Quase dez anos após sobreviver à tragédia aérea da Chapecoense, o ex-goleiro Jakson Follmann segue transformando uma das histórias mais marcantes do esporte mundial em inspiração para milhares de pessoas. Em entrevista especial ao
, durante passagem por Cuiabá, o ex-atleta falou sobre fé, reconstrução, superação e o propósito que encontrou após ter a vida completamente transformada em 2016.
Natural do Rio Grande do Sul (RS), Jakson construiu carreira no futebol profissional passando por clubes como Grêmio, Juventude e Chapecoense. Naquele ano, vivia um dos momentos mais importantes da carreira ao integrar a delegação que viajava para Medellín, na Colômbia, onde o clube disputaria a final da Copa Sul-Americana.
A viagem, no entanto, terminou em uma tragédia que chocou o mundo. O avião da companhia LaMia caiu na madrugada de 29 de novembro de 2016, deixando 71 mortos entre jogadores, integrantes da comissão técnica, jornalistas e tripulantes. Apenas seis pessoas sobreviveram.
Follmann foi um dos sobreviventes do acidente, mas sofreu graves ferimentos e precisou amputar parte da perna direita, encerrando precocemente sua carreira no futebol profissional aos 24 anos. Hoje, longe dos gramados, encontrou uma nova missão de vida, que é compartilhar sua história e levar mensagens de esperança ao público por meio de palestras em todo o país.
"A principal mensagem é uma mensagem de esperança, uma mensagem de fé, uma mensagem que existe uma vida após uma perda, após uma dificuldade, a perda de um membro, que foi o meu caso. Então, a gente procura trazer muito isso", disse o ex-goleiro durante a I Conferência Nacional de Interiorização da Advocacia, realizada na última quinta-feira (07), no Centro de Eventos do Pantanal.
Segundo Jakson, a experiência extrema fez com que passasse a enxergar a vida de maneira completamente diferente, principalmente no que diz respeito à valorização dos pequenos momentos.
"Procuro trazer mensagem de você valorizar o dia de hoje, as coisas simples da vida, que é o que a gente tem e fez toda a diferença. Eu tive uma saudade muito grande de coisas muito simples, ficar em pé, caminhar, enfim. Então, eu procuro trazer esse tipo de mensagem para as pessoas e as pessoas acabam se conectando porque, às vezes, a gente deixa passar, deixa esquecer tudo isso pela correria da vida, pela correria dos compromissos. Então, a gente procura focar um pouco nisso e, graças a Deus, todos os lugares que a gente passa, tá dando muito certo, a mensagem tá sendo muito bem passada", contou ao
.
O ex-goleiro também revelou que o processo até conseguir transformar a própria dor em inspiração foi lento e exigiu paciência. Ele relembrou que foi o último dos sobreviventes a deixar o hospital e precisou primeiro se reconstruir física e emocionalmente antes de começar a dividir sua história com o público.
Hoje o nosso propósito é estar em cima do palco ajudando as pessoas
"As coisas foram acontecendo, fiz a primeira palestra, a gente foi começando a passar as mensagens, né? É lógico que quando você tem um contato com as pessoas, depois que você sai do hospital, você vê a dimensão disso tudo. As pessoas chorando, querendo te abraçar, tirar foto, enfim, querendo te ouvir. Ali eu vi que realmente a minha missão era essa, de poder estar em cima do palco ajudando as pessoas. Através da minha história, do meu testemunho. Eu foco muito nisso, porque lá atrás eu fui ajudado, enfim, com todas as orações, com os pensamentos positivos e fez uma diferença gigantesca na minha vida. Hoje o nosso propósito é estar em cima do palco ajudando as pessoas, então, as coisas foram acontecendo aos poucos, não fui atropelando.O processo foi lento, precisou ser lento", explicou Follmann.
Mesmo quase uma década após a tragédia, Jakson admite que reconstruir a vida segue sendo um desafio diário. Além das limitações físicas, ele precisou lidar com a perda dos amigos e com o encerramento inesperado de uma carreira construída desde a infância.
“Foi muito difícil e continua sendo difícil. Eu perdi praticamente todos os meus amigos e também vi minha carreira terminar muito cedo. Mas procurei transformar a dor em esperança e resiliência”, afirmou.
Durante a conversa, Follmann também relembrou o legado deixado pelo elenco da Chapecoense de 2016, grupo que, segundo ele, marcou definitivamente a história do clube e do futebol brasileiro.
"Não tem comparação com o grupo que a gente teve. Foi o melhor grupo da Chapecoense, vai ser o melhor grupo da história do clube, não tenho dúvidas. A gente viu que muitas coisas aconteceram, o clube caiu, voltou, enfim. Mas aquele plantel, aqueles jogadores, aquelas pessoas deram a vida pelo clube. E elevaram o patamar da instituição. Então isso nos deixa felizes, porque pessoas que construíram a sua história não vão se apagar com borracha, jamais".
Atualmente atuando como palestrante, cantor e personalidade da mídia, Jakson afirma que vive de forma mais intensa o presente e fortaleceu ainda mais sua fé após sobreviver ao acidente.
"Eu sou muito intenso no agora, porque Deus mostrou que eu só tenho agora. Então, eu confesso para você que fazer planos para o futuro, para mim é um pouco difícil, porque eu passei por uma situação que realmente, do dia para a noite, mudou tudo. Então, o que mudou foi isso, minha fé aumentou muito mais também, eu sou um cara que já tinha muita fé e hoje a minha fé redobrou, sem sombra de dúvidas. É viver o agora intensamente, porque o amanhã pertence a Deus".
Ao final da entrevista, Jakson Follmann deixou uma mensagem para pessoas que enfrentam perdas, mudanças bruscas ou dificuldades para recomeçar.
Aprenda a parar para descansar e nunca para desistir
"As pessoas que estão passando por alguma dificuldade, eu quero dizer pra vocês que Deus não dá um fardo maior que a gente não possa carregar. Acho que a frase que se encaixa nisso tudo é que no momento que você cansar, aprenda a parar para descansar e nunca para desistir. Então, se cansar, dá uma descansada, mas não desista.
"Não desista porque as coisas passam muito rápido. O momento bom, o momento ruim, isso faz parte da nossa vida. Os altos e baixos, isso tá todo tempo, a todo momento da nossa vida, isso faz parte. Então, acho que tem muitas histórias que a gente pode se apegar, acho que se vocês quiserem se apegar na minha história, na história do Follmann, acho que do limão eu fiz uma limonada assim, de um momento de dificuldade, de tristeza, de perdas.", concluiu o palestrante.
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