A RÚSSIA É AQUI

Sexta-Feira, 25 de Maio de 2018, 08h:33 | Atualizado: 27/05/2018, 07h:54

Submissas aos homens, mulheres casam cedo e usam vestidos longos - veja fotos


Enviado Especial à Colônia Russa, em Primavera do Leste

Logo na chegada da Colônia Russa, em Primavera do Leste, um dos costumes que chama atenção é o vestuário. Em meio ao sol escaldante, mulheres usam longos vestidos e homens, blusas de manga longa. As roupas são cenfeccionadas pelas próprias moradoras da comunidade. Elas costuram para si, o marido e filhos. “Não me sinto incomodada, já estou acostumada a usar o vestido longo mesmo no calor”, afirma Iulia Ovchinnikov, 16 anos, que já costura a própria roupa.

Em visita à colônia, o descobriu alguns dos costumes da comunidade, instalada em Mato Grosso nos anos 70, que são mantidos com o passar de quase cinco décadas.

Gilberto Leite

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 Iulia Ovchinnikov e Felessata Kalin confecionam os próprios vestidos longos e adereços que usam, sem desconforto, segundo elas, apesar do intenso calor.

Mulheres são submissas aos homens. As solteiras usam tranças, conforme determina a tradição. Algumas saem com o cabelo solto, porém o ato é considerado moderno e nem sempre agrada os moradores mais antigos. As casadas utilizam um lenço que esconde o cabelo. Para muitas delas, seguir a tradição é uma forma de respeitar as origens de seus ancestrais.

Outra característica das mulheres da colônia é a prática do artesanato. Elas costumam aprender a bordar logo na infância. Com o tempo, vão ficando exímias bordadeiras e chegam a comercializar itens como roupas ou acessórios.

Os casamentos

Parte das mulheres da comunidade se casa aos 15 anos ou pouco depois. “Antes era mais comum o casamento nessa idade, mas hoje em dia as jovens preferem esperar mais tempo”, comenta Dóris Emores, diretora da única escola da colônia.

Diversos matrimônios que acontecem no local costumam ser organizados pelos pais dos noivos, que querem que os filhos se relacionem com outro descendente russo, seguidor da Igreja Ortodoxa, para que mantenham a tradição.

Comumente, são realizadas cerimônias entre colônias russas espalhadas pela América do Sul – há outras em países como Argentina, Bolívia e Colômbia. Conforme apurado pela reportagem, um dos objetivos dessas reuniões é fazer com que jovens descendentes de russos se conheçam, para que, caso haja interesse, se casem e mantenham viva sua tradição. A busca por moradores de grupos de outros países tem um motivo: a tradição deles não permite que os descendentes se casem com pessoas que tenham algum tipo de parentesco até a oitava geração da família.

O agricultor Larion Ovchinnikov, um dos líderes da comunidade russa, afirma que não há nenhum tipo de impedimento para que descendentes de russos se casem com pessoas de outras culturas. “O certo era casamento entre descendentes de russos. Mas ninguém proíbe nada. Porém, por causa da cultura, tradição e religião, o correto era russo com russo. Mas acontecem casamentos com pessoas de fora”, comenta.  “Hoje, os filhos são mais modernos que os pais. Não existe mais casamento arranjado. Cada um define o que quer. Se o pai tentar indicar alguém para casar, aí que não vai haver casamento mesmo”, acrescenta.

O passar das décadas fez com que a colônia abrisse exceção aos casamentos entre brasileiros ou pessoas de outras culturas. No entanto, para que se case no local, é necessário que a pessoa de fora se converta à Igreja Ortodoxa e siga a cultura dos descendentes. Quando tal orientação não é seguida, o casal precisa deixar a colônia e migrar para outra a região. O destino mais comum, neste caso, é a zona urbana de Primavera do Leste. Na cidade, há diversos descendentes que deixaram a colônia, após se envolverem com brasileiros.

Se o matrimônio seguir costumes da colônia, a cerimônia dura uma semana. No período, são feitas diversas comemorações, como despedida de solteiro dos noivos, cerimônia religiosa e uma festa com churrasco, que pode durar dois dias. Durante a semana, as madrinhas da noiva confeccionam o vestido com o qual a jovem vai se casar.

Semanas antes da ida da reportagem à colônia, uma adolescente de 15 anos havia se casado com um jovem de 22, da Argentina. “Ela me disse que estava feliz. Depois que as noivas se casam, passam a se tornar responsabilidade da família do marido. Tanto é que essa adolescente foi para a Argentina. Ela deixou os estudos para casar, mas prometeu que irá retomá-los em breve”, conta a diretora da escola.

Galeria: A Rússia é aqui - Comportamentos

Gilberto Leite

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Cartilha russa é utilizada na escola para as crianças aprenderem a língua

Alfabetização dos filhos

O ciclo entre grande parte dos moradores da colônia se repete: casamento e, anos depois, o nascimento dos filhos. Uma tradição no local é que as crianças sejam alfabetizadas no idioma russo, logo nos primeiros anos de vida. Somente depois, quando entram na escola, passam a aprender o português. Na maioria das casas da colônia, só é falado o russo. “É uma forma de a gente não perder o costume de falar o idioma”, justifica Felessata Kalin, 18 anos.

Os descendentes acreditam que o ensino do idioma logo no início da vida facilita o aprendizado. Em muitos casos, os próprios pais são os responsáveis por ensinar as crianças.

Gilberto Leite

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 Tecnologia começa a fazer parte da vida de jovens descendentes russos e isso tem mudado dinâmica em sala de aula

“Com um dos meus filhos, ensinei as duas línguas, o português e o russo, juntas. Mas ele pegou só o português, porque achou mais fácil. O russo ele não aprendeu direito. Já com a minha filha mais nova, ensinei somente o russo primeiro e depois o português. Ela aprendeu muito bem o russo”, comenta Vera Kuznetsov, de 40 anos, que tem quatro filhos.

A escola

Em anos anteriores, as comunidades nas quais são dividas a Colônia Russa – existem três – costumavam ter escolas próprias, nas quais aprendiam russo para que, posteriormente, fossem para uma escola brasileira. Porém, Larion Ovchinnikov afirma que o Estado deixou de ofertar professores para a região há oito anos. “Acho que retiraram isso da gente porque tinham inveja porque nós mantemos nossa cultura e a cultura brasileira não é muito seguida no próprio Brasil”, critica.

Em comunicado, a Secretaria de Estado de Educação negou que o Estado tenha ofertado qualquer tipo de professor de russo para a colônia em anos anteriores. “A língua russa não faz parte das disciplinas obrigatórias da grade curricular determinada pelo Ministério da Educação (MEC) e, por isso, não é lecionada nas unidades da rede estadual de ensino. O Estado jamais forneceu um professor para ensinar russo”, diz nota emitida pela pasta.

Atualmente, a única escola que na região rural onde fica a colônia é estadual. A unidade de ensino é localizada dentro dela. A terra foi doada pelos descendentes de russos. A Prefeitura de Primavera do Leste fez a construção e posteriormente o local foi entregue ao Estado, atual responsável por manter a escola, que atualmente possui cerca de 200 alunos.

A gente tem celular e acesso à internet. Mas há alguns anos, muitas casas não tinham nem televisão - conta jovem Felassata Kalin

“Hoje, temos metade de alunos moradores da colônia e os outros são brasileiros, filhos dos trabalhadores da colônia”, explica a diretora da escola.

Na unidade de ensino, o aprendizado é apenas em português. Para diretora, os descendentes de russos costumam ser mais aplicados. “Lêem mais e têm mais interesse durante as aulas. Acredito que seja porque têm menos contato com a tecnologia”, supõe.

No entanto, a tecnologia já passou a fazer parte da rotina dos jovens há alguns anos. “A gente tem celular e acesso à internet. Mas há alguns anos, muitas casas não tinham nem televisão”, conta Felessata Kalin.

Na escola, os alimentos para os descendentes de russos são feitos somente por cozinheiras que também seguem a tradição. Seguem calendário religioso, que determina os dias nos quais poderão comer determinados alimentos. Feriados do calendário russo são respeitados. “Essas datas são repostas nos sábados”, comenta a diretora.

Trabalho na infância

Todos na aldeia costumam começar a trabalhar desde cedo nas plantações dos pais. Na região, são comuns cultivos de algodão, soja, feijão, girassol e milho. Há também a criação de gados.

“Desde os 13 anos dirijo o caminhão do meu pai. Também já dirigi uma pá-carregadeira, mas fiquei com muito pavor e não consegui andar muito, porque ela é muito pesada e lenta”, relata uma jovem que vive na colônia. “Acho isso normal ajudar nas plantações, porque todos fazem isso”.

Historiador da UFMT, professor Vitale Joanoni afirma que, no trabalho rural familiar, é comum crianças também ajudarem os pais no cotidiano. "Não é uma particularidade dessa comunidade, isso é comum no meio rural do Brasil, por mais triste que possa parecer”, ressalta .

Muitos pais querem que os filhos deixem de estudar para que possam se dedicar à plantação - diz diretora da escola local

Grande parte dos casos de evasão escolar é inclusive em decorrência disso. “Muitos pais querem que os filhos deixem de estudar para que possam se dedicar à plantação. Na época da colheita, é muito comum que alguns jovens deixem de freqüentar as aulas”, relata Doris Emores, diretora da Escola Estadual Campo Massape, única unidade de ensino da região.

Para tentar repreender a evasão escolar na região, o Ministério Público costuma acompanhar a frequência dos estudantes. “Existe um sistema no qual as presenças e faltas são publicadas diariamente. Quando um aluno está faltando muito, o Ministério Público vem à escola para verificar os motivos das ausências”, assegura a diretora. “Houve caso do estudante dizer que iria desistir da escola na oitava série. Mas como o sistema de rematricula é automático, foi matriculado no primeiro ano do Ensino Médio. Então, o MP veio para saber o motivo de o estudante estar faltando. Depois disso, o garoto voltou para a escola”, relata.

Copa do mundo

Na colônia, não há nenhum tipo de decoração ou algo que remeta à Copa do Mundo deste ano, que acontecerá na Rússia de 14 de junho a 15 de julho. Apesar disso, moradores afirmam que estão animados para assistir ao mundial de futebol. “A gente vai acompanhar os jogos e vamos torcer”, afirma Felessata Kilin. Só não sabem ainda para quem torcer. Enquanto uns dizem que querem a vitória do Brasil, outros escolhem a Rússia. “Está muito dividido, mas se tiver jogo do Brasil contra a Rússia, vou torcer pelo Brasil”, garante a moça.

Entre os moradores, o futebol é considerado um dos esportes preferidos. A escola tem uma quadra. Para a Copa do Mundo, planeja fazer uma decoração uma semana antes do mundial com pequenas bandeiras do Brasil e da Rússia. “Sei que os estudantes gostam de futebol e muitos estão divididos sobre o país para o qual vão torcer”, comenta a diretora Dóris Emores.

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Comentários (7)

  • Agnia Fefelov Anufriev | Sábado, 26 de Maio de 2018, 09h42
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    Nunca vi tamanha incoerência numa reportagem, tem hora que o repórter fala que vivemos" Cada um por si e Deus por todos",e em seguida fala que a colônia tem líderes...tem hora que se atrapalha e chama a colônia de aldeia...Desde quando a sigla do estado de Paraná é (PA),?A parte que casamos submissas?kkkkk Só casamos com homens capazes de sustentar a própria família.O repórter mostra inveja de nossos maridos e nós chama de submissas kkkkk.

  • Agnia Fefelov Anufriev | Sábado, 26 de Maio de 2018, 09h27
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    Nossa!Que desgosto com a foto dos noivos,ela não é verídica,pois nós não casamos com véu e velas... Não faz parte da nossa religião,o repórter baixou da internet.

  • Erika | Sexta-Feira, 25 de Maio de 2018, 22h17
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    O moço se veste e se barbeia como o czar Nicolau. Até parece com ele. Esse estilo de gala russo kokoshinik da noiva é muito chique. Pena que essa cultura não seja tão conhecida no Brasil

  • MANOEL JOAO PINHEIRO DA SILVA | Sexta-Feira, 25 de Maio de 2018, 22h04
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    Parabens a todos da colonia, que os brasileiros saibam respeitar suas tradições e cultura.Professor Manoel Pinheiro

  • Edson | Sexta-Feira, 25 de Maio de 2018, 20h40
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    4

    Edson, Há expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas. Queira, por gentileza, refazer o seu comentário

  • alex sander | Sexta-Feira, 25 de Maio de 2018, 12h55
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    vejo isso como uma tradição medieval que exclui os seres humanos de outras raças coisa de russo,alemão, que vivem no seu mundinho egoísta, não vem de Deus do nosso criador altíssimo.

  • Carla | Sexta-Feira, 25 de Maio de 2018, 09h00
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    Bem mais plausível que essa libertinagem e promiscuidade que se vê na atualidade no Brasil instigada pela mídia de massa, que prefere famílias desestruturadas, criando um grande número de pessoas dependentes do estado (bolsa família), que se veem obrigados a votar em candidatos populistas e degenerados, como o Lula, o Aécio, a Dilma, etc.

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