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Segunda-Feira, 11 de Fevereiro de 2019, 22h:33 | Atualizado: 12/02/2019, 13h:53

"Poderia ser eu", diz garoto de Cuiabá que escapou de incêndio no Flamengo - vídeo

Rodinei Crescêncio

Kenedi Lucas

Kennyd Lucas tem 14 anos e sonha em ser jogador profissional

O adolescente Kennyd Lucas, 14 anos, ainda tenta esquecer a tragédia que vivenciou na última sexta (8). Ele conta que perdeu amigos que considerava como irmãos e viveu a experiência mais difícil de sua vida.

O garoto franzino e introvertido conversou com o em um shopping. Nascido em Cuiabá, ele retornou à Capital mato-grossense logo após o incêndio que atingiu o Ninho do Urubu, centro de treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro, e matou 10 jovens.

“Isso tudo ainda fica na minha cabeça. Me deparei com aquilo e é uma coisa que vai ficar guardada. Eu lembro muito disso quando estou na rede social e vejo alguma foto sobre o assunto”, conta ao .

Kennyd morava em um dos alojamentos construídos em containers. Ele dormia no mesmo quarto que outros cinco adolescentes – todos com idades entre 14 e 17 anos. No lugar, ele conta que vivia a realização de um sonho de infância: atuar no Flamengo, seu time de coração.

Filho de um caminhoneiro e uma vendedora, os pais são separados, ele joga futebol profissionalmente desde os 11 anos. Atuou em duas equipes de Cuiabá, Mimosos da Vila, já extinta, e Academia de Futebol Delrik Brunne. Depois, foi chamado para um time do interior de São Paulo, o Brasilis Futebol Clube. Em agosto do ano passado, passou em um teste na categoria de base do Flamengo.

Antônio Lacerda

ct flamengo

Centro de Treinamento do Flamengo, onde moram e treinam adolescentes que são apostas do time. Entre os quais, 10 faleceram no Ninho do Urubu

Após entrar para o time carioca, mudou-se para o centro de treinamento do clube, no Rio de Janeiro. Ele afirma que nunca imaginou que pudesse ocorrer qualquer incidente nos containers em que dormia com os amigos. “Sempre foi um lugar muito seguro. Nunca tivemos nenhum problema ali”, declara.

(Na quinta) Foi um dia comum. Estava todo mundo animado e brincando

A tragédia

No dia 3 de fevereiro, Kennyd voltou ao Rio de Janeiro, depois de passar férias em Cuiabá e em São Paulo, junto com a namorada. Ele estava passando por uma série de exames, assim como os colegas de clube, para retomar normalmente os treinos.

Na quinta passada, ele e os amigos treinaram normalmente. “Foi um dia comum. Estava todo mundo animado e brincando”, comenta.

A animação dos colegas o incomodava durante a noite, em razão disso, ele havia dormido, na noite anterior, em uma residência, a cerca de 30 metros dos containers, onde ficam os jovens que vão fazer testes para entrar no grupo de base do Flamengo. Na quinta, porém, ele relata que a assistente social pediu que ele dormisse junto com os demais colegas, nos containers. “Ela me disse para não dormir na residência, porque ali era somente para quem fosse fazer testes”, relata.

Conhecia todos que morreram. Eram meus amigos. Foi muito triste

Apesar da orientação, ele optou por desobedecer. “Eu sou mais tranquilo e os garotos faziam bagunça até as 2h. Não queria dormir no quarto. Então, por volta das 20h, fui para a residência”, diz.

No período da madrugada, por volta das 4h50, acordou com os gritos de um colega que dormia nos containers e conseguiu fugir antes do fogo se alastrar. “Ele me disse que estava pegando fogo. A princípio, pensei que fosse uma brincadeira. Corri para ver o que estava acontecendo e vi que, realmente, era um incêndio”, narra.

“A primeira sensação que tive foi querer saber quem estava lá dentro. Quando soube que eram meus amigos, quis ir salvar, mas fui impedido por outras pessoas, quando me aproximei. Pediram para a gente se afastar, enquanto os monitores tentavam retirar os ‘moleques’. Mas nisso eles já estavam desmaiados, por conta da fumaça muito forte”, acrescenta.

Ele perdeu dois colegas de quarto no incêndio. “Mas eu conhecia todos que morreram. Eram meus amigos. Foi muito triste”, diz.

Kennyd revela acreditar que poderia ser uma das vítimas, caso tivesse dormido nos containers. “Eu fico pensando que faria tudo para sobreviver. Mas sei que poderia ser eu ali”, comenta.

Hoje, considera que a desobediência foi positiva. “Já me prejudiquei sendo desobediente outras vezes, mas não neste caso”, pontua.

Vou jogar também pelos meus amigos que se foram. Sempre vou ter um pouco deles e vou orar por cada um deles

Planos para o futuro

Na noite de sexta, o Flamengo comprou passagem para que o garoto, assim como os outros sobreviventes que não tiveram ferimentos, retornasse para a família. Ele chegou em Cuiabá por volta das 23h. Desde então, afirma que tem recebido apoio intenso do clube. “Estou fazendo acompanhamento médico e psicológico, tudo bancado por eles”, diz.

No incêndio, ele perdeu todas as roupas, documentos e objetos pessoais. “Fiquei somente com a roupa do corpo, o meu celular, o carregador, a escova e um passaporte, que encontrei depois. De resto, tudo foi tomado pelas chamas”, diz. Logo que ele chegou à capital mato-grossense, familiares dele pediram doações de roupas. “Consegui o suficiente. Agora tenho muitas”, conta.

O adolescente está refazendo os documentos na capital mato-grossense. Nesta segunda, foi à Assembleia Legislativa para refazer o RG. Nos próximos dias, também irá fazer uma nova Carteira de Trabalho.

Está na casa do pai e não tem previsão para retornar ao Rio de Janeiro. “Creio que até o fim do mês, o Flamengo irá me informar sobre a minha volta”. Enquanto permanece em Cuiabá, passará a treinar em um clube da Capital. “Não posso perder o ritmo, então quero, a partir de quinta-feira, retomar meus treinamentos”.

Para o futuro, mantém os sonhos de antes. “Quero me tornar jogador profissional do Flamengo ou de outro time. O importante é jogar bola”, declara. Depois da tragédia que vivenciou, diz que tem um motivo a mais para seguir no futebol. “Vou jogar também pelos meus amigos que se foram. Sempre vou ter um pouco deles e vou orar por cada um deles", diz.

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Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.