Cuiabá, 22/10/2026

A mulher que eu procurei por tantos anos, estava em mim

Annie Souza/Rdnews

 

Há uma pergunta que nem sempre é feita em voz alta no consultório, mas atravessa muitas conversas: “Quando foi que eu deixei de me olhar?”

Ela pode surgir durante uma consulta sobre uma queixa íntima, na conversa sobre mudanças no corpo ou quando uma mulher tenta explicar por que já não sente vontade de se cuidar. Às vezes, o que mais a incomoda é difícil de nomear. Ela continua trabalhando, cuidando da família, resolvendo problemas. Mas sente falta de si.

Como ginecologista, aprendi a escutar também essa falta.

Voltar a gostar do corpo não precisa significar recuperar o corpo dos 20 anos. Pode significar conhecer o corpo de agora, cuidar do que causa sofrimento e deixar de medir o próprio valor por uma imagem antiga

Depois dos 40, percebo que a busca de muitas mulheres ganha outro sentido. O desejo de emagrecer, cuidar da pele ou tratar um desconforto pode vir acompanhado de perguntas mais profundas: “Por que eu não me reconheço mais?”, “Será que posso voltar a sentir desejo?”, “Vou conseguir gostar do meu corpo de novo?”

Essas perguntas merecem espaço. Não devem ser tratadas como vaidade, exagero ou algo que uma mulher precisa aceitar em silêncio porque a idade chegou.

Ao longo da vida, muitas de nós aprendemos a prestar atenção no que os outros precisam. Sabemos quando um filho não está bem, quando alguém da família precisa de ajuda, quando o trabalho exige mais. Com a própria vida, porém, vamos negociando: o descanso fica para depois, a consulta é adiada, o prazer perde espaço. Até que essa ausência de cuidado começa a parecer normal.

Nem sempre existe um momento exato em que uma mulher se afasta de si. Esse afastamento pode acontecer aos poucos, entre tarefas que nunca terminam e escolhas nas quais ela quase nunca se inclui.

Por isso, quando uma paciente me diz que quer mudar o corpo, procuro compreender o que aquela mudança significa para ela. Existe um desconforto? Uma insegurança? Uma expectativa construída pelo olhar de outra pessoa? Ou o desejo de voltar a se sentir à vontade na própria intimidade?

A resposta faz diferença. Cuidar exige conhecer a mulher que está diante de mim, além da queixa que a trouxe.

O Lift HD Íntimo® pode fazer parte dessa conversa, quando há indicação e uma decisão individualizada. Mas um procedimento não pode carregar a promessa de resolver tudo o que uma mulher sente em relação a si mesma. Há questões que precisam de tratamento, outras de escuta, e muitas precisam de tempo e de mudanças na maneira como ela se cuida.

Às vezes, a transformação física é o motivo que a leva ao consultório. Durante a conversa, ela percebe que também quer recuperar a segurança para viver a intimidade, falar sobre seus desejos e fazer escolhas sem tanta culpa.

Voltar a gostar do corpo não precisa significar recuperar o corpo dos 20 anos. Pode significar conhecer o corpo de agora, cuidar do que causa sofrimento e deixar de medir o próprio valor por uma imagem antiga.

Também não existe uma única maneira de se sentir mulher. O desejo, a aparência e a aprovação de alguém não definem quem somos. Cada mulher precisa ter liberdade para descobrir o que lhe traz bem-estar, sem receber mais uma obrigação de ser jovem, bonita ou desejável o tempo inteiro.

Talvez a pergunta mais reveladora seja esta: “Eu quero mudar meu corpo ou quero voltar a habitá-lo?”

Nem sempre a resposta vem de imediato. Mas fazer essa pergunta já abre espaço para uma escolha mais consciente.

Talvez a maior transformação feminina depois dos 40 não seja mudar quem você é. Seja finalmente voltar para si. Reconhecer vontades que foram adiadas, procurar ajuda para o que incomoda e reservar um lugar na própria vida.

Tenho 18 anos de medicina e milhares de mulheres atendidas. E uma coisa aprendi: muitas mulheres não chegam até mim procurando um procedimento. Elas chegam procurando por elas mesmas.

Bruna Ghetti é ginecologista, especialista em mulheres 40+, e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras