Empresário e pai da jovem responsável pela morte da amiga assume negligência
O empresário Marcelo Cestari, de 46 anos, reconheceu que foi negligente ao não prestar mais atenção nas armas deixadas pelo namorado da filha, que é apontada como a responsável pelo disparo acidental que tirou a vida de Isabele Guimarães, na noite do último domingo (12), no condomínio Alphaville I, região nobre da Capital.
"Poderia ter dado mais atenção e tomado mais cuidado na vigilância de um adolescente armado dentro de casa", disse. Ele negou que tenha ingerido alcool, substância entorpencentes ou briga entre os os adultos ou crianças naquele dia.
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O empresário Marcelo Cestari chegou a ser preso por posse ilegal de arma na segunda-feira
A afirmação consta em depoimento do empresário ao delegado Olímpio da Cunha Fernandes, na Delegacia de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP) da Polícia Civil, na última terça (14).
Após o disparo acidental, o empresário imaginava que a amiga da filha tinha sofrido um acidente doméstico. Ele encontrou Isabele caída de lado no banheiro do closet do segundo andar. Não havia sangue ou marca de tiro visível. Só foi saber que a adolescente tinha sido vítima de um acidente com arma de fogo quando alguém, sem saber quem, teria lhe repassado tal informação.
O empresário também disse que é comum os filhos acessarem e transportarem as armas em sua casa. "Mas somente as armas utilizadas por esporte e quando iriam fazer treinamento ou quando determinado pelo interrogado [Marcelo], acreditando que nenhum deles o desobedece".
Em depoimento que durou mais de duras horas, Marcelo começa afirmando que é atirador esportivo desde novembro de 2018, que possui sete armas e que treina em um clube. A esposa e os filhos também praticam o esporte. O objetivo era levá-los a conhecer a "prática de um esporte diferente".
Isabele era companhia frequente na casa do empresário, já que era amiga dos filhos, principalmente das duas filhas, da qual eram confidentes. Era comum ela passar noites na mansão e era visita frequente depois da morte do pai, em acidente de trânsito, em 2018. O empresário lembra que a jovem tinha um comportamento tranquilo, ativo e animado.
O domingo no dia do acidente
Na manhã daquele domingo (12), o empresário, a mulher e os filhos estavam em casa. Isabele chegou depois da hora do almoço. Na tarde, chegou o namorado da filha, de 16 anos. Uma das armas do pai do jovem, que é agropecuarista, foi responsável pelo disparo acidental.
Marcelo limpava duas armas para que sua esposa e filhas pudessem usá-las em treino, além de organizar papéis, já que tinham uma viagem de negócios programada para esta terça (14). Sem muita atenção, o empresário percebeu a chegada do namorado. Em seguida, o jovem apresentou duas armas que pertenciam a seu pai agropecuarista ao empresário.
Segundo depoimento de Marcelo, uma das armas foi lhe mostrada aberta, desmuniciada e sem carregador. Ele reconheceu o desejo de comprar mais uma arma para o treino de suas filhas, mas não comfirmou ao adolescente que iria comprar aquela. Marcelo disse que o pai do jovem confiava ao filho o porte de armas e que já o tinha visto portando os artefatos nos clubes, inclusive desacompanhado do pai.
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Trecho do depoimento de Marcelo Cestari à polícia no inquérito que investiga a morte de Isabele
Marcelo disse que não sabia que o jovem iria levar as armas para sua casa e afirmou que ficou supreso com isso. O empresário não soube confirmar se o rapaz usava as armas fora dos clubes. Após a apresentação dos artefatos, ele voltou às suas atividades e não prestou atenção em como o jovem guardou as duas armas no case - uma bolsa de pano.
O rapaz ficou para o jantar. Após a refeição, o irmão dele passou para buscá-lo na casa do empresário. Foi quando o namorado da filha pediu para deixar as armas na casa do empresário. O jovem alegou que seu irmão "tem imã para blitz" e não queria correr o risco de ser penalizado. Marcelo concordou e pediu para a filha que levasse a arma e guardasse no closet.
O momento do tiro
“O empresário escutou um barulho, que lhe pareceu uma porta de vidro sendo fechada. Ele acreditou neste som, já que o escutou abafado por das contas das portas fechadas atrás de si, que estavam com um aparelho de ar condicionado ligado. Por isso, ele não interpretou que o som poderia ser de disparo de arma”
A adolescente não obedeceu a ordem do pai de imediato, percebeu o pai Marcelo. No depoimento, a filha do empresário disse que, após se despedir do namorado, seguiu a amiga Isabele até o closet, onde tem um banheiro. A adolescente não respondia ao seus chamados. Assim, ela resolveu bater na porta, momento em que o case teria caído no chão. Ela afirmou que colocou as armas uma sob a outra e que se desequilibrou, enquanto segurava com a outra mão a bolsa, momento que ocorreu o disparo.
Neste momento, o empresário já não sabia o que acontecia dentro de casa, nem sabia do paradeiro Isabele ou de como a filha tinha pego a case. Ele comia a sobremesa na área externa da casa, próxima à piscina.
O empresário escutou um barulho, que lhe pareceu uma porta de vidro sendo fechada. Ele acreditou neste som, já que o escutou abafado por das contas das portas fechadas atrás de si, que estavam com um aparelho de ar condicionado ligado. Por isso, ele não interpretou que o som poderia ser de disparo de arma.
No mesmo instante, escutou o grito da esposa. Abriu a porta e ouviu os gritos da filha, em pânico, que chamava pela amiga na parte superior da escada que dá acesso ao segundo andar. O empresário subiu correndo os degraus e entrou no quarto em direção ao closet. Ele acreditava que Isabelle tinha sofrido um acidente doméstico.
Marcelo chegou ao banheiro e se deparou com a adolescente caída próxima à banheira. O tronco e a cabeça estavam inclinada lateralmente. Em seguida, o empresário gritou para chamarem o Samu e a mãe da menina. Mas foi ele mesmo que ligou para os socorristas que o orientararam a ele próprio prestar os primeiros socorros.
Os socorristas orientaram-no a colocá-la numa superfícia plana. Ele sentiu uma bola na nuca da menina, mas acreditou que seria por causa da queda. Fez massagem cardíaca, pegou o pulso da jovem e não sentiu pulsação. A esposa chamou um médico, que chegou antes dos socoristas, e que verificou que a adolescente já estava em óbito. Em seguida, chegou o Samu que também confirmou a morte.
Além da jovem adolescente, o pai e o sogro também são investigados pela Delegacia Especializada de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Deddica), que assume o caso a partir de agora.