Cuiabá, 24/10/2026

Política de Estado

Arte Rdnews

 

Nesta semana, enquanto Mato Grosso avança no plantio da soja, uma delegação brasileira percorria os salões de Toronto. A Brazil Week tinha um propósito declarado: criar o ambiente para que o acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Canadá seja, enfim, concluído. Do outro lado da mesa, o governo canadense também tem pressa. Mas há um relógio que nenhum negociador controla. O das urnas.

Neste domingo, o Brasil escolhe quem governará a partir de 1º de janeiro. E a pergunta que interessa ao produtor de Sorriso, ao pecuarista do Araguaia e ao investidor que olha para o Centro-Oeste é simples: o que acontece com um acordo quando muda, ou não muda, quem o assina?

A política comercial de um país, porém, não deveria mudar de dono a cada quatro anos. Ela pertence ao Brasil

A própria história desta negociação é uma lição. Lançada em 2018, ela atravessou governos de orientações opostas, parou em 2021 e foi retomada em outubro de 2025. Dez rodadas depois, a maior parte do texto está acertada, mas ainda faltam capítulos. Nenhum governo começou do zero. Nenhum terminará sozinho.

Os programas dos dois candidatos apontam caminhos distintos. O do presidente Lula, que busca a reeleição, fala em política externa "universalista", em aprofundar o Mercosul e em novos acordos comerciais. O do senador Flávio Bolsonaro prioriza relações bilaterais, a aproximação com os Estados Unidos e a atração de capital estrangeiro. Ele também já defendeu flexibilizar as regras do bloco para negociar diretamente com Washington.

Na prática, qualquer resultado traz um período de transição, em que negociadores costumam desacelerar e parceiros costumam esperar. No primeiro cenário, a tendência é de continuidade, embora o calendário já tenha escapado da meta de setembro. No segundo, a dúvida não é tanto se o Brasil quer comerciar com o Canadá, porque ambos os programas falam em abrir mercados. A dúvida é se o Mercosul continuará sendo a mesa onde isso se negocia.

E é aí que a questão deixa de ser eleitoral e passa a ser de Estado.

O que está em jogo para Mato Grosso não é pouco. O Canadá é fornecedor estratégico de potássio, sem o qual a soja não alcança a produtividade que conhecemos. Em 2025, as vendas canadenses de fertilizantes ao Brasil superaram US$ 1 bilhão. Menos barreiras nesse fluxo significam custo menor e fornecimento mais previsível, num mercado de insumos sujeito a guerras e sanções.

Há também o acesso a cerca de 41 milhões de consumidores de alta renda para carnes, açúcar, café e alimentos processados. E há o capital. O Brasil recebe hoje apenas 1% dos mais de C$ 2,4 trilhões que o Canadá mantém investidos no exterior. Ferrovias, armazéns, energia e mineração em Mato Grosso caberiam nessa conta.

Acordos comerciais são obras de longa maturação. Exigem diplomatas de carreira, regras previsíveis e a disposição de cada governo de honrar o que o anterior construiu de bom. Quem planta sabe disso melhor do que ninguém: a semente lançada hoje será colhida por quem estiver lá no tempo da colheita.

Domingo, o eleitor decide quem governa. A política comercial de um país, porém, não deveria mudar de dono a cada quatro anos. Ela pertence ao Brasil.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do Governador de Mato Grosso e professor de economia