Cuiabá, 27/09/2026

Ilha da Banana supera abandono e deve ser transformada em ponto turístico junto à Igreja do Rosário

Demolição e revitalização tiveram início neste mês; moradores e comerciantes do entorno avaliam os impactos e cobram agilidade nas obras

Rodinei Crescêncio/Rdnews

O Largo do Rosário, localizado no coração de Cuiabá e que possui uma parte popularmente conhecida como “Ilha da Banana”, deixou de ser um local abandonado e passa agora por um processo de redestinação. O projeto prevê a transformação do espaço em um ponto turístico integrado à tradicional Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, contando inclusive com a preservação de uma enorme figueira enraizada de um antigo casarão familiar.

Segundo a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT), a Ilha da Banana se tornará uma grande praça contígua à igreja. Sendo assim, o curso de descida da Avenida Coronel Escolástico, que hoje separa os dois espaços, será desviado para acompanhar o traçado de subida rente ao Morro da Luz.

Reprodução/Sinfra-MT

 Reprodução do projeto idealizado pela Sinfra-MT

No dia 10 de setembro, os imóveis desapropriados remanescentes começaram a ser demolidos pela empresa Habit Construções e Serviços Eireli, vencedora da licitação para a limpeza e regularização do terreno. A empreiteira foi contratada pelo valor de R$ 731 mil e ainda tem pouco mais de 40 dias para concluir os trabalhos.

O projeto detalhado ainda deve ser publicado pela Sinfra. No entanto, o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), que está a par de alguns pontos da proposta, adiantou em coletiva de imprensa na última quarta-feira (23) que a obra será “paisagística e urbanística com a finalidade turística”.

“Ou seja, vão requalificar aquele espaço, melhorando a urbanidade com a Igreja do Rosário. O local terá atrativos arquitetônicos”, disse o prefeito, que também confirmou a apuração do #rdnews de que a grande figueira cravada aproximadamente no centro da Ilha da Banana será mantida e fará parte da arquitetura da nova praça.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

A expectativa de muitos é que a árvore enraizada no muro se torne um memorial em homenagem às famílias que moraram no Largo do Rosário por décadas, testemunharam a transformação da Capital nos séculos XX e XXI e ajudaram a moldar a antiga cuiabania. O teor do memorial, no entanto, não foi confirmado pela Sinfra.

Imbróglio de mais de uma década

As residências localizadas na área, composta por aproximadamente 5,9 mil metros quadrados, começaram a ser desapropriadas em 2012 para a implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). O novo modal foi proposto com o objetivo de melhorar a mobilidade urbana de Cuiabá, como parte da corrida de adequação estrutural com vistas à realização dos jogos da Copa do Mundo de 2014.

O projeto do VLT previa que o Largo do Rosário se tornaria a “Estação Morro da Luz”, ponto final da Linha 2, que interligaria o Centro da cidade à região do Coxipó. No entanto, escândalos de desvios de verbas se sucederam, resultando no atraso da implantação do modal.

Em 2020, o Governo do Estado reconfigurou o projeto e optou pela implantação do sistema de ônibus de trânsito rápido, conhecido pela sigla em inglês BRT (Bus Rapid Transit). As obras ficaram sob a responsabilidade do Consórcio Construtor BRT Cuiabá e deixaram de incluir o Largo do Rosário como parte direta do modal, integrando-o como uma melhoria complementar dentro do pacote de intervenções.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Com a rescisão do contrato com o consórcio em 2025, em razão da demora para a conclusão das obras, a readequação da Ilha da Banana está agora sendo feita de maneira independente. Segundo a Sinfra, o objetivo ainda é construir uma estação do modal na região do Morro da Luz, mas não necessariamente no território do Largo do Rosário.

As demolições começaram na primeira metade da década de 2010, mas, com o atraso na implantação do VLT e, posteriormente, do BRT, o espaço permaneceu em estado de abandono, com mato crescendo entre as estruturas remanescentes, acúmulo de lixo e a utilização do local como ponto para comercialização e consumo de drogas, além de prostituição e vandalismo.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

 Imagem da Ilha da Banana feita no mês de agosto, à esquerda, mostra como a área se encontrava antes do início do projeto de demolição e regularização do espaço, em setembro deste ano (à direita)

Opiniões de quem vivencia

José Carlos da Conceição, de 80 anos, e a irmã são os únicos moradores que mantiveram a residência, herança de uma família de sete irmãos, no Largo do Rosário. Na casa em que mora há quase 70 anos, localizada em um dos extremos da Ilha da Banana, o idoso também administra uma minidistribuidora.

Em entrevista ao #rdnews, ele afirmou que ele e os outros quatro irmãos ainda vivos não concordaram com o valor proposto pelo Estado à época do projeto do VLT e entraram na Justiça para manter a propriedade. Desde então, eles aguardam uma decisão definitiva.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

 José Carlos vê de forma positiva o projeto iniciado pela Sinfra-MT para implantação da praça do Largo do Rosário

Ele elogiou o projeto de implantação da praça, mas reforçou o desejo de se manter no imóvel e revelou insegurança quanto à manutenção do patrimônio. “É uma coisa bonita. Agora, tem que respeitar quem está aqui. Eu tenho um irmão que é inventariado. Está [avaliado em] R$ 80 mil hoje. O que eu vou fazer com R$ 80 mil? Eu não compro um terreno. Pra sair daqui, não tem como comprar em outro lugar”, declarou.

Segundo José Carlos, o abandono dos demais imóveis da Ilha da Banana causou insegurança por vários anos. Ele relatou que já teve a casa invadida e furtada diversas vezes por criminosos que se aproveitavam da vulnerabilidade do local. No entanto, de acordo com o idoso, após a pandemia de Covid-19, a criminalidade na região diminuiu por alguma razão que não soube mencionar.

Já o comerciante e filho de libaneses Armando Omais, de 64 anos, que mantém uma loja de artigos esportivos na esquina na Avenida Coronel Escolástico, ao lado da Ilha da Banana, afirma que aprova o projeto atual de construção da praça e apontou o benefício coletivo da medida.

“Eu espero que tudo que estiverem tentando fazer seja para o bem da comunidade. Como faço parte dela, tudo o que fizerem será para o melhor: vai ser positivo para o comércio, para o pedestre, para todo mundo [...]. Espero que o que decidirem seja para o bem de todo mundo e rápido”, afirmou. 

Ele também defendeu a ampliação do comércio na região e afirmou esperar a instalação de quiosques na praça. “Espero que tenha pelo menos um centro comercial. Ter um vizinho aqui com uma lanchonete, banca de revistas, algo assim. Alguma atração interessante para o povo, que atraia as pessoas”, concluiu.