Os britânicos sempre surpreenderam o mundo, principalmente, pelo jeito peculiar de serem e viverem, e também pela defesa intransigente dos seus direitos. Basta lembrar que os ingleses mantiveram a libra e não adotaram o euro, nem adotaram as fronteiras europeias como suas fronteiras.
Os ingleses jamais mudaram seu padrão de peso e medidas ou mesmo a mão de seu trânsito, acompanhando a maioria do mundo, ou o que se instituiu como o padrão francês, o sistema métrico. Os romanos desistiram de conquistá-los, ainda que tenham invadido a Grã-Bretanha, pois gastavam mais esforços e recursos para obrigá-los a qualquer coisa, do que conseguiam bens com sua submissão, sempre precária e rebelde.
No decorrer dos séculos vários foram os povos que se aventuraram a invadir terras inglesas e igualmente vários foram os povos escorraçados e vencidos. Eles firmaram-se naquelas ilhas há milênios e há vários séculos, ainda que alguns ousem querer invadi-los, que muitos, até recentemente, sendo Hitler o último derrotado, pretendessem conquistar as terras ou o povo inglês, ninguém conseguiu submetê-los.
Os britânicos surpreenderam o mundo por serem os primeiros a deporem e matarem um rei (140 anos antes dos franceses) e a constituírem um Parlamento moderno e instituírem os direitos civis. Foram os primeiros a instituírem escolas públicas.
Foram os responsáveis pelo fim da escravidão, ao proibirem o tráfico humano no mundo. Seus pensadores influenciaram na formação científica, filosófica, política e artística do mundo ocidental, basta mencionar Newton, Locke, Darwin ou Shakespeare.
Senão, por outro motivo, só o fato de serem os criadores do futebol e o esporte ter caído no gosto mundial, mostra a forte influência inglesa no mundo. Enfim, da Inglaterra sempre partiram gestos, decisões e atitudes que estremecem o mundo, e que nos obrigam a pensar nas consequências que de certo modo atinge a todos, até mesmo os povos mais distantes.
Não foi diferente o que ocorreu recentemente, o plebiscito que decidiu pela separação dos ingleses da comunidade europeia, surpreendendo a todos, menos, é claro, aos próprios ingleses.
Contra as expectativas de todos, europeus, asiáticos, americanos, latino-americanos, brasileiros, do mundo todo e até de boa parte da própria comunidade britânica, eles deliberaram contra a manutenção da sua ligação ao continente. Decididamente os ingleses são insulares e assim querem permanecer, pelo menos 51,9% de sua população.
Majoritariamente os londrinos queriam permanecer com os laços estreitos com os europeus. Intelectuais, artistas, universitários, a elite econômica, política, a classe média, os principais partidos políticos, a imprensa, desejava permanecer na comunidade europeia, enfim, o que parecia ser a maioria, pois que tais setores têm mais voz e ouvidos, era na verdade apenas aqueles que mais falam e se fazem ouvir, o que não significa (ou pelo menos não significou no caso britânico) que a grande maioria dê ouvidos, ou sequer concorde.
Os ingleses não querem regras internacionais, não querem que suas fronteiras estejam abertas a todos, não querem que seus produtos sejam produzidos sobre normas europeias, não querem que seus cidadãos e sua forma de produzir tenham que se adequar a um padrão externo. Um povo que sempre foi cioso de seus costumes e hábitos tem dificuldade de se adequar a novos costumes e hábitos.
Mas, ainda que se possa ver alguma virtude, afinal, há uma afirmação corajosa de uma soberania nacional contra a intromissão internacional, não deixa de ser um gesto, no mínimo, temerário. Há começar pelo motor principal da decisão pela separação: a xenofobia, a exclusão de suas fronteiras da passagem livre por seu território dos demais povos; não apenas de sírios ou muçulmanos, mas também e principalmente de europeus.
A maior parte da população inglesa culpa a livre circulação das pessoas pela comunidade europeia como a responsável pelo desemprego: os ingleses permitem a livre circulação financeira e de mercadorias, suportam (por inevitável) a livre circulação de ideias, mas não suportam a livre circulação das pessoas.
Além disso, é decididamente um passo para trás em termos histórico. O mundo que caminha cada vez mais para uma integração maior entre os povos, tendendo a cada vez mais permitir a livre circulação das pessoas, onde as pessoas não estão mais presas fisicamente ao seu lugar de origem e tendem a buscar o seu lugar no mundo em qualquer lugar desse mesmo mundo, recebem um recado dos ingleses: não contem conosco.
De certo modo, os ingleses se isolaram do mundo ao se separarem do continente e vão perder parte de sua capacidade de intervenção nas grandes questões mundiais. Com certeza perderão importância econômica e política no continente europeu e no mundo, e é quase certo que a Inglaterra empobrecerá.
Por outro lado, a própria comunidade europeia também sai diminuída, por sinal, bem diminuída, pois o poder econômico, político e cultural britânico era um cacife alto que os europeus sempre utilizaram. Se a saída grega da comunidade europeia já era uma coisa desagradável, revelando fissuras e desgastes internos, isso era um problema mais simbólico e não era algo economicamente ruim, ou a perda de um país chave, mas a saída de um membro periférico, que parecia mais depender dos europeus do que contribuir com eles.
No caso inglês a questão é bem diferente, é uma economia que mais contribuía para o crescimento econômico do bloco do que lhe causava constrangimento, um país que acrescentava capital econômico, político e cultural para a comunidade europeia. Além disso, era um contrapeso ao peso da Alemanha, e de certo modo tinha uma função moderadora nas disputas entre franceses e alemães, e impedia uma política mais protecionista por parte dos europeus.
O futuro incerto em que agora estamos nos traz uma certeza: devemos estar sempre preparados para as novidades, pois que no mundo atual, nada é eterno ou durável, e os elos humanos estão cada vez mais instáveis. Os britânicos trouxeram à tona uma velha questão, o ideal de unidade e integração entre os homens é mais uma questão intelectual ou acadêmica, do que uma efetividade para o imaginário dos povos.
Basta perceber o crescimento estrondoso de antigos sentimentos nacionalistas e xenófobos há tempos abafados do continente europeu, por um discurso de tolerância e amizade que era apenas e tão somente discurso. Foi só aparecer um momento concreto para se efetivar o espírito humanitário, o problema dos refugiados das guerras, que o mesmo continente cheio de lições de morais a dar ao mundo, se mostrou frágil, tímido, para não dizer medíocre.
Particularmente torço para que ambas as partes se saiam bem, e que o resto do mundo não tenha que pagar um preço muito alto por essa deliberação britânica. Mas, temo que não apenas os europeus e britânicos perderam com essa ruptura, mas o mundo, principalmente a ideia de comunidade humana e uma vida em comum entre os povos.
Espero apenas que isso não seja o primeiro passo para a dissolução completa da comunidade europeia que tem inspirado o mundo na busca de uma convivência comum entre povos diferentes. Espero também que não comece a aflorar os sentimentos primitivos de um velho nacionalismo e da xenofobia, que já deveriam estar extintos do espírito da atualidade, principalmente numa Europa que já enfrentou uma guerra cruel por essas questões.
Roberto de Barros Freire é professor na UFMT - rdefreire@uol.com.br
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Edmar 05/07/2016
O autor parte da perspectiva de que a Comunidade Européia funcionava como uma comunidade e de que qualquer distensão implica em derrocada. Ora, a história é repleta de exemplos de casos em que as rupturas propiciaram expressões superiores de organização social, politica e de êxito econômico. Na história, não existem certezas. Os Estados Unidos não seriam nada se não tivessem irrompido contra o "Reino Unido" e sequer a imperfeita democracia que ele instaurou existiria como modelo que se procura ainda hoje apresentar como referência para a organização política dos países no mundo. A opção de pouco mais de metade dos eleitores do Reino Unido também não constitui ainda uma verdade imutável, sendo objeto de iniciativas internas de reversão. O que se impõe pensar, a partir de seu resultado, é se a estrutura central de normatizações e deliberações políticas simbolizada por Genebra, e se os encaminhamentos econômicos capitaneados pelas políticas formuladas em Berlim e pelo BCE - Banco Central Europeu estão representando fatores de agregação ou de dispersão. Os riscos de exclusão da Grécia do uso do euro, por exemplo, atestaram não o sentido de acolhimento de todos os cidadãos europeus em condições igualitárias, mas a supremacia dos oriundos dos países mais ricos contra os mais pobres, invertendo a lógica de uma comunidade e reprisando o sentido de colonização que desde os anos 70 do século passado se considerava superado, desde os movimentos de descolonização das nações africanas ou as lutas no extremo oriente, como no Cambodja e no Vietnã. O movimento inglês obriga a Comunidade Européia a pensar sobre a necessidade de refundar-se no sentido de eliminar as opressões intracomunitárias e abrir-se para uma democracia em que os sujeitos sejam os cidadãos, iguais entre si, independentemente do país de proveniência.
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