Existe uma pergunta que escuto com frequência no consultório, quase sempre acompanhada de um sorriso constrangido: "Doutora, isso acontece com toda mulher, não acontece?"
A resposta costuma surpreender. Perder urina não é normal. Não é frescura. E não é algo com que a mulher precise aprender a conviver.
Talvez esse seja um dos maiores equívocos na saúde feminina. A incontinência urinária é extremamente comum, mas comum não é o mesmo que inevitável. Uma em cada três mulheres apresenta algum grau de perda urinária ao longo da vida, e boa parte delas sofre em silêncio, convicta de que o problema faz parte do envelhecimento ou envergonhada demais para falar sobre ele, às vezes até com o próprio médico.
O que chama atenção é que a incontinência raramente fica restrita à bexiga. Ela reorganiza a vida de quem convive com ela. Há mulheres que abandonam a academia com medo de perder urina ao correr ou levantar peso. Outras deixam de viajar porque precisam calcular a distância até o próximo banheiro. Algumas se afastam da vida social e da intimidade, porque o constrangimento vai ocupando espaços que antes eram da espontaneidade. A perda mais dolorosa, no fim das contas, não é a urinária: é a sensação de não ter mais controle sobre o próprio corpo.
Ela reorganiza a vida de quem convive com ela. Há mulheres que abandonam a academia com medo de perder urina ao correr ou levantar peso. Outras deixam de viajar porque precisam calcular a distância até o próximo banheiro. Algumas se afastam da vida social e da intimidade, porque o constrangimento vai ocupando espaços que antes eram da espontaneidade
Entender o tipo de incontinência é o ponto de partida do tratamento. A mais conhecida é a de esforço, que aparece ao tossir, espirrar, rir ou fazer qualquer movimento que aumente a pressão abdominal. Há também a de urgência, com aquela vontade súbita e intensa de urinar, muitas vezes sem tempo de chegar ao banheiro. E existe a forma mista, que combina as duas. O diagnóstico correto importa porque cada tipo responde de forma diferente às intervenções.
As causas raramente são isoladas. A queda hormonal da menopausa altera a qualidade dos tecidos da região pélvica. As gestações e os partos podem enfraquecer o assoalho pélvico. O excesso de peso aumenta a pressão sobre essa musculatura. A constipação crônica e os esforços repetitivos do cotidiano também contribuem. Nenhum desses fatores, porém, transforma o problema em algo sem solução.
A medicina dispõe hoje de recursos modernos e eficazes para tratar a incontinência. O laser íntimo de CO₂ estimula a produção de colágeno e melhora o suporte dos tecidos da região pélvica. O Emsella promove milhares de contrações do assoalho pélvico em poucos minutos, fortalecendo uma musculatura que muitas mulheres não conseguem ativar adequadamente com exercícios convencionais. Essas tecnologias funcionam melhor quando integradas a uma avaliação clínica cuidadosa, que considere o histórico ginecológico, hormonal e funcional de cada mulher.
Tratando a causa, devolvemos mais do que o controle urinário. A mulher volta a praticar exercício sem ansiedade, retoma viagens, recupera a vida sexual e ri sem calcular as consequências.
Como ginecologista, vejo esse processo com frequência e continuo convicta de que nenhuma mulher deveria aceitar limitações só porque alguém, em algum momento, disse que "é assim mesmo depois de certa idade". A incontinência urinária tem tratamento, e a mudança começa quando a mulher decide parar de contornar o problema e buscar uma avaliação.
Bruna Ghetti é ginecologista, especialista em mulheres 40+, e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras







