Não há questão mais relevante e urgente para os nossos filhos e netos do que as mudanças climáticas globais (MCG). Trata-se de um fenômeno que afetará profundamente a todos os humanos e demais espécies vivas do planeta. Afetará? Não! Já está acontecendo.
“Mudança climática” refere-se a alterações do clima atribuídas à atividade humana, que modificam a composição da atmosfera e se somam à variabilidade natural observada ao longo do tempo. De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), as MCG constituem um problema com características únicas pela sua dimensão global e efeitos de longo prazo, envolvendo complexas interações entre processos ambientais, climáticos, econômicos, políticos, institucionais, sociais e tecnológicos.
Considero que foi um erro estratégico subestimar o poder da desinformação e a sua capacidade de confundir, sabotar, atrasar e paralisar as imprescindíveis medidas de transição energética e de descarbonização dos processos produtivos
Suas consequências são cumulativas, sinérgicas e, em grande medida, irreversíveis. Essas mudanças afetam a infraestrutura, a biodiversidade, a produção de alimentos, os mercados econômicos, os padrões epidemiológicos sazonais e a saúde humana, potencializando crises e conflitos geopolíticos. Não se trata de uma abstração teórica, mas uma realidade que já molda o presente e ameaça o futuro. Fatos recentes, como enchentes devastadoras, ondas de calor recordes e queimadas de grande escala, ilustram a aceleração desses impactos.
O alerta não é novo. O tema é debatido há décadas. Em 1992, no Rio de Janeiro, foi negociada a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima, hoje com a adesão de 197 nações. Desde então, o conhecimento científico avançou de forma acelerada, com novas e refinadas tecnologias de pesquisa e com maior número de fontes de dados e evidências.
Pessoalmente, recordo uma manhã chuvosa na ilha do Fundão, na Baía de Guanabara, há mais de vinte anos, em 2004. Era a minha primeira aula no Doutorado em Planejamento Ambiental do Programa de Planejamento Energético da COPPE-UFRJ. A disciplina se chamava Mudanças Climáticas Globais I e os professores eram os doutores. Emilio Lèbre La Rovere e Roberto Schaeffer, que integravam o quadro de colaboradores do IPCC. Em 2007, o IPCC receberia o Prêmio Nobel da Paz, por reunir e sistematizar, ao longo de décadas, o trabalho de milhares de cientistas de todo o mundo para construir e disseminar maior conhecimento sobre as MCG e para criar condições de propor medidas de adaptação e mitigação.
Recentemente, ao reler minhas anotações daquela aula, impressionei-me ao verificar como muito do que parecia ser um futuro relativamente distante e incerto já está em curso, afetando tragicamente dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive no Brasil, com o registro crescente de eventos climáticos extremos. Todavia, o que naquele ambiente acadêmico não se conseguiu prever foi a maciça propagação da ignorância, travestida de negacionismo científico e impulsionada pela aliança do poder econômico da indústria de combustíveis fósseis com a falta de escrúpulos de políticos e comunicadores oportunistas.
Considero que foi um erro estratégico subestimar o poder da desinformação e a sua capacidade de confundir, sabotar, atrasar e paralisar as imprescindíveis medidas de transição energética e de descarbonização dos processos produtivos. Com isso, a economia global não evoluiu no ritmo necessário rumo à sustentabilidade ecológica e hoje a emergência climática reflete a exaustão da capacidade de suporte dos ecossistemas, isto é, dos limites de regeneração, absorção de carbono e manutenção da biodiversidade.
É essa a conta, é essa a dívida que estamos legando aos nossos filhos e netos.
No momento de escolher governantes e representantes, a política climática não é um tema secundário: é o desafio central de nosso tempo e a decisão que determinará o horizonte civilizatório possível e as condições de vida das próximas gerações.
Luiz Henrique Lima é professor e Doutor em Planejamento Energético e Ambiental
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