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ARTIGOS Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026, 11:43 - A | A

Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026, 11h:43 - A | A

Mirella Duarte

Atento e forte

Mirella Duarte

Mirella Duarte jornalista e escritora

Mirella Duarte

Vivemos sob a lógica da produtividade. É preciso entregar mais, responder mais rápido, cumprir metas e economizar minutos. Nesse cenário, a inteligência artificial, capaz de nos poupar horas, parece sedutora. Este artigo, porém, não é uma guerra contra a tecnologia. A questão é decidir o que queremos delegar a ela e o que preservar como exercício nosso. Pensar dá trabalho. Criar também.

A psicanálise percebeu muito antes dos algoritmos que criar não significa apenas produzir. A sublimação aponta para nossa capacidade de transformar conflitos e desejos em uma história, uma imagem ou uma música. Às vezes, criar é também elaborar aquilo que somos.

Que aceleremos o passo rumo a um beijo longo e demoremos em um abraço apertado, porque a saudade transita entre a urgência do encontro e a vontade de permanecer parado no tempo

Atravesso essa reflexão pela literatura. Manoel de Barros, capaz de engrandecer o que o mundo considera pequeno, definiu a poesia como “a virtude do inútil”. Num mundo em que tudo precisa justificar sua existência por produtividade ou retorno, talvez escrever um poema seja também uma insubordinação.

Ainda que às vezes me sinta desconfortável em me assumir “escritora”, sempre escrevi. Muito antes da primeira publicação, fazer literatura nunca foi apenas organizar palavras de maneira tecnicamente satisfatória. Na falta de verbo, nem sempre falta sentido.

Esta semana, repeti inúmeras vezes “Divino Maravilhoso”, interpretada por Gal Costa e composta por Caetano e Gil. “É preciso estar atento e forte / não temos tempo de temer a morte”. Essa convocação à atenção me parece cada dia mais importante enquanto nos perdemos na rolagem infinita das redes sociais, entre informações editadas e respostas instantâneas.

Me pergunto o quanto isso interfere na maneira como construímos nossas posições, inclusive políticas. Parar e pensar nunca foi tão necessário em tempos de pressa.

Alguns amigos questionam o intervalo das minhas respostas no WhatsApp, e brinco que converso sob o “conceito de cartas”. Posso declamar uma poesia que me lembra alguém, no meio da tarde, e passar dias sem voltar à conversa. Algo mudou com os anos, como se o intervalo significasse desinteresse. Será? Não cheguei a uma conclusão ainda.

Somos constituídos também pelo que demoramos a compreender: erros, contradições, memórias, desejos e mudanças. Nossa complexidade não é um defeito a ser corrigido pela eficiência.

Espero que continuemos fazendo algumas coisas difíceis por conta própria. Que escrevamos poemas na última folha da agenda. Que pintemos quadros imperfeitos. Que aceleremos o passo rumo a um beijo longo e demoremos em um abraço apertado, porque a saudade transita entre a urgência do encontro e a vontade de permanecer parado no tempo.

Talvez exercer a humanidade seja preservar o que não pode ser otimizado: a surpresa, a dúvida, o desejo e a contradição. Aquilo que nos faz interromper a rotina ao nos arrepiarmos com uma música, conhecermos uma nova teoria do universo, repetirmos um “eu te amo” ou ficarmos olhando alguém que dilate nossa pupila.

Que possamos criar algo que não sirva para nada além de nos lembrar que estamos vivos e gastar esse bilhete único com aquilo que fizer sentido, sem tanta explicação.

Se as máquinas puderem nos devolver algum tempo, que saibamos o que fazer com ele.

Mirella Duarte jornalista e escritora

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