Nem sempre um problema de saúde começa com um sintoma intenso. Em ginecologia, muitas das mudanças mais importantes acontecem devagar. Tão devagar que a mulher se adapta a elas sem perceber.
É por isso que tantas pacientes chegam ao consultório achando que "está tudo normal", quando na verdade convivem há anos com alterações que comprometem sua qualidade de vida.
A libido diminuiu. O toque deixou de provocar a mesma sensação. A relação sexual passou a exigir esforço. O ressecamento apareceu. O desconforto virou rotina. Como nada disso aconteceu de um dia para o outro, a tendência é atribuir essas mudanças ao cansaço, à idade ou à correria da vida.
Esse é um dos maiores desafios da saúde feminina: o corpo muda aos poucos, e a mulher aprende a viver de um jeito diferente sem se perguntar se aquilo é mesmo parte do envelhecimento ou se existe uma causa que pode ser tratada.
Esse é um dos maiores desafios da saúde feminina: o corpo muda aos poucos, e a mulher aprende a viver de um jeito diferente sem se perguntar se aquilo é mesmo parte do envelhecimento ou se existe uma causa que pode ser tratada
Vejo isso com frequência. Muitas pacientes não procuram ajuda porque perderam o desejo. Elas marcam consulta por infecções recorrentes, dor durante a relação, alterações menstruais ou sintomas da menopausa. Só durante a conversa percebem que também deixaram de sentir vontade, prazer ou espontaneidade na vida sexual.
Não é raro ouvirem de amigas que isso acontece com todas as mulheres. Algumas acreditam que o problema está nelas. Outras pensam que simplesmente deixaram de gostar de sexo.
Na maioria das vezes a realidade é bem diferente. Os hormônios participam diretamente da resposta sexual feminina. A redução do estrogênio interfere na lubrificação e na sensibilidade dos tecidos. Alterações na testosterona também podem reduzir a libido. Quando esse equilíbrio se perde, o corpo responde.
Em algumas mulheres o desconforto se instala de forma tão progressiva que a intimidade passa a ser evitada sem que elas percebam. Não por falta de afeto ou de interesse pelo parceiro, mas porque o cérebro começa a associar aquele momento ao incômodo. Esse mecanismo é conhecido na medicina: faz parte de como o organismo aprende a evitar situações desagradáveis.
O problema é que, depois de um tempo, essa resposta parece virar personalidade. A mulher passa a acreditar que sempre foi assim, ou que não existe solução.
Nem toda queda da libido é hormonal. Questões emocionais, uso de medicamentos, doenças crônicas, sobrecarga mental e problemas no relacionamento também influenciam. Por isso nenhuma mulher deveria aceitar respostas prontas ou receitas iguais para todas. Cada história merece uma investigação cuidadosa.
A sexualidade não é um luxo nem um detalhe da vida adulta. Ela faz parte da saúde física, emocional e da forma como muitas mulheres se relacionam consigo mesmas.
Aceitar que tudo isso desapareça só porque os anos passaram é abrir mão de uma parte importante da qualidade de vida.
Quando uma paciente diz que já não lembra como era sentir desejo de forma espontânea, isso não me faz pensar que ela envelheceu. Me faz pensar que talvez ela tenha convivido tempo demais com um problema que nunca foi investigado.
E esse é um cuidado que nenhuma mulher deveria adiar.
Bruna Ghetti é ginecologista, especialista em mulheres 40+, e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras







