A comunicação começa antes da primeira palavra
Michelli Egues
Quando pensamos em comunicação, quase sempre pensamos naquilo que dizemos. Nas palavras escolhidas, no tom de voz, na postura ou na maneira como nos apresentamos diante de outras pessoas. Mas existe uma conversa que acontece muito antes de qualquer palavra ser pronunciada: aquela que mantemos conosco. O que pensamos sobre nós mesmos, sobre nossa identidade, sobre nossas capacidades e sobre aquilo que estamos prestes a enfrentar interfere diretamente na maneira como nos comunicamos com o mundo.
Todos nós conhecemos esse diálogo interno. “Eu não vou conseguir.” “Não sou bom nisso.” “Vou esquecer tudo.” “Todo mundo sabe mais do que eu.” “Vai dar errado.” Esses pensamentos aparecem, muitas vezes, de forma tão automática que sequer percebemos o espaço que começam a ocupar. O problema não é ter um pensamento negativo. O problema começa quando deixamos de tratá-lo como pensamento e passamos a tratá-lo como verdade.
Tenho observado isso ao longo dos anos como professora e, mais recentemente, nos treinamentos de comunicação e apresentações que ministro. Muitas vezes encontro alunos que conhecem o conteúdo, estudaram, prepararam-se e têm todas as condições de realizar uma excelente apresentação. Mas, antes mesmo de começarem, já repetiram inúmeras vezes para si mesmos que vão travar, esquecer o conteúdo ou não conseguir responder as perguntas. Quando chegam diante da banca, portanto, não estão enfrentando apenas o desafio de apresentar um trabalho. Estão enfrentando também tudo aquilo que disseram a si mesmos antes de chegar ali.
O problema não é ter um pensamento negativo. O problema começa quando deixamos de tratá-lo como pensamento e passamos a tratá-lo como verdade.
E isso não acontece somente no ambiente acadêmico. Acontece antes de uma reunião importante, de uma entrevista de emprego, de uma palestra, de uma negociação ou de uma conversa difícil. O pensamento começa internamente, mas seus efeitos podem aparecer na voz que perde firmeza, no olhar que procura o chão, na postura que se retrai, na fala acelerada e até na decisão de permanecer em silêncio quando havia algo importante a dizer.
Tony Robbins, uma das principais referências mundiais em desenvolvimento humano, sintetiza essa ideia ao afirmar que “as crenças têm o poder de criar e o poder de destruir”. A reflexão é importante porque aquilo em que acreditamos sobre nós mesmos influencia a forma como interpretamos nossas experiências e nos comportamos diante delas. Uma apresentação que não saiu como esperávamos pode ser compreendida como uma experiência que precisa ser aperfeiçoada ou transformada na sentença: “Eu sou péssimo falando em público”. O acontecimento é o mesmo. O significado atribuído a ele é completamente diferente.
Talvez seja justamente aí que a consciência se torne tão importante. Não temos controle sobre todos os pensamentos que surgem, mas podemos questionar aqueles aos quais decidimos dar voz. “Eu realmente não consigo ou estou com medo?” “Eu não conheço o conteúdo ou estou inseguro?” “Vai dar errado ou existe apenas a possibilidade de não sair exatamente como planejei?” Questionar um pensamento não significa ignorar a realidade. Significa não permitir que uma percepção momentânea seja transformada automaticamente em uma verdade sobre quem somos.
As palavras que usamos para falar de nós mesmos também merecem atenção. Existe uma diferença enorme entre dizer “eu ainda fico nervoso quando preciso falar em público” e afirmar “eu não sei falar em público”. Na primeira frase existe uma dificuldade que pode ser trabalhada. Na segunda, uma experiência passa a definir uma identidade. E quando repetimos determinadas definições sobre nós mesmos durante muito tempo, podemos começar a agir de acordo com elas.
Por isso, aprender a se comunicar melhor também passa por observar a maneira como conversamos conosco. Não se trata de repetir frases positivas diante do espelho ou acreditar que basta pensar que tudo dará certo. Preparação, conhecimento e prática continuam sendo indispensáveis. Trata-se de perceber quando nossa própria narrativa começa a trabalhar contra aquilo que estamos tentando construir.
Ao longo da minha experiência em sala de aula, já vi alunos mudarem completamente sua maneira de se apresentar quando perceberam que não precisavam eliminar o nervosismo para falar bem. Precisavam aprender a não interpretar o nervosismo como incapacidade. Quando a percepção muda, o corpo responde, a postura muda, a voz encontra mais segurança e o conhecimento que já existia finalmente consegue aparecer.
A comunicação começa muito antes de abrirmos a boca. Ela começa na interpretação que fazemos das nossas experiências, nas histórias que repetimos sobre quem somos e nas palavras que escolhemos para conversar conosco.
Porque aquilo que chega ao outro quase sempre passou primeiro pelos nossos pensamentos.
E talvez, antes de perguntar “como posso me comunicar melhor?”, exista uma pergunta ainda mais importante: “Como tenho me comunicado comigo?”
Michelli Egues é mestre em Direito, professora universitária, palestrante e mentora. Atua no desenvolvimento de competências de liderança, comunicação, oratória e apresentações. Instagram: @michelliegues