No dia 1º de maio de 1996, pouco depois de anoitecer, o jovem Marcos Henrique Sampaio, de 19 anos, e o seu irmão Wellington Sampaio, de 16, saíram de casa e caminharam a pé para o Viva Seu Bairro - projeto do Grupo Gazeta de Comunicação, que naquele ano aconteceu no bairro Tijucal, em Cuiabá. Dias antes, os irmãos haviam combinado de se encontrar com alguns amigos no local para curtir a festa.
Vilmar da Silva Fernandes, 16, e Ed Nelson Soares, 16, já esperavam pelos Sampaio na Praça do Popaye. Como as centenas de pessoas no local, os jovens passearam pelas barracas de comida, observaram as exposições e aguardaram ansiosamente pelas apresentações que aconteceriam no palco. O que eles não sabiam, contudo, é que protagonizariam o início de uma série de desaparecimentos que ficou conhecido nacionalmente como “Caso Tijucal”.
Há 25 anos, Odilza Síria Sampaio, 68, a mãe de Marcos e Wellington, não tem notícias sobre o paradeiro dos filhos. Corpos sequer foram localizados. Eles fazem parte dos procurados pelo Núcleo de Desaparecidos da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP) de Cuiabá. Apesar de ainda não terem sido localizados, caso foge da regra.
Dados da Polícia Judiciária Civil (PJC) apontam que grande parte dos desaparecimentos, registrados na região Metropolitana de Cuiabá, são solucionados e as pessoas são encontradas, sejam vivas ou mortas. Em 2020, por exemplo, foram registrados 675 desaparecimentos. Desses, apenas 57 pessoas não foram localizadas. Das localizadas, 603 estavam vivas e 15 foram encontradas mortas.
Já em Mato Grosso, no mesmo ano, 1,7 mil pessoas desapareceram. Os dados preliminares de 2021, que englobam os meses de janeiro a agosto, apontam que 1,1 mil casos já foram registrados neste ano. A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), contudo, não possui os dados de quantas foram localizadas.
Caso Tijucal
Marcos, Wilmar e Ed Nelson foram os primeiros a desaparecer. Wellington foi uma das testemunhas do que ele mesmo apontou como sendo um sequestro. Ele teria visto o irmão e os dois amigos sendo colocados na Brasília do ex-policial civil João da Silva Mendes, o “Mestre Caravelas”. No veículo, também estaria Sérgio Marcos Corrêa Leite, conhecido como Téio.
“Naquela época existia um grupo de extermínio em Cuiabá. Eu procurava cada mãe para conversar, elas só falavam que não podiam fazer nada por mim porque já tinham enterrado o filho”
Relata a mãe Odilza Sampaio, que nunca encontrou 2 filhosWelligton, então, foi para casa relatar para a mãe o que viu. Foi aí o início do calvário de Odilza com o intuito de desvendar não só o paradeiro do filho, como também a motivação do crime. Outras pessoas que estavam no Viva Seu Bairro e testemunharam os jovens serem colocados na Brasília começaram a desaparecer. Aproximadamente 30 pessoas foram encontradas mortas.
“Naquela época existia um grupo de extermínio em Cuiabá. Eu procurava cada mãe para conversar, elas só falavam que não podiam fazer nada por mim porque já tinham enterrado o filho. Eu decidi mandar Wellington para o Rio de Janeiro para que ele não tivesse o mesmo fim das outras vítimas, mas no final das contas ele também ficou desaparecido”, conta Odilza.
Na última semana, cartaz com a foto de Marcos Henrique foi divulgado pelo Núcleo de Desaparecidos em sua página do Instagram. Se estiver vivo, hoje o homem estará com 44 anos. Odilza explica que tenta diálogo com a Polícia Civil do Rio de Janeiro para também conseguir encontrar Welligton.
“Nem atestado de óbito se eu quisesse ter para dizer que ele está morto eu tenho, então ele está desaparecido. Tiraram meu filho de mim e eu quero ele vivo ou morto. Pode passar o ano que for. Enquanto eu tiver vida, eu vou correr atrás. Para mim, é como se fosse hoje. Eu vou até o final do mundo. Tenho que saber uma resposta. O que é o Caso Tijucal? Quem está por trás de tudo isso?”, finalizou a mãe.
Final feliz
Além de tentar encontrar os que desapareceram, o Núcleo também auxilia na busca pelos que se desencontraram. O sitiante José Faustino, 50, por exemplo, foi criado com a mãe e o padrasto no interior de Minas Gerais.
Por volta dos 5 anos de idade, começou a entender que o homem com quem dividia a casa não era o seu genitor. Desde então, ele deu início a uma busca incansável pelo seu pai.
Reprodução
Sitiante José Faustino com o pai Francisco de Souza, hoje com 80 anos: achado após 50 anos
A informação que tinha era que Francisco Gonçalves de Souza, hoje com 80 anos, saiu de casa quando o filho tinha apenas 4 meses. Vivendo com a mulher e 2 filhos de uma forma precária, o homem teria decidido viajar em busca de emprego.
Depois de um mês, ele voltou com o anúncio da oferta de salário e moradia em uma fazenda no interior de Mato Grosso. Com a negativa da mulher, contudo, viajou sozinho. Foi assim que ele perdeu o contato com a família.
“Quando ele foi embora, há 50 anos, as coisas eram mais difíceis. A gente era pobre demais. Hoje somos pobres ainda, mas na época éramos miseráveis. Meu pai foi embora e deixou a gente em uma situação difícil. Depois de um tempo ela já arrumou meu padrasto. A gente não tinha nem leite para beber”, explicou José.
Já crescido, o homem pediu ajuda para as filhas para tentar localizar o pai. Eles conseguiram o CPF de Francisco e foram até a delegacia de polícia da cidade. Lá, os policiais identificaram que ele residia em Cuiabá. Eles entraram em contato com a DHPP, que localizou o homem. Pai e filho, então, trocaram telefone e nunca mais deixaram de se falar.
Francisco passou o aniversário de 80 anos junto dos filhos em Minas Gerais. No dia, José foi quem recebeu o primeiro pedaço de bolo. Ele relatou que este foi o dia mais feliz de sua vida. Agora, espera pelo pai, que prometeu se mudar para sua cidade e envelhecer ao lado dos dois filhos.
“Estamos esperando ele para morar junto e misturado. A parceria vai ser e já é grande demais. Estou só esperando ele vir embora para a gente ficar mais parceiro do que a gente já foi e é”, finalizou.
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