Na última semana do mês de julho de 1995, realizou-se uma das mais importantes reuniões da administração Dante de Oliveira (1995 a 2002). Aconteceu nas instalações de uma fazenda situada à margem direita da rodovia que vai para Cáceres, à altura de um povoado denominado (à época) Vila Sadia.
Diante da situação de falência financeira do Estado e completo caos administrativo, o então governador de Mato Grosso convocou o time de economistas que o assessorava para apresentar o diagnóstico financeiro das contas estaduais, Valter Albano, Guilherme Muller e eu, Vivaldo Lopes.
Levou também seus principais conselheiros políticos, Antero Paes de Barros, Antônio Joaquim e Júlio Muller. Participaram da reunião os secretários Inês de Oliveira (Planejamento), Levi de Freitas (Administração), Carlos Almeida (Fazenda) e Édson Garcia, administrador do escritório de representação do Estado em Brasília.
Missão: analisar detalhadamente a situação fiscal do Estado e apresentar alternativas financeiras, administrativas e políticas para retirar o estado da situação falimentar.
O diagnóstico dos economistas foi duro, dramático e verdadeiro choque de realidade para o grupo político de origem centro-esquerda, que havia dedicado parte de sua juventude ao combate à ditadura e às oligarquias conservadoras que administraram o Estado até então.
As dívidas do Estado eram equivalentes a três anos de arrecadação, a folha salarial consumia 105% da receita mensal e os salários e repasses constitucionais dos Poderes Judiciário, Legislativo e Tribunal de Contas estavam atrasados. Alternativas: redução drástica de todas as despesas, modernização do sistema fazendário de arrecadação, extinção de empresas, autarquias, dispensa de pessoal que não fosse do quadro efetivo, venda de ativos, privatizações (BEMAT e CEMAT), refinanciamento e alongamento das dívidas com bancos nacionais e estrangeiros e com a administração federal.
Para tanto, tinha de aderir ao programa de ajuste fiscal dos estados que estava sendo elaborado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. O problema: além de contrariar algumas propostas de campanha (não privatizar o BEMAT ), Dante era filiado ao PDT, de Leonel Brizola, que fazia ferrenha e intransigente oposição política ao presidente FHC.
Restava a alternativa de desligar-se do PDT, filiar ao PSDB, aderir ao programa federal e salvar o futuro do Estado, retirando-o da beira do abismo no qual Dante e sua biografia cairiam juntos.
“A recuperação das finanças estaduais foi demorada e dolorosa para todos, especialmente para Dante”
Vivaldo LopesForam dois dias de imersão, intensivos debates, discordâncias, convergências e muito ranger de dentes. Tudo supervisionado e mediado pela liderança de Dante. Quando a temperatura dos debates subia entre os economistas (apelidados de “cabeças de planilha” por Dante ) e os conselheiros políticos, o mediador fazia paradas estratégicas para um cafézinho, discutir futebol, suco de limão e chá de cidreira. Na volta, arbitrava o rumo a seguir.
Ao entardecer do segundo dia, um sábado, o governador fez longa ponderação sobre o cenário político, governabilidade, ambiente econômico e as poucas divergências que ainda restavam entre os assessores econômicos e políticos. Arbitrou que trataria pessoalmente do assunto com Leonel Brizola e iniciaria as tratativas políticas para uma possível filiação ao PSDB.
A recuperação das finanças estaduais foi demorada e dolorosa para todos, especialmente para Dante que chegou a adoecer e se afastou por sessenta dias do governo. Foi concluída somente em 1998, quando foi reeleito para mais um mandato de governador.
O enredo sequente todos conhecemos e faz parte da história política e econômica de Mato Grosso. Dante filiou-se ao PSDB, implantou o maior programa de recuperação fiscal da história de Mato Grosso, recolocou o Estado na trilha do crescimento econômico, promoveu avanços sociais e um verdadeiro milagre econômico, consolidando ainda mais seu lugar entre os maiores líderes políticos da história contemporânea brasileira.
Àquela reunião secreta (a imprensa local nunca publicou uma linha sobre esse encontro) pode-se atribuir algo similar à uma travessia do Rubicão de Dante de Oliveira como grande administrador, além do líder político que sempre foi.
Vivaldo Lopes, economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia. É pós-graduado em MBA Gestão Financeira Empresarial (FIA/USP). Escreve nesta coluna com exclusividade às quintas-feiras (vivaldo@uol.com.br)








Dainir Feguri 14/02/2019
Parabens Vivaldo Lopes. Você é um profissional que nos orgulha pela sua humildade e sabedoria.
Antonio P. Pacheco 14/02/2019
Caro Vivaldo Lopes, uma correção a titulo de clareza e respeito aos jornalistas que cobriam a política na época (eu, inclusive). Esta reunião se manteve "secreta" não porque nós jornalistas de política não soubéssemos que ela aconteceu e porque aconteceu. A imprensa não publicou nada porque os jornalistas foram impedidos por ordem superior para não escreverem nada. Nós, repórteres de política na época (eu, Auro Ida, Tinho Costa Marques, Marcos Lemos, Américo Correa, Marcos Coutinho, Bebeto Amador, Ronaldo Pacheco, e vários outras e outras jornalistas sabíamos sim da reunião sigilosa na qual se decretou a saída do Dante do PDT e ingresso no PSDB, bem como o teor das pautas em debate. A não publicação das informações, no entanto, fugiu à nossa vontade de informar a sociedade, os donos dos jornais impuseram censura e derrubaram a pauta. Simples assim.
Enzo 14/02/2019
Na ocasião o governo federal achava-se em situação bem melhor, assim como o Estado de Mato Grosso, ao contrário da impressão que passa o colunista. Na comparação, Dante não assumiu aumentando verba de poderes, e no primeiro ano de governo enxugou bastante a máquina governamental. Procedimento também adotado no ano subsequente.
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