Cuiabá, 17/09/2026

A independência que não chove

Arte Rdnews

 

Na segunda-feira, 7 de setembro, enquanto o país celebrava a Independência, Mato Grosso recebeu outra espécie de alforria. Terminado o vazio sanitário, a soja voltou a ser permitida no solo. As plantadeiras estavam revisadas. As sementes, tratadas. O crédito, contratado.

Faltava a chuva.

Nas lavouras do Nortão, o produtor mais tecnificado do planeta repete hoje o gesto do lavrador da Antiguidade: olha para o céu. Tem drone, satélite, piloto automático e genética de ponta. Não tem nuvem.

No 7 de setembro, o estado foi liberado para plantar. Livre, ainda não está. A verdadeira independência do campo não virá de uma data no calendário. Virá do dia em que a chuva deixar de ser a única garantia

Para Sorriso, Sinop e Rondonópolis, a previsão até este domingo indica menos de seis milímetros. Nos primeiros dias do mês, as projeções apontavam máximas acima de 35 °C e chuva quase nula em boa parte do estado. Um solo assim bebe a primeira pancada e a devolve ao ar em poucas horas.

Plantar ou esperar? Eis o dilema de setembro. Quem planta cedo arrisca a semente e pode pagar duas vezes pelo replantio. Quem espera demais empurra a colheita e estreita a janela do milho e do algodão de segunda safra. Na temporada passada, 1,17 milhão de hectares de milho já foram semeados fora do período ideal. Não há escolha sem custo. Há apenas a aposta menos cara.

O pano de fundo tem nome: El Niño. Com base em projeções da agência americana NOAA, o Imea trabalha com 80% de chance de o fenômeno atuar justamente no estabelecimento das lavouras. Projeta 48,88 milhões de toneladas, cerca de 5% abaixo do recorde de 51,56 milhões. A memória é recente. Em 2023/24, sob o mesmo fenômeno, Mato Grosso registrou a menor produtividade média em uma década.

Mas a pergunta que o céu devolve não é agronômica. É econômica e, sobretudo, pública.

Uma safra menor não fica na porteira. Ela chega à transportadora que roda menos, ao armazém que recebe menos, à revenda que vende menos, ao município cujo orçamento acompanha o humor da lavoura. E chega num ano de margens apertadas: o custo de produção da soja no estado subiu para R$ 4.315 por hectare, com juros altos e crédito seletivo. Quando o risco climático encontra o risco financeiro, deixa de ser problema apenas do produtor.

É aqui que o debate precisa amadurecer. O Brasil dispõe de instrumentos como o zoneamento agrícola de risco climático e o seguro rural. Seguem, porém, tratados como coadjuvantes, lembrados no susto e esquecidos na bonança. Se o clima está mais instável, a política agrícola não pode continuar planejada como se todo ano fosse normal. Irrigação, reservação de água, pesquisa em cultivares tolerantes e seguro com cobertura real não são luxo. São infraestrutura.

Cuiabá nasceu, há mais de três séculos, do ouro arrancado da terra às margens do Coxipó. Hoje, a riqueza do estado depende da água que cai do alto. Mudou a fonte, não mudou a vulnerabilidade: seguimos à mercê do que não controlamos.

Na próxima segunda-feira, Sinop completa 52 anos. A cidade que simboliza a conquista do Nortão lembra que o desbravamento foi feito de coragem. A próxima fronteira talvez exija outra virtude: prudência.

No 7 de setembro, o estado foi liberado para plantar. Livre, ainda não está. A verdadeira independência do campo não virá de uma data no calendário. Virá do dia em que a chuva deixar de ser a única garantia.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia