Libido feminina: o hormônio não é o único responsável
Annie Souza/Rdnews
Outro dia, numa consulta, uma paciente de 47 anos me disse uma frase que escuto com frequência: "Doutora, eu amo meu marido, mas parece que desligaram alguma coisa dentro de mim." Ela não estava triste, não havia crise no casamento, e os exames, em geral, vinham normais. Mesmo assim, sobrava aquele incômodo silencioso de quem sente ter perdido um pedaço de si.
Essa cena se repete quase todos os dias no consultório, com pequenas variações. E é por isso que considero a libido feminina um dos temas mais mal compreendidos da saúde da mulher.
Durante anos, aprendemos, e ensinamos, que o desejo sexual feminino dependia quase só dos hormônios. Caía a libido? Bastava procurar uma alteração hormonal. Os hormônios importam, sim, sobretudo na transição para a menopausa, mas a realidade é bem mais complexa do que isso.
Aos 40 anos, muitas mulheres vivem o auge da carreira ao mesmo tempo em que lidam com filhos adolescentes, pais envelhecendo e uma rotina cada vez mais puxada. São mulheres competentes, produtivas, fortes, mas também cansadas. E o cansaço pesa direto sobre o desejo
A sexualidade da mulher não se resume ao que acontece nos ovários. Ela é moldada também pela mente, pelas relações e pela rotina.
Aos 40 anos, muitas mulheres vivem o auge da carreira ao mesmo tempo em que lidam com filhos adolescentes, pais envelhecendo e uma rotina cada vez mais puxada. São mulheres competentes, produtivas, fortes, mas também cansadas. E o cansaço pesa direto sobre o desejo.
O cérebro é o maior órgão sexual do corpo. Quando ele está tomado por prazos, contas, preocupações e sobrecarga emocional, sobra pouco espaço para o prazer. O corpo entra em modo sobrevivência, e a libido costuma ser uma das primeiras coisas a sair de cena.
Some-se a isso o próprio envelhecimento: a queda do estrogênio pode trazer ressecamento vaginal, desconforto nas relações, mudanças no sono e no humor. Em alguns casos, a queda da testosterona também entra na conta. Mas reduzir tudo isso a uma questão hormonal é simplificar demais algo profundamente humano.
Não é raro que a mulher que perdeu o desejo também tenha perdido o tempo para si. Há anos sem exercício regular, dormindo mal, vivendo sob estresse constante, acostumada a se colocar em último lugar na própria lista de prioridades.
Tem ainda um ponto que quase nunca aparece nessa conversa: a qualidade da relação. O desejo feminino costuma estar ligado à intimidade emocional, sentir-se admirada, respeitada, acolhida, desejada. Isso não é romantismo; é biologia e comportamento andando juntos.
A boa notícia é que a libido não desaparece simplesmente com a idade. Ela muda de forma, de intensidade, de sentido ao longo da vida. Inclusive, muitas mulheres relatam viver a melhor fase da sexualidade depois dos 40, quando conhecem melhor o próprio corpo e se sentem mais seguras, menos presas a expectativas de fora.
Como ginecologista, acho que já passou da hora de abandonar a ideia de que existe uma fórmula única para o desejo feminino. Cada mulher tem sua história, seus afetos, suas marcas, suas transformações.
Quando uma paciente chega dizendo que perdeu a libido, meu primeiro movimento não é olhar só para os hormônios, é olhar para a mulher inteira.
No fim das contas, o desejo não nasce apenas dos ovários. Ele nasce também do descanso, da saúde mental, do vínculo afetivo, da autoestima, e da permissão que a mulher se dá para voltar a ocupar o centro da própria vida.
Bruna Ghetti é ginecologista, especialista em mulheres 40+, e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras.