Os surpreendentes britânicos
Roberto de Barros Freire
Os britânicos sempre surpreenderam o mundo, principalmente, pelo jeito peculiar de serem e viverem, e também pela defesa intransigente dos seus direitos. Basta lembrar que os ingleses mantiveram a libra e não adotaram o euro, nem adotaram as fronteiras europeias como suas fronteiras.
Os ingleses jamais mudaram seu padrão de peso e medidas ou mesmo a mão de seu trânsito, acompanhando a maioria do mundo, ou o que se instituiu como o padrão francês, o sistema métrico. Os romanos desistiram de conquistá-los, ainda que tenham invadido a Grã-Bretanha, pois gastavam mais esforços e recursos para obrigá-los a qualquer coisa, do que conseguiam bens com sua submissão, sempre precária e rebelde.
No decorrer dos séculos vários foram os povos que se aventuraram a invadir terras inglesas e igualmente vários foram os povos escorraçados e vencidos. Eles firmaram-se naquelas ilhas há milênios e há vários séculos, ainda que alguns ousem querer invadi-los, que muitos, até recentemente, sendo Hitler o último derrotado, pretendessem conquistar as terras ou o povo inglês, ninguém conseguiu submetê-los.
Os britânicos surpreenderam o mundo por serem os primeiros a deporem e matarem um rei (140 anos antes dos franceses) e a constituírem um Parlamento moderno e instituírem os direitos civis. Foram os primeiros a instituírem escolas públicas.
Foram os responsáveis pelo fim da escravidão, ao proibirem o tráfico humano no mundo. Seus pensadores influenciaram na formação científica, filosófica, política e artística do mundo ocidental, basta mencionar Newton, Locke, Darwin ou Shakespeare.
Senão, por outro motivo, só o fato de serem os criadores do futebol e o esporte ter caído no gosto mundial, mostra a forte influência inglesa no mundo. Enfim, da Inglaterra sempre partiram gestos, decisões e atitudes que estremecem o mundo, e que nos obrigam a pensar nas consequências que de certo modo atinge a todos, até mesmo os povos mais distantes.
Não foi diferente o que ocorreu recentemente, o plebiscito que decidiu pela separação dos ingleses da comunidade europeia, surpreendendo a todos, menos, é claro, aos próprios ingleses.
Contra as expectativas de todos, europeus, asiáticos, americanos, latino-americanos, brasileiros, do mundo todo e até de boa parte da própria comunidade britânica, eles deliberaram contra a manutenção da sua ligação ao continente. Decididamente os ingleses são insulares e assim querem permanecer, pelo menos 51,9% de sua população.
Majoritariamente os londrinos queriam permanecer com os laços estreitos com os europeus. Intelectuais, artistas, universitários, a elite econômica, política, a classe média, os principais partidos políticos, a imprensa, desejava permanecer na comunidade europeia, enfim, o que parecia ser a maioria, pois que tais setores têm mais voz e ouvidos, era na verdade apenas aqueles que mais falam e se fazem ouvir, o que não significa (ou pelo menos não significou no caso britânico) que a grande maioria dê ouvidos, ou sequer concorde.
Os ingleses não querem regras internacionais, não querem que suas fronteiras estejam abertas a todos, não querem que seus produtos sejam produzidos sobre normas europeias, não querem que seus cidadãos e sua forma de produzir tenham que se adequar a um padrão externo. Um povo que sempre foi cioso de seus costumes e hábitos tem dificuldade de se adequar a novos costumes e hábitos.
Mas, ainda que se possa ver alguma virtude, afinal, há uma afirmação corajosa de uma soberania nacional contra a intromissão internacional, não deixa de ser um gesto, no mínimo, temerário. Há começar pelo motor principal da decisão pela separação: a xenofobia, a exclusão de suas fronteiras da passagem livre por seu território dos demais povos; não apenas de sírios ou muçulmanos, mas também e principalmente de europeus.
A maior parte da população inglesa culpa a livre circulação das pessoas pela comunidade europeia como a responsável pelo desemprego: os ingleses permitem a livre circulação financeira e de mercadorias, suportam (por inevitável) a livre circulação de ideias, mas não suportam a livre circulação das pessoas.
Além disso, é decididamente um passo para trás em termos histórico. O mundo que caminha cada vez mais para uma integração maior entre os povos, tendendo a cada vez mais permitir a livre circulação das pessoas, onde as pessoas não estão mais presas fisicamente ao seu lugar de origem e tendem a buscar o seu lugar no mundo em qualquer lugar desse mesmo mundo, recebem um recado dos ingleses: não contem conosco.
De certo modo, os ingleses se isolaram do mundo ao se separarem do continente e vão perder parte de sua capacidade de intervenção nas grandes questões mundiais. Com certeza perderão importância econômica e política no continente europeu e no mundo, e é quase certo que a Inglaterra empobrecerá.
Por outro lado, a própria comunidade europeia também sai diminuída, por sinal, bem diminuída, pois o poder econômico, político e cultural britânico era um cacife alto que os europeus sempre utilizaram. Se a saída grega da comunidade europeia já era uma coisa desagradável, revelando fissuras e desgastes internos, isso era um problema mais simbólico e não era algo economicamente ruim, ou a perda de um país chave, mas a saída de um membro periférico, que parecia mais depender dos europeus do que contribuir com eles.
No caso inglês a questão é bem diferente, é uma economia que mais contribuía para o crescimento econômico do bloco do que lhe causava constrangimento, um país que acrescentava capital econômico, político e cultural para a comunidade europeia. Além disso, era um contrapeso ao peso da Alemanha, e de certo modo tinha uma função moderadora nas disputas entre franceses e alemães, e impedia uma política mais protecionista por parte dos europeus.
O futuro incerto em que agora estamos nos traz uma certeza: devemos estar sempre preparados para as novidades, pois que no mundo atual, nada é eterno ou durável, e os elos humanos estão cada vez mais instáveis. Os britânicos trouxeram à tona uma velha questão, o ideal de unidade e integração entre os homens é mais uma questão intelectual ou acadêmica, do que uma efetividade para o imaginário dos povos.
Basta perceber o crescimento estrondoso de antigos sentimentos nacionalistas e xenófobos há tempos abafados do continente europeu, por um discurso de tolerância e amizade que era apenas e tão somente discurso. Foi só aparecer um momento concreto para se efetivar o espírito humanitário, o problema dos refugiados das guerras, que o mesmo continente cheio de lições de morais a dar ao mundo, se mostrou frágil, tímido, para não dizer medíocre.
Particularmente torço para que ambas as partes se saiam bem, e que o resto do mundo não tenha que pagar um preço muito alto por essa deliberação britânica. Mas, temo que não apenas os europeus e britânicos perderam com essa ruptura, mas o mundo, principalmente a ideia de comunidade humana e uma vida em comum entre os povos.
Espero apenas que isso não seja o primeiro passo para a dissolução completa da comunidade europeia que tem inspirado o mundo na busca de uma convivência comum entre povos diferentes. Espero também que não comece a aflorar os sentimentos primitivos de um velho nacionalismo e da xenofobia, que já deveriam estar extintos do espírito da atualidade, principalmente numa Europa que já enfrentou uma guerra cruel por essas questões.
Roberto de Barros Freire é professor na UFMT - rdefreire@uol.com.br