Cuiabá, 26/09/2026

O mito da dependência

Arte Rdnews

 

Quinta-feira, 17 de setembro, à noite. Flamengo e Vasco, Palmeiras e Corinthians, rivais que mal concordam sobre a cor do céu, publicaram na mesma noite o mesmo texto. Para os signatários, a proibição traria risco de insolvência a várias agremiações. A palavra escolhida para resumir o cenário foi pesada: fim. O manifesto conjunto afirmava que proibir as bets equivaleria ao "fim do futebol brasileiro".

Poucas coisas unem a arquibancada brasileira. O dinheiro das apostas, aparentemente, é uma delas.

O governo elabora uma Medida Provisória para proibir os cassinos on-line no país. São o tigrinho, a roleta e o caça-níquel no celular. Pela proposta atual, apostas esportivas, patrocínios e campeonatos ficam de fora, e se estuda uma carência de 180 dias antes de a proibição valer. Ainda assim, os clubes anunciaram o apocalipse. Por quê?

O torcedor financia o patrocinador, que financia o clube, que transforma o torcedor em apostador

A pergunta ganha peso quando se olha para o outro lado do balcão. Segundo o Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, as famílias perderam R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025, perto de 0,68% da renda disponível. O LENAD III estima que 10,9 milhões de brasileiros jogam de forma arriscada ou problemática. Mais de um milhão já recorreram à plataforma que bloqueia o acesso a todas as casas autorizadas. Em Mato Grosso, a CDL Cuiabá chegou a medir R$ 261 milhões mensais indo para as apostas, R$ 41,4 milhões deles de beneficiários do Bolsa Família. Isso não é entretenimento. É uma epidemia silenciosa, que corrói o orçamento doméstico, o crédito e, no limite, a saúde mental. Neste Setembro Amarelo, não há como ignorá-la.

O futebol não depende das bets. Depende de acreditar que depende. Os números desmentem o manifesto. As casas de apostas injetam cerca de R$ 1,1 bilhão por ano no futebol, e nenhum contrato passa de 13% do orçamento de um clube. Mesmo o maior patrocínio da história, o do Flamengo, representa 12,85% da receita rubro-negra. Há um dado ainda mais revelador. A Série A começou 2026 com seis clubes sem patrocinador máster, todos com uma bet no peito até pouco antes. Nenhum fechou as portas. A dependência existe no departamento de marketing, sobretudo na Série B. Na sobrevivência, é mito.

Há uma aritmética que o manifesto prefere não fazer. Se as famílias perderam R$ 62,5 bilhões e o futebol recebeu R$ 1,1 bilhão, o patrocínio equivale a menos de 2% do que saiu do bolso do torcedor. O clube devolve ao seu público uma migalha daquilo que ele perdeu. O torcedor financia o patrocinador, que financia o clube, que transforma o torcedor em apostador. A partida, antes paixão, vira cotação. Torce-se pelo bilhete, não pela camisa.

Não seria a primeira vez que o esporte perde um patrocinador tóxico. O cigarro já esteve em uniformes, autódromos e placas de campo, até que a lei o tirou de cena. O futebol sobreviveu. Espanha e Itália restringiram a publicidade de apostas, e a Premier League retirou as casas da frente das camisas. A bola continuou rolando.

Celso Furtado mostrou que certas narrativas econômicas funcionam como mitos: organizam interesses mais do que descrevem a realidade. A "dependência" do futebol é um desses mitos. Ela convém a quem prefere o cheque fácil à reforma difícil, que passa por gestão profissional, dívidas equacionadas e uma divisão mais justa dos direitos de transmissão.

A camisa de um clube já carregou o nome do bairro, da fábrica, da cidade. Carregava pertencimento. Resta saber se o futebol brasileiro quer seguir vestindo a marca de quem aposta contra o próprio torcedor. A bola, afinal, nunca precisou de odds para rolar.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia