De Cuiabá a Jauru, ataques a imagens de Nossa Senhora acendem alerta sobre intolerância religiosa
Casos registrados em Mato Grosso estão entre os episódios citados pelo ministro Flávio Dino, ao determinar investigação da PF
Os recentes ataques a imagens de Nossa Senhora em municípios de Mato Grosso, incluindo Cuiabá e Jauru, reacenderam o debate sobre a intolerância religiosa e o respeito aos símbolos da fé católica. Em meio à repercussão dos episódios e às discussões envolvendo a religião no cenário político nacional, o #rdnews ouviu especialistas para entender a importância da santa para os fiéis e as implicações das manifestações contrárias à devoção católica.
Paróquia Sagrado Coração de Jesus
Encontrada nas águas do Rio Paraíba do Sul, em São Paulo, num dia comum de 1717, a imagem de Nossa Senhora Aparecida se tornou, daquela data em diante, um dos maiores símbolos de fé e devoção da população brasileira. Em um país colonizado por portugueses e com uma população catequizada desde o primeiro instante, mesmo em 2026, mais de 500 anos depois, o catolicismo segue como uma das religiões mais professadas. Ao #rdnews, o administrador da Arquidiocese de Cuiabá, padre Deusdédit Monge de Almeida, explica de onde surge a importância de Nossa Senhora para toda a Igreja Católica.
"Nossa Senhora é aquela que antecipa as necessidades do seu povo, as dificuldades. E pedido de mãe o filho não recusa. O primeiro milagre aconteceu com a intervenção da mãe. Essa presença de Maria é a devoção do povo. Maria é aquela que vai ao encontro das necessidades do povo e leva o filho, que é o autor da graça. Nossa Senhora é a corredentora, a cooperadora do seu filho na obra da redenção. Desde o início da obra de Jesus até o fim, ela estava ao lado do filho", conta o líder religioso.
A atualidade, no entanto, tem se desenrolado em um cenário tumultuado para a maior vertente do cristianismo no mundo. Entre ataques a imagens em igrejas, destruição de patrimônio cultural e um discurso político acalorado envolvendo os principais nomes que podem assumir a presidência do país, o simbolismo da fé católica se encontra em meio a um debate denso.
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Não haverá paz no mundo se não existir paz entre as religiões, e não haverá paz entre as religiões se não existir diálogo.
Em uma discussão que começa no questionamento de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil e escala para atos de vandalismo com imagens da santa, é possível notar um comportamento crescente da cultura de intolerância no país. É como analisa a socióloga Olga Lustosa.
"A questão da intransigência é uma coisa muito séria. A gente entrou num debate político raivoso, que prega isso, que faz uma defesa do ódio, dessa intolerância religiosa. Isso tudo é ruim. Agora, quem é intolerante religioso, obviamente, vai ser uma pessoa intolerante nas questões também políticas. A intransigência está ali, enraizada. A pessoa é intransigente com relação ao outro", avalia.
O padre Deusdédit explica que, para os fiéis, a imagem de Maria como mãe e corredentora simboliza um caminho até o Salvador. Sobre o momento conturbado, o administrador da Arquidiocese reforça que o caminho é o exercício do respeito, por meio do debate.
"Não haverá paz no mundo se não existir paz entre as religiões, e não haverá paz entre as religiões se não existir diálogo. É preciso respeitar os símbolos sagrados de todas as crenças. A imagem de Nossa Senhora Aparecida é um símbolo sagrado do catolicismo. Como nós temos apreço, respeito e consideração por todas as crenças, vamos exigir também respeito", afirma.
Casos recentes de intolerância e investigação instaurada
Uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, deixada aos pés da Cruz do Chilão, no bairro Santa Helena, em Cuiabá, teve a cabeça arrancada na noite do dia 25 de setembro. A Arquidiocese de Cuiabá manifestou repúdio ao ataque perpetrado contra a estátua. A entidade religiosa cobrou a apuração do caso por parte das autoridades, com a identificação e a responsabilização dos responsáveis pelo ato.
Em entrevista ao #rdnews, o padre Deusdédit Monge relembrou ainda o caso da destruição de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida com um machado, ocorrida em março deste ano, em Jauru. O líder religioso ressaltou o que consta na Constituição Federal de 1988 sobre o Estado laico brasileiro.
"O capítulo V da Constituição, inciso VI, é claramente: toda intolerância religiosa é crime. O Estado laico tem que respeitar todas as crenças e favorecer que todas elas possam viver em harmonia, respeitando suas liturgias, rituais, costumes e seus símbolos sagrados", pontuou.
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal investigue a possível existência de uma “onda de ataques nos últimos meses contra imagens religiosas” no Brasil. Na decisão, Dino cita dois casos registrados em Mato Grosso.