelanos somente nos últimos anos, segundo estimativas da OIM (Organização Internacional para as Migrações). A Colômbia é o principal destino da diáspora venezuelana, resultante da situação política e econômica do país caribenho, de onde emigraram cerca de 7,89 milhões de pessoas.

O acadêmico reconheceu que isso representa desafios para a Colômbia. No entanto, diferentemente de Navia, Martínez-Villalba acredita que a decisão de De la Espriella de endurecer a política de imigração não visa apenas resolver um problema público, mas também a obter apoio de Trump, algo que ele acredita que Kast e Milei também pretendem fazer, talvez com o mesmo objetivo de obter aprovação política e comercial dos Estados Unidos.

“Todos esses países parecem estar se alinhando a uma única ideia, seguindo o modelo da política de imigração dos EUA, que é encarar a migração como um problema, uma ameaça aos valores do país e como o suposto custo da adoção de políticas que favorecem os migrantes”, disse ele.

Uma referência política a Donald Trump

Ainda não está claro quais resultados as medidas recém-anunciadas estão produzindo.

A CNN contatou os três governos em busca de informações. Argentina e Chile não responderam aos questionamentos, enquanto a agência de imigração da Colômbia indicou que ainda não possui um relatório consolidado porque as operações começaram há poucos dias.

A agência informou que cinco estrangeiros foram expulsos em 28 de agosto na cidade de Bucaramanga, no departamento de Santander, por serem considerados “um risco à segurança nacional” devido a seu histórico de porte de armas, brigas, desrespeito à autoridade e uso de drogas em locais não autorizados.

Ela acrescentou que outro estrangeiro com antecedentes criminais foi deportado no departamento de Cundinamarca e que outras retiradas foram realizadas em decorrência de alertas em postos de controle de imigração nas fronteiras.

Navia considerou a eficácia dessas medidas ainda uma questão em aberto porque, entre outros fatores, a expulsão de migrantes é uma tarefa complexa e dispendiosa.

“É muito mais difícil de implementar do que prometer, porque os migrantes chegam a esses países, casam-se com os locais, falam a mesma língua, integram-se às comunidades e, em muitos casos, contribuem significativamente para a economia. Não é tão simples quanto aparecer e expulsar as pessoas”, afirmou ele.

Para Martínez-Villalba, por sua vez, a eficácia teria de ser medida de acordo com o objetivo desse endurecimento da política de imigração. Segundo o acadêmico, se o propósito desses governos é reduzir os gastos públicos ou a insegurança — argumentando, como Trump, que os imigrantes representam um alto custo para os serviços públicos e aumentam a criminalidade (algo que não é comprovado por dados em nenhum desses países) — os resultados serão incertos.

Por outro lado, o especialista defendeu que, se o objetivo é fazer um gesto político em relação aos Estados Unidos, a probabilidade de sucesso é maior.

“Estamos em um cenário de 'homem forte', em que o líder mundial Donald Trump está agindo precisamente de acordo com sua própria personalidade”, disse Martínez-Villalba. “Na medida em que ele sentir que continua sendo admirado, respeitado e até mesmo que suas propostas são validadas, ele retribuirá com os países, com os governos, que demonstrarem isso a ele”, concluiu.