Após os 40, a saúde da mulher não pode ficar para depois
Annie Souza/Rdnews
Há mulheres que chegam aos 40 acostumadas a dar conta de tudo. Trabalho, filhos, relacionamentos, casa. Conhecem os compromissos da família, organizam a rotina de outras pessoas, mas adiam a própria consulta. Quando o sono piora, o cansaço se acumula ou o desejo diminui, encontram uma justificativa rápida: deve ser a idade.
Essa resposta pode encerrar uma conversa que precisava começar.
Ao escrever o livro Quarentei em parceria com Cátia Damasceno, encontrei mais uma oportunidade de conversar com as mulheres sobre essa etapa da vida. Chegar aos 40 pode despertar perguntas sobre o corpo, os desejos e o futuro. Entre elas, uma merece atenção: depois de tantos anos cuidando de outras pessoas, que espaço reservamos para nós mesmas?
A mulher que passou tantos anos cuidando de tudo também precisa encontrar lugar na própria agenda
Reconhecer as próprias necessidades nem sempre é simples. Muitas mulheres aprenderam a seguir em frente apesar do desconforto. Dormem mal, trabalham cansadas, convivem com dor nas relações sexuais e deixam de fazer coisas de que gostam. Aos poucos, passam a tratar essas dificuldades como parte obrigatória do envelhecimento. Mas, não precisa ser assim.
Nos anos que antecedem a menopausa, período conhecido como perimenopausa, podem surgir alterações no ciclo menstrual, no sono, no humor e na vida sexual. Algumas mulheres percebem dificuldade de concentração. Outras estranham mudanças no corpo ou sentem falta de uma disposição que antes parecia natural.
Essas experiências variam. Não existe um momento em que todas começam a sentir as mesmas coisas, nem uma forma única de atravessar essa fase. Também não podemos colocar qualquer sintoma na conta dos hormônios. Cansaço persistente, insônia e mudanças de humor merecem avaliação para que suas possíveis causas sejam investigadas.
Uma consulta precisa abrir espaço para essa escuta. Saber se a mulher acorda várias vezes durante a noite, sente desconforto íntimo ou deixou de se exercitar por falta de energia ajuda a compreender como ela está vivendo. Os exames fazem parte da avaliação, mas não substituem essa conversa.
É no cotidiano que o tema da longevidade ganha sentido. Falar nos anos que teremos pela frente exige olhar para a maneira como estamos atravessando os dias de agora. Conseguimos nos movimentar com disposição? Temos força para as atividades diárias? Há espaço para descanso, prazer e convivência?
Preservar a massa muscular, cuidar da alimentação, praticar atividade física e buscar um sono melhor fazem parte desse caminho. O acompanhamento também deve considerar a saúde cardiovascular, metabólica, emocional e sexual, conforme as necessidades de cada mulher.
Mas as orientações precisam caber na vida real. Quem trabalha o dia inteiro e cuida da família precisa de um plano possível, construído em conjunto e ajustado ao longo do acompanhamento. Uma lista de recomendações que desconsidera essa rotina pode se transformar apenas em mais uma cobrança.
Em algumas situações, tratamentos médicos serão necessários. A terapia hormonal pode fazer parte do cuidado quando houver indicação, após avaliação individual de benefícios, riscos e contraindicações. A decisão deve considerar a história de saúde, os sintomas e as preferências de cada paciente.
Também há questões que pedem uma conversa franca: a sobrecarga, os conflitos nos relacionamentos, a falta de tempo e a dificuldade de pedir ajuda. O cuidado perde alcance quando ignora as condições em que aquela mulher vive.
Essa é a reflexão que quero ampliar ao trazer para a conversa o Quarentei, escrito com Cátia Damasceno. A mulher precisa encontrar espaço para perguntar, compreender suas opções e falar do que a incomoda sem receio de parecer exagerada.
Aos 40 e nas décadas seguintes, há projetos a construir, relações a descobrir e escolhas a fazer. Cuidar da saúde ajuda a preservar as condições para viver essas possibilidades com autonomia.
A mulher que passou tantos anos cuidando de tudo também precisa encontrar lugar na própria agenda. Sua consulta, seu descanso e seu bem-estar não podem depender de um dia em que finalmente não haja mais nada para resolver.
Bruna Ghetti é ginecologista, especialista em mulheres 40+, e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras