Com a implantação gradual da Reforma Tributária no Brasil, a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Cáceres pode se tornar ainda mais atrativa para o setor industrial em Mato Grosso. A afirmação é do presidente da Administradora da ZPE (Azpec) e ex-prefeito do município, Francis Maris Cruz. Segundo ele, o fim da guerra fiscal e dos benefícios de ICMS colocará o regime aduaneiro especial da ZPE no centro das atenções, já que a área continuará garantindo desoneração na compra de insumos e maquinários, tanto no mercado nacional quanto na importação.
Prestes a completar um ano de inauguração, a ZPE conta com apenas uma indústria instalada: a Teak Resources Company (TRC), considerada a maior produtora e comercializadora de madeira de teca plantada do mundo. Com forte presença em Mato Grosso, a empresa já exporta móveis e decks produzidos em Cáceres para países da Europa, de acordo com Francis Maris.
Em entrevista exclusiva ao
durante o “Seminário Oportunidades e Vantagens da ZPE de Cáceres”, realizado na última quarta-feira (14), o dirigente afirmou que sua principal atividade tem sido a atração de novos investimentos, com visitas a empresários e feiras de negócios em todo o país para divulgar as potencialidades da ZPE de Cáceres. Embora o momento ainda exija busca ativa, ele avalia que a procura pelo polo deve disparar a partir do ano que vem.
“Acreditamos que, quando as regras da reforma tributária começarem a valer, muitos empresários vão nos procurar. A vantagem de quem está dentro da ZPE em relação a quem está fora é muito grande por causa das isenções fiscais para exportação. Com isso, a indústria ganha condições de exportar mais e com preço competitivo lá fora. A ZPE vai se tornar fundamental para que as empresas continuem produzindo em Mato Grosso”, declarou.
Durante palestra no seminário, o secretário-executivo do Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação (CZPE), Fabio Pucci Martins, afirmou que a reforma tributária manteve a ZPE como um regime especial em vigor, com a preservação de todas as regras e do tratamento fiscal favorecido existente hoje.
A única alteração, de acordo com ele, será a adequação ao IVA Dual, modelo de Imposto sobre Valor Agregado adotado pela reforma tributária para unificar a cobrança sobre o consumo. A Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, substituirá o PIS e a Cofins, além do IPI em caráter residual, enquanto o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de competência compartilhada entre estados e municípios, substituirá o ICMS e o ISS.
Segundo Fabio Pucci, a transição representará um ganho para as empresas. Hoje, o Imposto sobre Serviços (ISS), de gestão municipal, não é abrangido pelas isenções das ZPEs. Com a unificação, o novo tributo (IBS) passará a ser contemplado de forma automática na regra geral do regime aduaneiro. “[O benefício de se estabelecer na ZPE] não só foi preservado como ainda tem vantagens adicionais. Então, sim, continua sendo relevante e com melhorias, inclusive”, declarou.
Rodinei Crescêncio/RDNews
Francis Maris assumiu a presidência da Azpec há cerca de três meses, escolhido pelo governador Otaviano Pivetta (Republicanos)
O secretário-executivo ressaltou ainda que as empresas instaladas no polo terão desoneração expressa sobre o consumo de energia elétrica de fontes renováveis e sobre a contratação de serviços de transporte. Outro atrativo é a isenção do Imposto de Importação (II) e do Adicional ao Frete para a Renovação da Marinha Mercante (AFRMM), tributos que continuarão sendo cobrados normalmente de quem estiver fora da ZPE mesmo após a reforma.
“Hoje, se você adquire um maquinário no mercado interno dentro da ZPE, conta com a desoneração, enquanto fora dela não há esse benefício. Com a reforma tributária, ambos passarão a ter. O grande diferencial que permanece para a ZPE é que a importação de bens de capital continuará sem desoneração para quem estiver fora do regime. Isso, muitas das vezes, é relevante, especialmente para fábricas que dependem de equipamentos com tecnologia mais avançada”, explicou.
Desenvolvimento regional
Francis Maris revelou que há negociações avançadas com empresas dos setores de processamento de soja, fiação e tecelagem, rochas ornamentais, frigorífico e data center. A prioridade, segundo ele, é atrair plantas capazes de beneficiar matérias-primas locais, agregando valor à produção e ajudando a transformar o perfil econômico de Mato Grosso, historicamente voltado à exportação de commodities.
A estratégia defendida pelo presidente da Azpec é aproveitar o potencial produtivo do estado para estimular a industrialização e ampliar a participação de Mato Grosso no mercado internacional com produtos de maior valor agregado.
“Acreditamos que vai ser, para o futuro de Mato Grosso, muito interessante. Porque hoje Mato Grosso exporta muita soja em grãos, milho em grãos, algodão em pluma, e com a ZPE, acreditamos que vamos mudar esse perfil”, disse.
Para além do interesse das empresas em se instalar na ZPE de Cáceres, Francis Maris ressalta que o processo de implantação de uma fábrica no complexo é longo e burocrático, dependendo do aval do Czpe, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdics).
“Depois da aprovação pelo conselho do Czpe, há a etapa de construção da estrutura fabril e, em seguida, o processo de importação e instalação dos maquinários no polo”, completou.
Para 2027, as metas da Azpec incluem intensificar a divulgação do polo em seminários pelo país e atrair novas empresas, com foco no setor de rochas ornamentais, aproveitando as ricas jazidas de mármore existentes em Cáceres.
“No mês passado, estivemos em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, durante uma feira do setor de mármore, convidando indústrias a se instalarem na ZPE. Além do setor mineral, temos a madeira, a carne - com vários frigoríficos na nossa região -, o milho e o gergelim. Estamos mantendo contato constante com empresários e entidades setoriais de todas as cadeias que podem ser industrializadas e exportadas”, declarou.
Rodinei Crescêncio/RDNews
Francis Maris é empresário, pecuarista e ex-prefeito de Cáceres por dois mandatos, tendo gerido o município entre 2013 e 2020
Vantagem logística
Francis Maris defendeu que a principal vantagem da ZPE de Cáceres é a localização estratégica no continente. Ele citou a proximidade com o Rio Paraguai - um dos principais eixos da Hidrovia Paraguai-Paraná -, a conexão direta com a Bolívia, com a qual o município faz fronteira, e a rota bioceânica para o Oceano Pacífico via Rio Branco (AC), com destino ao megaporto de Chancay, no Peru.
O dirigente também mencionou as rotas fluviais e rodoviárias em direção a Manaus (AM) e Belém (PA), via Porto Velho (RO), além da conexão com a malha ferroviária em Rondonópolis e as rodovias rumo ao Sul do país, assegurando saídas estratégicas também para o Oceano Atlântico. “Estamos estrategicamente posicionados no coração da América do Sul. Essa localização privilegiada é um dos maiores diferenciais para quem decide se instalar no polo”, concluiu Francis Maris.
Estrutura
Inaugurada em 24 de outubro de 2025, após mais de três décadas de espera, a ZPE de Cáceres recebeu investimentos de R$ 51,3 milhões do Governo do Estado. O complexo ocupa uma área de 247 hectares e dispõe de 341 lotes industriais, distribuídos em cinco módulos.
Segundo Francis Maris, a estrutura do polo ainda demanda intervenções viárias. Uma das principais obras previstas para o próximo ano é a construção de uma avenida perimetral exclusiva para o acesso à ZPE. Hoje, o tráfego pesado de carretas e caminhões precisa passar por ruas residenciais de bairros vizinhos, gerando transtornos e riscos à segurança da população.
“O objetivo é tirar as carretas bitrem de dentro dos bairros, evitando o risco constante de acidentes com ciclistas, carros e com a própria fiação da rede elétrica. Estamos trabalhando no projeto de uma perimetral para desviar esse tráfego pesado do centro e das áreas residenciais”, explicou. Segundo Francis Maris, a proposta já está sob análise da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT), aguardando o lançamento da licitação.
Outra prioridade da gestão é viabilizar a extensão de uma adutora de água e reforçar a rede de energia elétrica no complexo, infraestrutura indispensável para viabilizar a instalação de frigoríficos e de um data center. “Ainda tem bastante desafio na questão da infraestrutura, mas nós contamos com o apoio do governador Otaviano Pivetta e esperamos poder atender esses empresários em todas as suas demandas”, declarou.
Atualmente, o Brasil conta com 13 ZPEs criadas, divididas entre polos ativos e em fase de implantação. Dessas, apenas quatro estão em operação - com obras concluídas, atestadas pela Secretaria Executiva do CZPE e alfandegadas pela Receita Federal, o que as qualifica como zonas primárias de controle aduaneiro. As outras nove unidades permanecem em diferentes estágios de implantação.
Reprodução/Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdics)
Mapa dos estados da federação que possuem áreas de ZPE criadas
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