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UM FEITO INÉDITO

Intervenção do Governo de MT enterra alcunha de "Rodovia da Morte" e garante segurança a quem trafega na BR-163

Após assumir concessão antes abandonada pelo setor privado, Estado antecipa prazos em quatro anos, investe bilhões e une eficiência logística à preservação de vidas

Leticia Avalos

Na rotina de um caminhoneiro, uma rodovia duplicada pode ser o que determina se ele volta para casa com vida depois de uma longa viagem. Morador de Várzea Grande, Rodolfo Souza, de 46 anos, vive na boleia de um caminhão há mais de duas décadas e, mesmo gostando do trabalho, admite que o medo de não conseguir voltar para a família é inerente à profissão. Ele já percorreu a BR-163 mais vezes do que é capaz de contar e afirma que, embora a via tenha sido apelidada de “rodovia da morte” no passado, o clima da travessia que rasga Mato Grosso de Norte a Sul tem sido mais tranquilo a cada ano desde o início das duplicações.

“A gente saía para trabalhar e nem tinha certeza se voltava para casa, porque era muito perigoso”, declarou.

Tonico Pinheiro/Secom-MT

BR-163 finalizada

A BR-163/MT foi inaugurada em 20 de outubro de 1976 pelo então presidente da República Ernesto Geisel, completando 50 anos de história em 2026

Principal corredor logístico para o escoamento da produção agrícola do estado e elo de integração entre o Sul, mais “antigo” e estabelecido, e o Norte, mais “recente” e promissor, o trecho da BR-163 em Mato Grosso superou décadas de abandono crônico. A rodovia tornou-se modelo de gestão pública a partir de 2023, quando o Governo do Estado assumiu oficialmente o controle da concessão antes administrada pelo Grupo Odebrecht.

“A gente chamava de ‘rodovia da morte’, mas hoje mudou muito. Tem uma gurizada mais nova que acho que nem lembra disso; não conheceu essa época. A pista já tem uma grande parte duplicada, mas antes era simples de fora a fora. Isso era um perigo. Todos os dias eu via dois ou três acidentes”, contou Rodolfo em entrevista ao .

Vidas perdidas

Filho e sobrinho de caminhoneiros, Rodolfo começou a vida na boleia aos 23 anos. No ano seguinte, viu um colega de profissão perder a vida na BR-163, em um trecho na zona rural de Várzea Grande, enquanto transportava uma carga de cimento. “A gente perdeu um companheiro na época, que morreu ali porque era [pista] simples, em um acidente com uma van. Morreram três pessoas da van e ele no caminhão. Se não me engano, foi em 2004”, contou.

Luciele Scrujak, de 37 anos, também perdeu uma pessoa próxima para a “rodovia da morte”. Ela contou ao que o tio trafegava de Lucas do Rio Verde a Nova Mutum - dois municípios cortados pela BR-163 - quando se envolveu em um engavetamento e teve o carro prensado entre duas carretas. A tragédia aconteceu há cerca de uma década, quando a vítima tinha 38 anos.

Um levantamento feito pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em 2023 apontou que ocorreram 542 acidentes de trânsito entre janeiro e agosto daquele ano na BR-163, sendo 53 deles com mortes registradas. No ano anterior, a estrada, devido à grande quantidade de acidentes, registrou 823 acidentes e 106 óbitos durante todo o ano.

Uma nova realidade

Moradora de Nova Mutum há 15 anos, Luciele trabalha como recepcionista em um hotel localizado às margens da rodovia há cinco anos. Ela admitiu que as obras de duplicação causaram transtornos, com desvios constantes e a tensão típica de intervenções na área urbana. No entanto, para ela, o incômodo valeu a pena. “Hoje a gente passa muito menos medo e conseguimos chegar em Cuiabá em duas horas e meia. Antes, o trajeto durava mais de três horas”, contou.

A recepcionista admitiu que, ainda hoje, evita dirigir pela rodovia. No entanto, quando precisa fazê-lo, ela se sente mais segura com a pista duplicada. "Passa mais segurança. Antes eu tinha medo porque tem muita carreta na rodovia. Agora o carro tem a sua própria pista e não é mais preciso ficar sempre atrás das carretas", afirmou.

Arquivo Pessoal

Luciele Scrujak, Nova Mutum, recepcionista de hotel, especial BR-163

Luciele Scrujak, de 37 anos, trabalha em estabelecimento às margens da rodovia e enfatizou que se sente muito mais segura com a via duplicada 

Luciele é natural de Alto Paraguai, mas sua família mora em Várzea Grande. Por isso, ela costuma viajar para a região metropolitana pelo menos três vezes ao ano. O ganho de tempo no trajeto e a sensação de tranquilidade na viagem são fatores que mudaram a relação dela com a estrada.

Para Rodolfo, 40 minutos de economia de tempo fazem grande diferença: representam um descanso mais longo entre as viagens ou a chance de chegar mais cedo em casa para ver a família. “O caminhão é mais lento para arrancar, para frear, mais lento para ultrapassar. Mas dá uma diferença de 30 minutos a 40 minutos daqui até Sinop. Faz muita diferença na minha rotina”, contou.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Rodolfo Souza, caminhoneiro, Várzea Grande, especial BR-163

Rodolfo Souza mora em Várzea Grande com a esposa e os três filhos. Dono do próprio caminhão, ele mantém a rotina de viajar rumo ao "Nortão" do estado pelo menos três vezes ao mês, levando produtos industrializados para abastecer supermercados e retornando com cargas de madeira

Outra grande melhoria está relacionada à saúde mental do trabalhador. Ele mencionou que o estresse, a pressão e o estado de alerta constante na estrada hoje são consideravelmente menores. “Em rodovia simples, o cuidado é totalmente diferente, o estresse é outro. Principalmente na época da safra, porque o fluxo de carretas é pesado. Já cheguei a ficar 20 minutos parado sem conseguir entrar na pista de tanto caminhão subindo e descendo. O desgaste era bem pior”, relatou.

Concessão e Nova Rota do Oeste: um feito inédito

A decisão do Governo do Estado de assumir a concessão de uma rodovia federal, até então administrada por uma empresa privada, foi um movimento inédito no país. O ente subnacional passou a ser concessionário do Governo Federal e destravou investimentos históricos, transformando Mato Grosso em um dos maiores canteiros de obras de infraestrutura do Brasil, unindo eficiência logística e preservação de vidas.

Nova Rota do Oeste

BR-163 obras de duplicação

Obras de duplicação começaram 47 anos após a inaguração da rodovia

Em 2022, ainda na gestão do então governador Mauro Mendes (União Brasil) e do vice e atual chefe de Estado, Otaviano Pivetta (Republicanos), o contrato de concessão da BR-163 foi repactuado por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). A transferência do controle acionário da antiga concessionária Rota do Oeste para o Governo de Mato Grosso - por meio da MT Participações e Projetos (MT Par) - foi oficializada em maio de 2023.

O termo redefiniu as obrigações da concessão e fixou um novo cronograma de investimentos estimado em R$ 9 bilhões ao longo de oito anos. A medida destravou o contrato e criou o ambiente financeiro e operacional necessário para a retomada dos canteiros de duplicação. As obras estavam paralisadas sob a gestão do então Grupo Odebrecht, que controlava a Rota do Oeste após vencer o leilão em 2013 e assumir a rodovia no ano seguinte.

Acervo 9º Batalhão de Engenharia de Construção (BEC)

Implantação da BR-163 década de 1970

Na época da construção da rodovia, historiadores apontam que as principais adversidades enfrentadas foram as doenças tropicais da região amazônica, a distância das cidades já estabelecidas na época e a mata densa

As paralisações foram reflexo indireto da Operação Lava Jato, deflagrada pela Polícia Federal em 2014, que tinha a Odebrecht entre seus principais alvos. Conforme explicou o ex-senador e presidente do Conselho de Administração da Nova Rota do Oeste, Cidinho Santos, a empreiteira perdeu a capacidade de tocar as obras após o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) suspender os financiamentos previstos, em razão das investigações sobre desvios de recursos públicos envolvendo o grupo.

Nos anos seguintes, a Rota do Oeste, então, acumulou um expressivo endividamento sob juros elevados que chegou ao montante de R$ 1,1 bilhão, além de multas pelo atraso das obras. Cidinho explicou que, após o Tribunal de Contas da União (TCU) liberar a transferência de concessão, nenhuma empresa se interessou em assumir o contrato, já que a obrigação de arcar com esse passivo afastava o setor privado.

Annie de Souza/Rdnews

Cidinho Santos

Além de ex-senador e presidente do Conselho de Administração da Nova Rota do Oeste, Cidinho Santos é empresário da avicultura, filho de retirantes nordestinos e mora em Mato Grosso desde a década de 1980

Foi então que ele levou a ideia ao governador Mauro Mendes e ao vice Otaviano Pivetta, que levaram adiante, juntamente com outros integrantes do Executivo Estadual, a ideia de o Governo assumir o contrato. O grande trunfo da estratégia residia no regime jurídico: por ser um ente público, o Governo de Mato Grosso não precisaria arcar com o passivo de multas acumulado pela gestão anterior.

O Estado, então, após assinar o TAC em 2022, passou a negociar o passivo de R$ 1,1 bilhão com os bancos credores. O Executivo Estadual estruturou um fundo para liquidar o débito sem a incidência de Imposto de Renda e conseguiu quitar a pendência desembolsando R$ 450 milhões. “Um desconto muito grande. Tudo isso foi aportado pelo Governo do Estado por meio da MT Par e, depois de pagar a dívida, começamos os investimentos”, disse.

O Governo obteve um financiamento de R$ 5,3 bilhões junto ao BNDES. Desse montante, cerca de R$ 3 bilhões já foram investidos em duplicações e melhorias estruturais da BR-163 e em segmentos das BRs 364 e 070 - a Rodovia dos Imigrantes. Sob nova configuração, a concessionária passou a se chamar Nova Rota do Oeste, responsável pela gestão de 850,9 quilômetros de rodovias em Mato Grosso. O trecho sob administração começa em Itiquira, na divisa com Mato Grosso do Sul, e segue até Sinop, cortando 19 municípios.

“O movimento foi muito atípico. Geralmente é uma empresa pública que é assumida por uma empresa privada, e não o contrário. Dessa vez, um ente público teve de assumir uma empresa privada para resolver um problema que, se dependesse do mercado, não teria solução”, declarou ao .

Além da pista duplicada, Cidinho destacou que a concessionária pratica hoje uma das tarifas mais competitivas do país e mira a transformação tecnológica do corredor. A meta é cobrir todo o eixo, de Itiquira a Sinop, com sinal 4G ininterrupto e rede de fibra óptica. Segundo o gestor, o cronograma projeta consolidar a BR-163 como uma das rodovias mais tecnológicas e integradas do Brasil no prazo de dois anos.

Do trecho da BR-163 de Sinop até a fronteira com o Pará, a concessão é da Via Brasil.

Reprodução

Mapa BR-163

Mapa do traçado da BR-163 sob concessão da Nova Rota do Oeste

Passado de abandono

As memórias da antiga gestão da rodovia ainda são vívidas para Rodolfo Souza. O caminhoneiro relembrou a indignação que tanto ele quanto os colegas de profissão sentiam ao ter de pagar pedágio para trafegar por uma pista perigosa e com asfalto deteriorado. Ele citou o trecho entre Cuiabá e Rondonópolis e desabafou: “Ali já era duplicado quando a Nova Rota do Oeste pegou, mas [a antiga Rota do Oeste] fizeram um serviço sem condições. Na primeira chuva, já virava buraqueira. Não tinha como andar. Parecia que não tinha ninguém [cuidando], só o pedágio mesmo cobrando. E a gente tendo de pagar para rodar numa estrada ruim”.

A inclusão do adjetivo “Nova” à antiga Rota do Oeste não marcou apenas uma troca de nome, mas uma guinada radical na realidade de quem trafega pela rodovia. As obras começaram logo após a troca de gestão: desde então, 230 quilômetros de pista duplicada já foram entregues e outros 96 quilômetros seguem em execução, além da recuperação total dos trechos que já eram duplicados e precisaram de asfalto novo.

“Arrumou tudo, foi mexido em tudo. Depois que virou essa Nova Rota, mudou da água para o vinho. Melhorou muito mesmo. Uma diferença gritante do que era e do que é hoje [...]. Não tem nem como comparar. Melhorou muito, desde Itiquira até Sinop, que é onde eu rodo bastante”, destacou o caminhoneiro.

Depois que virou essa Nova Rota, mudou da água para o vinho. Melhorou muito mesmo. Uma diferença gritante do que era e do que é hoje [...]. Não tem nem como comparar

A duplicação foi acompanhada por uma redução expressiva no número de mortes no trânsito. Levantamento divulgado com dados da Nova Rota do Oeste, aponta que, entre janeiro e agosto de 2023, o trecho entre Diamantino e Sinop registrou 46 mortes. No mesmo período de 2026, foram 24 óbitos, queda de aproximadamente 47,8%.

Em 2024, o trecho entre Diamantino e Nova Mutum recém duplicado já registrava uma queda de 82% no número de mortes entre o início e o fim do ano. No mesmo intervalo, houve também redução de 71% na quantidade de feridos em acidentes.

Segundo a assessoria da concessionária, a previsão de entrega dos 96 quilômetros de duplicação restantes é para o fim deste ano. Com isso, o Governo do Estado e a administradora antecipam em quatro anos o prazo de conclusão das obras remanescentes estipulado no TAC, que era de oito anos.

À medida que as metas iniciais saíram do papel, a Nova Rota do Oeste expandiu o raio de atuação. Em janeiro de 2025, após a ANTT aprovar a Revisão Quinquenal do contrato, a concessionária incorporou formalmente uma nova frente prioritária: a duplicação de 108 quilômetros entre Várzea Grande e Rosário Oeste.

Gabriel Rodrigues/Rdnews

Luciano Uchoa, diretor-presidente da Nova Rota do Oeste

O presidente da Nova Rota do Oeste, Luciano Uchôa, que vê rodovia em nova fase de crescimento, acompanhando a expansão do estado

Estrada boa e desenvolvimento econômico: a correlação direta no estado do agronegócio

O presidente da Nova Rota do Oeste, Luciano Uchoa, classificou a rodovia como “a espinha dorsal do estado” e destacou a importância do eixo para o desenvolvimento de Mato Grosso - diretamente ligado ao agronegócio - desde a sua implantação, há cerca de 50 anos.

Nas últimas décadas, o estado deu um salto econômico e praticamente dobrou a produção de commodities em relação ao período em que a rodovia foi repassada à Odebrecht. Para Uchoa, a infraestrutura da antiga gestão simplesmente não acompanhou esse ritmo.

“Tínhamos aquela rodovia que foi responsável pela implantação e pelo desenvolvimento, principalmente da região norte do estado, se transformando em um grande gargalo, impedindo que Mato Grosso pudesse continuar crescendo”, disse ao .

O maior legado foi salvar vidas. Com certeza, milhares de vidas estão sendo e serão poupadas com essa duplicação

Com os avanços estruturais, segundo ele, a BR-163 deixou de ser uma obstáculo para se tornar um vetor fundamental de desenvolvimento, permitindo que a logística acompanhasse o crescimento da produção de grãos e carne. “Acredito que nós, assim como os pioneiros há 50 anos, estamos construindo nossa parte da história, preparando a rodovia para que ela possa acompanhar o crescimento de Mato Grosso pelos próximos 30 anos, pelo menos, que é o horizonte da nossa concessão”, declarou.

O conselheiro Cidinho Santos explicou que 80% da produção agrícola de Mato Grosso passa pela BR-163 com destino aos maiores portos do país. Para o ex-senador, no entanto, o impacto humano supera a relevância econômica: “O maior legado foi salvar vidas. Com certeza, milhares de vidas estão sendo e serão poupadas com essa duplicação. Além disso, diminuímos o tempo de trajeto para as pessoas e melhoramos a infraestrutura, possibilitando fretes mais baratos e seguros. Tudo isso é ganho para quem trafega nessa rodovia todos os dias”, pontuou.

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