Cuiabá, 03/10/2026

Peso e medida

Arte Rdnews

 

Domingo, 4 de outubro. Quando as urnas abrirem às oito da manhã em Brasília, serão sete em Cuiabá. Em Sorriso, em Sapezal, em Querência, a fila da seção eleitoral vai se formar enquanto, lá fora, as plantadeiras não param. Outubro é mês de plantio. O voto e a semente descem à terra no mesmo dia.

São pouco mais de 2,6 milhões de eleitores. É um dos dez menores colégios eleitorais do país. Nenhum candidato a presidente ganha ou perde a eleição aqui, e os roteiros de campanha sabem disso.

O preço da soja é decidido em Chicago. O câmbio, em lugar nenhum e em todos ao mesmo tempo. A bancada, não. A bancada é a única variável dessa equação que se resolve aqui, em cabine fechada, sem cotação internaciona

Agora a outra conta. Em 2025, Mato Grosso fechou o ano com superávit comercial de US$ 27,57 bilhões, o maior entre os estados brasileiros. O Estado que pesa pouco na urna pesa muito na balança.

Mas é preciso cuidado com a medida. Circula por aqui a ideia de que Mato Grosso responde, sozinho, por quase metade do saldo comercial do Brasil. A conta não é essa. O saldo nacional é o que sobra depois que os estados que vendem mais do que compram compensam os que compram mais do que vendem. Minas Gerais também tem superávit robusto. O Pará também. Somadas as "fatias" de cada um, passa-se de 100%. Não se reparte um resultado líquido como se fosse um bolo.

A imprecisão não diminui o Estado. Só mostra que orgulho mal medido é argumento fraco, e Mato Grosso não precisa de exagero para ser levado a sério.

O descompasso, esse sim, é real. A democracia conta pessoas, não sacas, e é bom que seja assim. Mas as decisões sobre o destino dessa riqueza são tomadas longe dela: a ferrovia que sai ou não sai do papel, a tarifa negociada com Washington ou Pequim, a regra tributária que leva o imposto para onde está o consumo e não para onde está a produção. Na Câmara, Mato Grosso ocupa oito das 513 cadeiras. É no Senado que a federação corrige a aritmética, porque ali o Estado tem três votos, os mesmos de São Paulo. Neste domingo, duas dessas três cadeiras estão em jogo. Quantos eleitores sabem disso ao entrar na cabine?

A distância não é novidade. Cuiabá nasceu em 1719 a meses de canoa de São Paulo, no fim das monções. Durante dois séculos, o problema foi geográfico. Hoje a estrada é asfaltada e o grão chega ao porto. A distância que restou é a dos números. Quem fala pelo Estado, então? A tonelagem ou o título de eleitor?

Precisam falar os dois, e só um deles depende de nós. O preço da soja é decidido em Chicago. O câmbio, em lugar nenhum e em todos ao mesmo tempo. A bancada, não. A bancada é a única variável dessa equação que se resolve aqui, em cabine fechada, sem cotação internacional.

Toda balança tem dois pratos. Num deles, Mato Grosso já pôs o que tinha: grão, boi, algodão. O outro passa quatro anos vazio e só se enche num domingo.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia