Cuiabá, 30/10/2026

Violência entre alunos é um problema de todos

    Entre tantos comentários pertinentes enviados ao RDNews acerca da problemática da educação, principalmente por força de três reportagens da Rede Globo nesta semana, em que apontam "péssima qualidade do ensino", falta de estrutura e briga entre estudantes, um surge em tom de desabafo. Vem da professora e pedagoga Lane Costa.

   Ela comenta que já trabalhou com todos os níveis de ensino (educação infantil, ensino fundamental de I a IV, ensino superior e em cursos de pós-graduação) e entende que essa discussão é mais complexa do que se consegue enxergar. Sobre o rivalidade entre alunos fora da escola, situação que a reportagem exibida pelo Jornal Hoje classificou de "esporte cruel e com horário marcado" - clique aqui e veja -, a educadora é categórica em afirmar que a culpa é de todos nós.

    Eis abaixo o que diz a professora Lane Costa:

     "(...) A Rede Globo de Televisão descobre, como por encanto, que jovens estudantes de duas escolas de Cuiabá (uma pública e outra privada) estão praticando um ´esporte cruel e com horário marcado´. A Globo veicula essa matéria em nível nacional e passa, desde então, a fomentar discussões sobre o tema com um viés de classe violentíssimo.
     Primeiro: disputa entre jovens estudantes que rivalizam por qualquer motivo, nas portas das escolas, nos campos de futebol, nas dependências das escolas, em bares, nos bairros e em qualquer outro lugar não é uma novidade. Quando cheguei a Cuiabá, há 21 anos, os estudantes das 04 unidades escolares do bairro Tijucal já rivalizavam e tinham a mesma prática, assim como jovens de outras instituições de ensino, públicas ou privadas, e de outros bairros.
     Segundo: culpabilizar pais, professores, escola, governo, estudantes, etc., nessa altura do campeonato não vai contribuir em nada para a resolução dos problemas que envolvem a juventude brasileira e que não são recentes. Somos todos responsáveis. 
     Quero saber que soluções foram apontadas pela Globo?
     Não vi a reportagem, mas se seguir a mesma tática de sempre, ou seja, dos programas em geral sensacionalistas, não apontam uma saída, uma alternativa para esses jovens; apenas lançam o problema colocando todos na defensiva e na acusação.
    O que precisamos, de fato, é de mais políticas públicas de inclusão de jovens no ensino, no mercado de trabalho, em espaços de lazer (esporte, dança, música, cinema, teatro, etc.); de uma escola (pública ou privada) que garanta a integralidade do ensino; o estímulo a participação dos jovens em grêmios estudantis, em entidades de classe para aqueles que já são trabalhadores. A juventude precisa de perspectiva! 
    Poderia tecer aqui outros aspectos envolvendo a família (que em detrimento do mundo moderno, ou seria das exigências do capital? ´abandonam´ suas crianças por conta de jornadas excessivas de trabalho, pelo sonho da mobilidade social), a escola (que assumiu o papel da família, que tem sido apenas um espaço de reprodução, que não valoriza seus profissionais), o poder público (que tem projetos apenas de governos e não de Estado), e por aí vai.
     Destaque merece o papel que cumpre a Rede Globo, que para corroborar com a divulgação dos dados nada animadores da educação de MT, completa o serviço com “informações adicionais”. Uma matéria realmente informativa e formativa deveria, no mínimo, aprofundar o debate, ouvir os responsáveis, propor saídas, historicizar.
    E ainda há outro aspecto a serem analisado: parece-nos que sempre querem nos relegar a condição periférica; não importa os aspectos positivos que consigamos alcançar. Mas isso é outra história! que vai tornar a refletir a luta de classes.
    É só um desabafo!"
    Lane Costa, professora e pedagoga em Cuiabá