O custo invisível da ansiedade nas lideranças
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Como temos essa ansiedade de querer controlar e dominar o tempo…
É aquele momento agradável que não queremos que passe.
É aquele resultado que queremos acelerar.
É a meta que não chega.
É o “meu Deus, até quando?”
E isso nos gera ansiedade. Inquietude. Pressa.
Tenho observado muito os movimentos ao meu redor — e vocês sabem, eu sempre digo: a vida conversa com a gente o tempo todo.
“Estamos o tempo inteiro antecipando o futuro ou remoendo o passado — e tão pouco experimentando, de fato, o agora”
E, particularmente nesta semana, o tempo tem sido um tema recorrente.
Um empresário dizendo que não esquece os erros do passado — que, se não fossem determinadas decisões, hoje poderiam estar muito melhor.
Uma liderança ansiosa no presente: “Está tudo travado. O que vamos fazer para liberar isso?”
Outro relato: “Está tudo bem… mas eu já estou ansioso. Parece que algo vai descarrilhar.”
Percebe?
É o passado que não foi digerido.
É o futuro que ainda nem chegou.
E o presente… ficando espremido entre os dois.
Como seria se, por um instante, a gente simplesmente parasse e dissesse:
“Pera aí. Deixa eu tocar o presente. O que é possível hoje? O que eu posso fazer bem feito hoje?”
É desafiador. Muito.
Estamos o tempo inteiro antecipando o futuro ou remoendo o passado — e tão pouco experimentando, de fato, o agora.
E aí me vem à memória algo simples, mas profundamente simbólico.
Recebemos uma gata de herança.
Uma tia distante faleceu — não se casou, não teve filhos. Os gatos eram seus filhos.
A mais brava veio para nossa casa.
No primeiro dia, até que ela se entregou bem.
Mas ela precisava do tempo dela.
E nós ali, ansiosos, querendo acelerar o processo. Forçar vínculo. Antecipar confiança.
Só que havia algo ali que precisava de tempo para ver, compreender, maturar… e só depois concluir.
E talvez seja isso que nos falte incluir com mais consciência: o fator tempo.
Não como desculpa.
Mas como variável real.
Tive um gestor que dizia que o tempo natural das coisas deveria ser incluído como indicador nas empresas.
Porque muitas vezes não consideramos o tempo como ele é — e cobramos resultados ignorando ciclos.
Será que não é justamente essa ansiedade que nos impede de celebrar o que já foi construído?
Será que não é essa aceleração constante que nos impede de experimentar o presente?
O que é correto?
É um grande questionamento.
Mas se existe algo que podemos refletir hoje é isto:
O tempo não é inimigo.
Ele é processo.
Ele é maturação.
Ele é variável estratégica.
Ele é também cuidado emocional.
Talvez aprender a incluir o tempo com mais consciência seja, paradoxalmente, o que acelera os resultados certos.
Ou, no mínimo, nos devolve paz enquanto eles chegam.
Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora; fundadora da Grandy Psicologia Empresarial e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras