Nobel da Paz 2026 vai para juíza que apontou genocídio em Gaza
'Pillay é um exemplo na promoção da paz e do direito internacional', segundo o Comitê do Nobel
O Prêmio Nobel da Paz 2026 foi concedido à jurista sul-africana Navanethem "Navi" Pillay, de 85 anos, anunciou o Comitê Norueguês do Nobel, em Oslo, nesta sexta-feira (10).
Ela foi laureada "por sua coragem e integridade excepcionais em sua atuação jurídica e por seus esforços para promover a paz e o direito internacional", afirmou o presidente do comitê, Jørgen Watne Frydnes. Durante sua carreira, Pillay:
Reprodução/CNN Brasil
garantiu que Nelson Mandela tivesse acesso a um advogado quando ele estava preso durante o Apartheid;
se tornou a primeira mulher não branca na Suprema Corte da África do Sul;
julgou o genocídio em Ruanda;
chefiou a área de direitos humanos da ONU;
presidiu o comitê contratado pela ONU que determinou que Israel cometeu genocídio em Gaza.
"O compromisso de Navi Pillay com os princípios jurídicos universais e sua firme bússola moral são constantes ao longo de sua extensa carreira. Nascida em uma família de origem tâmil indiana, durante o apartheid, em Durban, na África do Sul, Pillay tornou-se advogada e pioneira no campo jurídico, enfrentando a profunda discriminação estrutural, a segregação e a exclusão", afirmou Frydnes.
Frydnes pareceu alfinetar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao afirmar que a premiação à jurista sul-africana foi “uma mensagem àqueles que estão atacando e enfraquecendo o sistema internacional”.
O norueguês não foi o único a lembrar do líder norte-americano. Em um breve discurso após saber que venceu o Nobel da Paz, Pillay brincou, de forma irônica, sobre dividir o Nobel da Paz com Trump. Ela também se disse surpresa com sua laureação e defendeu os direitos humanos.
Pillay foi a 21ª mulher a ser laureada com o Nobel da Paz, de um total de 144 vencedores. Ela tem uma carreira de cinco décadas como advogada e juíza (leia mais abaixo). Além de uma medalha, a jurista também receberá 12 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6 milhões).
Pillay foi informada sobre sua vitória do Nobel da Paz apenas após o anúncio, segundo Frydnes. Em seu discurso em Oslo, ele chegou até a brincar e pedir para que ela "atendesse o telefone".
O governo de Israel criticou a premiação a Pillay e acusou o Nobel da Paz de incitar "ódio anti-Israel".
A presidente do Tribunal Penal Internacional (TPI), Tomoko Akane, parabenizou Pillay pelo Nobel da Paz. A procuradora-geral adjunta do TPI, Nazhat Shameem Khan, que a premiação é "uma homenagem aos direitos humanos".
O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk, afirmou que o Nobel da Paz a Pillay é "uma vitória coletiva dos direitos humanos e da justiça".
O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, também parabenizou Pillay.
Atuação jurídica
Navanethem Pillay começou sua carreira jurídica nos tribunais da África do Sul na época do Apartheid, sistema de segregação racial que dividia a população sul-africana por cor de pele e reservava a maior parte dos direitos políticos e civis à minoria branca. O regime segregacionista ocorreu entre as décadas de 1940 e 1990 no país africano.
O Congresso Nacional Africano (CNA), partido que liderou a luta contra o regime, descreve-a como uma ativista anti-apartheid cuja trajetória se confunde com a história da libertação do país.
Pillay garantiu que Nelson Mandela tivesse acesso a um advogado quando ele estava preso e, por conta de sua atuação contra o Apartheid, ela foi nomeada por Mandela à Suprema Corte da África do Sul, o que a tornou a primeira mulher não branca a integrar o mais alto tribunal do país.
A partir de 1995, a carreira de Pillay se internacionalizou e ela se tornou juíza do Tribunal Penal Internacional (TPI), uma corte independente que julga crimes contra humanidade e crimes de guerra, e da Corte Internacional de Justiça (CIJ), principal tribunal da ONU e que resolve disputas entre Estados e preserva o direito internacional.
Ela presidiu o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, criado para julgar os responsáveis pelo genocídio de 1994 naquele país africano.
Entre 2008 e 2014, Pillay ocupou o cargo de Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, a principal autoridade da instituição multilateral dedicada a acompanhar violações cometidas por governos no mundo inteiro.
Mais recentemente, Pillay presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o território palestino ocupado, Jerusalém Oriental e Israel, contratada pela ONU, que determinou que Israel cometeu genocídio na Faixa de Gaza durante os dois anos da guerra contra o grupo terrorista Hamas.
Recado a Trump?
Perguntado por uma jornalista se a premiação a Navi Pillay foi um recado para o mundo, o presidente do Comitê Norueguês do Nobel confirmou e disse que a premiação a Pillay foi “uma mensagem àqueles que estão atacando e enfraquecendo o sistema internacional”.
Esta é uma mensagem de que o direito internacional e suas instituições são fundamentais para um mundo mais pacífico. Portanto, esperamos que este prêmio também fortaleça as instituições e as pessoas, não apenas Navi Pillay, mas especialmente ela. Esta é uma mensagem para aqueles que não respeitam este tribunal. Com certeza. É uma mensagem para aqueles que estão atacando e enfraquecendo o sistema internacional, o sistema internacional baseado no Estado de Direito e suas instituições. Sem dúvida nenhuma”, afirmou Jørgen Watne Frydnes.
Ao todo, 287 candidatos foram indicados para o prêmio deste ano, incluindo 208 pessoas e 79 organizações, segundo o comitê do Nobel. No entanto, ninguém sabe quem eles são porque a lista de indicados é mantida em sigilo por 50 anos dentro de um cofre no porão do Instituto Nobel da Noruega, em Oslo.
O prêmio é escolhido pelo Comitê Nobel Norueguês, que é formado por cinco pessoas nomeadas pelo Parlamento da Noruega. O comitê, no entanto, não têm nenhum vínculo com o governo norueguês. Seus membros são frequentemente, mas não sempre, políticos aposentados.
Novamente, não deu para Trump
Trump, que é fascinado pelo Nobel da Paz, novamente não foi laureado neste ano. Ele voltou a defender sua candidatura nesta semana ao dizer que "impediu a destruição total do mundo".
Em 2025, ele pressionou o comitê norueguês para vencer o prêmio sob a alegação que havia terminado oito guerras, mas também não venceu. A Casa Branca, inclusive, fez uma campanha institucional para que Trump vencesse o Nobel.
Em janeiro deste ano, o presidente norte-americano enviou uma carta ao governo da Noruega em que culpou o país por não ter vencido e disse "não se sentir mais obrigado a pensar apenas na paz".
A vitória de Corina Machado em 2025 foi atribuída justamente à influência de Trump por ocorrer em meio à campanha de pressão contra o regime Maduro, que culminou meses depois com uma operação militar norte-americana em Caracas que depôs o ditador. Leia mais abaixo.
Polêmica com Nobel da Paz 2025
A política María Corina Machado, líder da oposição ao chavismo na Venezuela, venceu o Nobel da Paz de 2025. O Comitê do Nobel destacou sua luta pela democracia e pelos direitos humanos na Venezuela do regime Maduro.
Sua premiação, no entanto, foi rapidamente envolta em uma polêmica que teve o presidente dos EUA, Donald Trump, como um dos pivôs. Corina Machado deu sua medalha do Nobel da Paz ao presidente norte-americano após ele tê-la pressionado a fazê-lo e também em meio a uma investida da líder opositora venezuelana para assumir o poder na Venezuela com a ajuda dos EUA.
Apesar do gesto, Corina Machado foi preterida pela vice de Maduro, Delcy Rodriguez, para ficar no poder após a ação militar que derrubou Maduro.