Cuiabá, 17/09/2026

Por dentro, ninguém está tão bem quanto parece, nem quem chegou lá

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Tem um momento, em quase toda sessão que conduzo, em que a pessoa para de falar sobre a empresa, sobre a meta, sobre o que o outro fez ou deixou de fazer — e fica em silêncio. É ali que o processo de evolução emocional e autoconhecimento realmente começa.

Trabalho como psicóloga de executivos, e boa parte de quem chega até mim vem carregando a mesma expectativa: a de que vou entregar uma resposta pronta, um atalho, um estalar de dedos. Mas o que acontece, sessão após sessão, é outra coisa — é a pessoa se permitir, muitas vezes pela primeira vez em anos, olhar para dentro.

Porque a verdade é que ninguém muda o que ainda não conseguiu nomear. E nomear exige parar, tirar por um instante o peso que carrega nas costas — a mochila de cobranças, prazos, papéis que a vida te colocou para exercer — e perguntar: o que é meu, de fato, nessa história? O que eu sigo tocando no automático, fingindo que está tudo bem, quando por dentro já não está?

A verdade é que ninguém muda o que ainda não conseguiu nomear. E nomear exige parar, tirar por um instante o peso que carrega nas costas — a mochila de cobranças, prazos, papéis que a vida te colocou para exercer — e perguntar: o que é meu, de fato, nessa história? O que eu sigo tocando no automático, fingindo que está tudo bem, quando por dentro já não está?

Tive, recentemente, uma sessão com uma executiva em processo de sucessão dentro do próprio negócio da família. Ela chegou frustrada, esperando um gesto de reconhecimento do pai — fundador, figura maior daquela história toda — que, do jeito que ela imaginava, não vinha. E o que se abriu ali, aos poucos, não foi um caminho para convencer o pai a reconhecê-la. Foi outra pergunta, mais funda: e se esse reconhecimento que você tanto busca lá fora começasse a ser construído por você, primeiro, aqui dentro? Não é uma pergunta confortável. Mas é a pergunta que muda o jogo.

Isso é o que a terapia me permite oferecer — não uma fórmula, mas um espaço. Um espaço onde a pessoa se escuta com uma profundidade que a rotina não permite. Onde ela entende que aquele desconforto que insiste em voltar — o medo de se posicionar diante de quem manda, a dificuldade de comunicar algo difícil, a sensação de estar sempre correndo atrás de alguma coisa que nunca alcança — É um padrão. E padrão, uma vez nomeado, pode ser trabalhado e não ser uma sentença de vida.

Vejo isso com frequência nos meus atendimentos: alguém que chega dizendo "eu tenho medo de questionar meu chefe" e, semanas depois, entende que aquele medo não era sobre o chefe — era sobre uma crença antiga de que se posicionar significa desrespeitar. Alguém que chega travado diante de uma conversa difícil com a equipe e descobre que o que trava não é a conversa em si, mas o medo de decepcionar. Quando essas camadas se revelam, a pessoa não sai da sessão com uma resposta pronta. Sai com uma clareza — e a clareza, essa sim, é o que permite agir diferente.

E aqui vai algo que preciso dizer com honestidade: esse processo dói, às vezes. Encarar o espelho nunca foi confortável. Mas é uma dor que organiza, que devolve o chão, que tira a pessoa do lugar de vítima da própria história e a coloca de volta no centro dela — como protagonista, não como espectadora esperando que as coisas mudem sozinhas, ou que o outro mude primeiro.

É por isso que, quando alguém termina uma sessão comigo, gosto de perguntar: qual a reflexão que você leva daqui? E qual a pequena ação que você se permite tomar, a partir de agora? Porque terapia sem esse movimento de volta para a vida vira só um exercício de introspecção. E o que eu busco, na cadeira de psicóloga de executivos, é exatamente esse encontro entre o olhar interno e o passo concreto — entre o autoconhecimento e o resultado que ele é capaz de gerar, dentro e fora do trabalho.

E é isso, no fundo, que sustenta tudo o que falei até aqui: autoconhecimento não é luxo, é a base de qualquer liderança que se pretenda sólida. Quem se conhece, se lidera. E quem se lidera, lidera melhor os outros — com mais firmeza, mais clareza, menos reatividade. A autoconfiança que tanto buscamos lá fora, nas reuniões, nas negociações, nas decisões difíceis do mundo dos negócios, nasce primeiro aqui dentro, nesse encontro consigo mesmo. Não existe protagonismo sem essa liberdade interna. E não existe liberdade interna sem esse trabalho de se olhar de frente.

Cuidamos tanto da casca. Da agenda cheia, da imagem que projetamos, do resultado que se vê de fora. E, no meio disso tudo, esquecemos de olhar para o que realmente sustenta a felicidade: o encontro com o que sentimos, com o que evitamos, com aquilo que ainda não nos permitimos compreender sobre nós mesmos. Talvez o verdadeiro luxo, hoje, não seja ter todas as respostas prontas — seja ter a coragem de se perguntar. Porque toda escolha feita a partir do autoconhecimento carrega uma autoconfiança que nenhuma casca, por mais bem cuidada que seja, é capaz de sustentar sozinha. E é nesse encontro — quieto, íntimo, muitas vezes desconfortável — que a vida começa, de fato, a fazer sentido.

Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora, fundadora da Grandy Psicologia Empresarial, e escreve neste espaço quinzenalmente, às quintas-feiras