Cuiabá, 22/10/2026

Quando a memória falha, a mulher precisa ser ouvida

Annie Souza/Rdnews

 

Há um medo que chega de mansinho depois dos 40. A palavra some no meio da frase. Um compromisso passa batido. A concentração já não acompanha o ritmo do trabalho. A mulher percebe que algo mudou e se pergunta: “Por que estou assim?”

Para quem viu a mãe ou a avó perder a memória por causa do Alzheimer, essa pergunta vem com um peso ainda maior. Por isso, quando uma mulher diz que anda mais distraída, que não consegue pensar com a mesma clareza, precisamos escutar com atenção. Antes de responder que “é da idade”, “é estresse” ou “são os hormônios”, é preciso entender o que está acontecendo com ela.

A menopausa também passa pelo cérebro. As ondas de calor e as mudanças na menstruação são mais conhecidas, mas essa transição pode trazer dificuldade de concentração, sono alterado e aquela sensação de raciocínio mais lento. Muitas mulheres chamam isso de névoa mental: sabem o que querem dizer, mas parecem precisar de um esforço extra para encontrar as palavras ou organizar o pensamento.

O estrogênio participa do funcionamento do cérebro, inclusive da comunicação entre os neurônios. As oscilações desse hormônio na transição para a menopausa ajudam a explicar por que a ciência tem olhado com mais atenção para a saúde cerebral feminina. Pesquisas da neurocientista Lisa Mosconi, da Weill Cornell Medicine, têm contribuído para entender essas mudanças e seus possíveis efeitos.

O estrogênio participa do funcionamento do cérebro, inclusive da comunicação entre os neurônios. As oscilações desse hormônio na transição para a menopausa ajudam a explicar por que a ciência tem olhado com mais atenção para a saúde cerebral feminina

Mas reconhecer essa relação é diferente de dizer que a menopausa provoca Alzheimer. Essa conclusão não pode ser feita. A doença envolve muitos fatores, e os estudos ainda buscam esclarecer qual é o peso das alterações hormonais nessa história.

Quase dois terços das pessoas que vivem com Alzheimer nos Estados Unidos são mulheres. A maior longevidade feminina ajuda a explicar esse número, mas não parece explicar tudo. Genética e outras características biológicas também estão entre os fatores investigados. O dado merece atenção, sem se transformar em uma previsão sobre o futuro de cada mulher.

Também é preciso olhar para o jeito como ela está vivendo. Uma noite interrompida várias vezes pelo calor, meses de ansiedade e uma rotina sem descanso podem afetar a atenção e a memória. Quem dorme mal pode ter dificuldade para registrar uma informação e, depois, sentir que a esqueceu. Investigar essas condições também é cuidar.

Não devemos, portanto, tratar cada lapso como sinal de uma doença grave. Mas também não podemos responder “isso é da menopausa” e encerrar a conversa. Se os esquecimentos estão piorando, atrapalham atividades habituais ou são percebidos por pessoas próximas, precisam ser avaliados. Mesmo quando não há suspeita de demência, o sofrimento e o impacto na rotina merecem tratamento.

Nesse debate, a terapia hormonal exige a mesma clareza. Ela pode ser indicada para aliviar sintomas da menopausa, conforme a história de saúde, os benefícios e os riscos de cada mulher. Não deve, porém, ser oferecida com a promessa de prevenir Alzheimer. Até o momento, as evidências não sustentam essa indicação. Melhorar o sono e controlar as ondas de calor pode fazer diferença no dia a dia, mas isso não significa proteção comprovada contra a doença.

Como ginecologista dedicada à saúde da mulher depois dos 40, entendo que falar de longevidade é perguntar como ela deseja viver os próximos anos. É considerar sua autonomia, sua disposição para trabalhar, aprender, manter relações e fazer escolhas. A memória faz parte disso, assim como o sono, o humor e a saúde física.

Esse cuidado se constrói com acompanhamento e com medidas possíveis de manter: atividade física regular, controle da pressão arterial e do diabetes, atenção ao sono, alimentação adequada e convivência social. Nenhuma dessas medidas oferece garantia contra o Alzheimer, mas todas têm lugar no cuidado com a saúde ao longo do envelhecimento.

A mulher que diz “minha cabeça não está como antes” está contando algo que afeta sua confiança e sua vida. Ela precisa sair da consulta entendendo o que será investigado, quais cuidados podem ajudá-la e quando deve retornar. Ser ouvida é o começo. Receber orientação e acompanhamento é o que permite seguir com mais segurança.

Bruna Ghetti é ginecologista, especialista em mulheres 40+, e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras