Os ferimentos encontrados nos corpos dos chiquitanos Arsino Sunbre García, de 53 anos, Pablo Pedraza, 38, Yona Pedraza Tosube, 26, e Ezequiel Pedraza Tosube, 18, geraram lesões normalmente identificadas nos combatentes em zona de guerra. Os quatro homens, membros da mesma família, foram mortos durante suposto confronto com policiais do Grupo Especial de Fronteira (Gefron) há exatamente seis meses, nas proximidades do município de Cáceres (a 219 km de Cuiabá), que faz fronteira com a Bolívia. A área fica exatamente na divisa entre os dois países.
No total, os militares dispararam 29 vezes contra as vítimas, sendo 27 tiros dados com fuzil 556 e 7,62 e outros dois com uma pistola .40. As marcas ficaram cravadas praticamente em uma única árvore situada dentro da Fazenda São Luiz, cerca de 10 km da comunidade de chiquitanos, San José de La Frontera, em San Matías, na Bolívia. A ação policial durou cerca de 4 horas.
Apesar da violência, as mortes classificadas como “suposto crime de homicídio” pela Juíza de direito, de Cáceres, Helícia Vitti Lourenço, só começaram a ser investigadas 22 dias depois do crime.
Cemitério na comunidade de chiquitanos, San José de La Frontera, em San Mathias; familiares mantêm homenagens no local a Ezequiel, Pablo, Yona e Arcino
Como tudo começou
Os quatro bolivianos saíram de casa por volta das 12h de 11 de agosto de 2020 para caçar na propriedade rural onde ocorreram os assassinatos. O grupo tinha costume e autorização de entrar no local. Eles levavam “na bagagem” uma espingarda calibre 22, um facão, uma foice e mochilas com água, além de quatro cachorros.
Quando já estavam na fazenda, acabaram se deparando com policiais do Gefron e foram suspostamente confundidos com traficantes e mortos.
No boletim de ocorrência, os militares relataram que, ao chegar na propriedade, encontraram nove pessoas e não quatro. Afirmam ainda que só os abordaram porque o bando correu para uma região de mata “carregando sacos com drogas”.
A narrativa policial também descreve que os quatro assassinados levavam com eles quatro revólveres. No entanto, no BO não há alusão à espingarda de caça de posse dos bolivianos.
Contudo, um tempo depois, a investigação mostrou que as vítimas, diferente do descrito pelos militares, não estavam transportando entorpecentes, não portavam revólveres e a arma que o grupo usava para caçar despareceu.
Passados seis meses da ocorrência descrita acima, os sargentos PM Anderson dos Santos Mello, de 39 anos, e José Silvio Cardoso de Oliveira, e os soldados Cristiano Kozen, 32, e Marcos Aurélio Espindola Pereira, 35, envolvidos na ocorrência, continuam trabalhando.
O inquérito policial, por outro lado, ainda está em andamento, porém tende a ser arquivado. Até o momento, a Polícia Civil ouviu apenas os quatro militares ligados ao crime, o pai de uma das vítimas e um servidor público de Cáceres.
Em dezembro de 2020, o caso passou a ser investigado também pela Polícia Federal, em Cáceres, após uma solicitação do Ministério Público Federal (MPF) e segue sob segredo de justiça. Até o momento, também nenhum familiar foi chamado para ser ouvido pela PF.
Para contar detalhes dessa história cheia de versões, a reportagem do
foi até à comunidade dos chiquitanos, localizada há cerca de 80 km de Cáceres (a 248 km da Capital) e 30 km da cidade boliviana San Matías. Nos trechos abaixo serão relatadas as versões repassadas em depoimentos e fatos descritos em laudos da perícia.
Dia das mortes
Na manhã de 11 de agosto de 2020, uma terça-feira, os indígenas bolivianos ligaram para o gerente da fazenda pedindo autorização para caçar na propriedade. Um comportamento que passou a ser corriqueiro para o grupo, principalmente no período da pandemia.
Rodinei Crescêncio
Comunidade de indígenas bolivianos, chiquitanos, chamada de San José de La Frontera, localizada em San Matías, Bolívia, e local onde as vítimas moravam
No local, eles sempre pescavam e caçavam. Naquele dia, um dos principais objetivos era encontrar um porco do mato para comemorar o aniversário do filho caçula de Yona, membro do grupo.
Segundo relato de funcionário de uma das fazendas que ficam aos arredores da propriedade onde houve o suposto confronto entre os policiais do Gefron e o chiquitanos, naquela terça foi possível ouvir uma série de tiros na fazenda.
A testemunha conta que foi surpreendida por cinco viaturas do Gefron passando por dentro da propriedade.
Uma hora e meia depois, houve mais vários tiros. Assustado foi de moto até a cerca que separa as propriedades para ver o que estava acontecendo. Ao chegar, buzinou.
Mas os policiais simplesmente mandaram que ele recuasse. Quando voltava, ouviu mais tiros e não conseguiu mais ver o que estava acontecendo. “Os tiros aconteceram antes de eu chegar no final da cerca e depois que voltei. Eles ficaram lá das 13h até às 17h. Foi um bocado de tiros”, revelou ao falar à polícia.
Nos depoimentos dos quatro militares envolvidos na abordagem a versão narrada é outra.
Os militares contam que receberam informação do núcleo de inteligência do Gefron de que haviam indivíduos armados transportando drogas na região da BR-070.
Em seguida, decidiram fazer um patrulhamento na “referida propriedade”. Os quatro “fronteiras” (policiais) contam que iniciaram as buscas a pé com o objetivo de localizar os supostos suspeitos.
“Os tiros aconteceram antes de eu chegar no final da cerca e depois que voltei. Eles ficaram lá das 13h até às 17h. Foi um bocado de tiros”
Trecho de relato de uma testemunha à políciaDurante o patrulhamento teriam visualizado vários indivíduos em uma região de mata com arma de fogo em punho.
Ainda nos depoimentos, que são idênticos, afirmam que deram ordem de parada ao grupo, mas os integrantes (chiquitanos) não obedeceram e dispararam contra eles.
Diante do ataque, descreveram eles, “a equipe respondeu com ao mesmo nível de força” e efetuou os disparos.
O 3º sargento Anderson dos Santos Mello afirmou que efetuou aproximadamente 7 disparos de fuzil 7,62 contra o bando. E que, depois disso, a troca de tiros parou.
Nesse momento, fizeram uma varredura pelo local e encontraram os quatro homens no chão feridos. Todos estariam armados.
Ainda em depoimento, disse recordar que neste instante um deles saiu correndo efetuando disparos contra a guarnição, e que, simultaneamente, outros nove indivíduos retornavam carregando cangas - uma espécie de saco utilizado por mulas para o transporte de drogas.
Já o 3º sargento José Silvio Cardoso de Oliveira, revelou que disparou 6 vezes com fuzil 556.
Por sua vez, o soldado Marcos Aurélio Espinosa Pereira afirmou à Polícia Civil que atirou oito vezes contra os alvos com o fuzil 556 e duas vezes com a pistola .40. E soldado Cristiano Kozen afirmou que atirou 8 vezes de fuzil 556.
Segundo o depoimento dos militares, ao identificar que as vítimas estavam feridas, prestaram socorro e as levaram para o hospital Regional de Cáceres, onde teriam morrido. Todavia, pela gravidade dos ferimentos os quatro teriam chegado ao Hospital Regional de Cáceres mortos.
Galeria: Local da morte dos 4 chiquitanos
Gravidade dos ferimentos
Conforme laudo da perícia técnica, o qual a reportagem do
teve acesso, o boliviano Arsino Sumbre Garcia morreu com quatro lesões, sendo ferimentos no braço esquerdo, tórax e hipocôndrio (abdômen) do lado direito.
Já Yona apresentava 12 lesões, sendo elas distribuídas entre o braço esquerdo, no úmero esquerdo, punho e o antebraço esquerdo, abdômen do lado direito, antebraço inferior do braço direito, hemitorax (peito) direito, dorsal (costas) direito, coxa esquerda, mão esquerda, lombar esquerda e braço esquerdo.
Foram encontrados oito ferimentos no chiquitano Pablo, sendo no abdômen de grande extensão, com evisceração e no tórax posterior. Ele também levou tiros na coxa esquerda, no fêmur, joelho esquerdo, coxa direita, antebraço direito, e cotovelo esquerdo.
O mais novo do grupo, o Esequiel, apresentava 14 lesões, entre o abdômen, tórax e face.
Nos quatro foram achados ferimentos similares aos identificados em corpos quando são arrastados.
Pablo tinha na boca uma folha de coca, planta nativa da Bolívia e do Peru, espécie de vegetal arbustivo. O arbusto tem efeito levemente estimulante, ajuda a reduzir a fome e participam do processo digestivo, além de mitigar os efeitos da falta de oxigênio em regiões de altitudes excepcionais. Os nativos da região mascam a planta para lidar com a altitude.
Yona, ao tentar correr ferido, perdeu parte da dentadura que usava. A prótese foi encontrada somente depois por alguns familiares na área onde foram mortos.
Sem parentesco
Cerca de 47 dias depois, um novo confronto foi registrado na região. Desta vez nas imediações das margens do Rio Jauru. Após um suposto enfrentamento com quatro suspeitos, Carlito Socore Algarañas, de 16 anos, e Cesar Tosube Lopez, 27, ambos de origem chiquitana, morreram.
Contudo, informações repassadas à imprensa pelo Gefron, à época, era que Cesar seria irmão de Ezequiel Pedraza Tosube. Porém, no boletim de ocorrência oficial não consta esse dado.
A informação é negada pelos familiares. Eles afirmam que não há parentesco.









Victor 13/02/2021
Daniel vc deve ser um mimado. Não conhece a fronteira, se o Gefron não tomar cuidado morre.
Marcinho 11/02/2021
Lendo essas msgs, cheguei a conclusão que o GEFRON MT,fez um grande favor pra sociedade...isso sim...BRAVO...
Daniel 11/02/2021
Desde o Sapiquá até o Corixinha os comentários são uníssonos no sentido de que essas quatro pessoas mortas não estavam traficando. Ademais, ainda que estivessem, deveriam ter ser sido submetidas ao devido processo legal. É isso que se espera de um ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO, e não torturas, execuções e desaparecimentos como veem sendo relatado exaustivamente na fronteira oeste, principalmente, desde o ano passado (2020). Só para constar, dados da SESP apontam que no ano passado ocorreu mais que o triplo de mortes em supostos confrontos do que nos anos de 2018 e 2019 juntos
Davi 11/02/2021
Desafio os jornalistas a virem aqui na fronteira no Fortuna, Ponta do Aterro, Avião Caído e conversar com os moradores - vcs vão saber de muita história de traficantes que obrigam os proprietários de terras a lhes deixar passar com drogas por suas terras sob ameaça, que praticam extorsão contra moradores, sobram dívidas de usuários dos familiares. Se o proprietário não fizer o que mandam eles roubam ou matam o gado, roubam tratores, insumos agrícolas, dão tiro nas casas. Compram armas pesadas na Bolívia e impõem o terror. Eu mesmo vou vender minha fazenda aqui se achar comprador não aguento mais. Infelizmente a gente vê como há uma distorção no que é noticiado na imprensa, isso enfraquece a polícia que é a única defesa que temos.
Garpar 11/02/2021
Há expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas. Queira, por gentileza, refazer o seu comentário
Lúcio 11/02/2021
Tony vida negras importa e vida dos policia tb vc deve ser um filho de papai que nunca veio na frontera não sabe o que esse povo faz aqui ameassano as pessoa armado obrigano a deixar passar nas suas terra com droga falano que mata seu filho. Parabens pro gefom.
SITIANTE DO LIMÃO 11/02/2021
Só quem conhece a fronteira sabe que era um bando de marginal armado que viciava até os adolescente daqui quem defende deve ser do Comando Vermelho que coloca medo aqui.
José 11/02/2021
Tem um desses que ameaçou um sitiante que mora perto da Vila Aparecida pra pagar a dívida do genro que era traficante, tomou todo o gado dele eles andavam em grupo e armado. Se o gefrão bobeasse tinha morrido.
Morador do Fortuna 11/02/2021
Nós que moramos aqui conhecemos essas pessoas que morreram todos traficante que andava armado na região amedrontando o povo daqui. Nenhum era indio mesmo, agora quer dá de santo. Um desses ai o irmão morreu depois com quase uma tonelada de droga com fuzil. Sinceramente da dó dos policiais, decerto que tinham que morre ao invez de enfrentar esses bandido.
Tony José de Souza 11/02/2021
Vidas indígenas IMPORTAM!
Chico Bento 11/02/2021
RDNEWS, a matéria fala, fala, fala, mas não diz se o local dos fatos fica no lado do Brasil ou na Bolívia. É preciso ser mais claro, principalmente em se tratando de assuntos como este.
11 comentários