Robusto aos olhos do país, agronegócio de Mato Grosso vive asfixia por dívidas e juros altos
Renegociações bancárias e repactuações de dívidas de safras passadas alcançam 18% de todo o crédito rural do estado; projeções indicam margens negativas para soja e milho
As lavouras de Mato Grosso projetam aos olhos do país uma robustez inquestionável. Da temporada 2016/17 às estimativas para 2026/27, a área de soja no estado subiu 38,67%, atingindo 13,05 milhões de hectares, ao passo que a safra de milho avançou de 30,77 milhões para 53,35 milhões de toneladas. Longe da vista do público, entretanto, as planilhas do agronegócio enfrentam uma asfixia histórica: um endividamento sistêmico empurrado por quebras de safra, carência de cobertura securitária, custos em alta e taxas de juros restritivas.
Famato/MT
O gatilho dessa crise foi pela instabilidade do clima dentro da porteira. Historicamente, os modelos meteorológicos projetam um comportamento binário para o El Niño no território brasileiro: chuvas torrenciais e inundações no Sul, contrapostas a secas severas no Norte. No Centro-Oeste, contudo, a equação foge à regra clássica.
"El Niño mais intenso não necessariamente significa impacto mais intenso para o agro. Porque diferente do Sul e do Norte, que têm características claras do que vai acontecer, aqui no Centro-Oeste é imprevisível", explicou Cleiton Gauer, superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), ao #rdnews.
El Niño mais intenso não necessariamente significa impacto mais intenso para o agro. Porque diferente do Sul e do Norte, que têm características claras do que vai acontecer, aqui no Centro-Oeste é imprevisível
Gauer lembrou que o histórico climático do estado desafia previsões simplistas. No ciclo 2015/16, sob um El Niño de alta intensidade, o impacto mais severo recaiu sobre a segunda safra de milho, trazendo apenas uma leve oscilação para a soja. Já na safra 2023/24, a dinâmica foi inversa: mesmo com reflexos climáticos menos generalizados pelo estado, a oleaginosa sofreu um revés agudo.
“Por que o impacto na produtividade da soja foi tão alto em 2023/24? Porque houve um reflexo direto de um veranico concentrado: em uma área específica, em um período determinado, atingindo as cultivares de ciclo mais curto, que foram as primeiras semeadas”, detalha o superintendente. “Quando olhamos a média do estado, houve uma queda significativa, embora produtores que semearam mais tarde não tenham sido afetados. Foi um acaso concentrado”.
A armadilha do mercado e o apagão do seguro
A frustração produtiva da safra 2023/24 desmontou uma das crenças mais tradicionais do produtor rural: a de que a retração na colheita local provocaria uma alta compensatória nas cotações globais.
"Não necessariamente um impacto produtivo tem reflexo indireto nos preços, como vimos em 2023 e 2024. Deixamos de produzir e o produtor achou que isso refletiria numa melhora de preço por conta da diminuição da oferta, mas isso não aconteceu. Existe esse risco de mercado", pontuou Gauer.
Annie Souza
O superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária, Cleiton Gauer, aponta que histórico climático de Mato Grosso desafia previsões simplistas para o campo
Os números do Imea confirmam esse descompasso: a cotação média ponderada da soja em Mato Grosso, que havia atingido a máxima histórica de R$ 147,47 por saca na safra 2021/22, despencou para a faixa de R$ 107 a R$ 114 nos anos seguintes. A saca do milho seguiu rota idêntica, derretendo do pico de R$ 60,27 para cerca de R$ 44,00.
Se o preço despencou, o custo de produção explodiu. Abaladas pelo conflito entre Rússia e Ucrânia e pelos gargalos logísticos globais, as despesas operacionais da agricultura subiram de patamar. Na comparação com a média das safras de 2016/17 a 2020/21, o custo médio total saltou 86,71% na soja (indo a R$ 7.171,07/ha) e expressivos 100,86% no milho (atingindo R$ 6.019,05/ha).
É nesse cenário de custo recorde por hectare que entra o elo mais frágil da cadeia: a desproteção das lavouras. O documento do Imea revela um verdadeiro "apagão" na contratação de seguros agrícolas em Mato Grosso. Se em 2021 o valor garantido por apólices de seguro rural para soja e milho alcançava R$ 3,90 bilhões (com 3.195 apólices ativas), os dados consolidados do Sistema de Subvenção (SISSER) mostram que, em 2025, o montante despencou para meros R$ 290 milhões, cobrindo irrisórias 331 apólices.
Sem apólices subsidiadas e diante do alto valor dos prêmios privados, os produtores enfrentaram os veranicos de peito aberto. Sem a indenização das seguradoras para cobrir as quebras, o prejuízo operacional escorreu diretamente para o fluxo de caixa das fazendas.
Aprosoja-MT
Cotação média da saca do milho derreteu de R$ 60,27 na safra 2021/22 para cerca de R$ 44,00 nos anos seguintes
A bola de neve: de R$ 1,6 bilhão para R$ 21,79 bilhões
A consequência contábil de colher menos com custos altos e vender por preços deprimidos manifestou-se na incapacidade de quitar os compromissos financeiros ao final do ciclo.
Questionado sobre a herança deixada pela safra 2023/24, Gauer é taxativo: “Tem muita gente pagando essa conta até hoje. Foi uma conjunção de fatores. Naquele momento, começamos a observar o endividamento subindo. Além de os produtores não terem tido receita, houve um problema sério de preços. Isso continuou apertando as contas nos anos subsequentes; o setor foi praticamente engolido por esse cenário. Enfrentamos um processo contínuo de redução das margens, avanço da inadimplência e elevação dos chamados ativos problemáticos — que refletem justamente quem precisou renegociar. As prorrogações e repactuações representam a maior fatia de todo esse endividamento.”
Tem muita gente pagando essa conta [da safra 2023/2024] até hoje. Foi uma conjunção de fatores. Naquele momento, começamos a observar o endividamento subindo. Além de os produtores não terem tido receita, houve um problema sério de preços. Isso continuou apertando as contas nos anos subsequentes; o setor foi praticamente engolido por esse cenário
Os relatórios do Banco Central compilados no estudo do Imea dão a dimensão exata dessa escalada. A carteira de "crédito problemático" no crédito rural de Mato Grosso - conceito que abrange créditos vencidos em atraso, operações prorrogadas e renegociações - explodiu.
Em 2022, o volume problemático representava modestos R$ 1,61 bilhão (2,08% da carteira). Em 2024, sob o impacto do veranico, disparou para R$ 11,90 bilhões. Em 2025, atingiu R$ 19,78 bilhões e, em abril de 2026, cravou a marca inédita de R$ 21,79 bilhões — um salto de 1.144% em relação a 2020 e o equivalente a 18,22% de todo o crédito rural concedido no estado, o maior patamar de toda a série histórica.
Mais da metade desse estoque está alocada sob a rubrica de operações renegociadas. Na prática, isso atesta que os produtores e as instituições credoras apenas empurraram a conta de 2023/24 para as safras seguintes, transformando perdas de custeio pontuais em dívidas estruturadas de médio prazo.
Quando as renegociações informais ou bancárias não foram suficientes para segurar as execuções, o caminho foi a via jurídica. De acordo com a Serasa Experian, Mato Grosso lidera com folga os pedidos de Recuperação Judicial no agronegócio em todo o país desde 2023. Somente em 2025, o estado registrou 332 pedidos — ficando muito à frente de Goiás (296), Paraná (248) e Mato Grosso do Sul (216).
O torniquete dos juros reais e o horizonte sombrio até 2027
A estratégia de "empurrar com a barriga" as contas da quebra de 2023/24 encontrou uma barreira macroeconômica intransponível: o custo do dinheiro.
Entre 2017 e 2020, o produtor financiou a compra de maquinários e a expansão de terras com taxas de juros controladas e uma Selic que chegou à mínima de 2,00% ao ano. No entanto, a taxa básica de juros atingiu 14,50% ao ano, projetando uma taxa de juros real próxima de 10%. Nas linhas oficiais do Plano Safra, os juros de programas vitais como Moderfrota, Procap-Agro e Inovagro sofreram aumentos de até 6 pontos percentuais.
O resultado prático é que rolar uma dívida não honrada em 2024 sob juros reais de dois dígitos corrói de forma acelerada qualquer saldo positivo de caixa. Para piorar, as projeções do CPA-MT (Senar/Imea) apontam que os ciclos agrícolas atuais operam no vermelho:
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Soja (2026/27): O custo total estimado é de R$ 8.153,44 por hectare, enquanto a receita bruta projetada fica em R$ 6.733,48/ha. Um prejuízo operacional de R$ 1.419,96 por hectare.
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Milho (2026/27): O custo total previsto chega a R$ 7.418,49/ha para uma receita bruta estimada em apenas R$ 5.363,32/ha. Um saldo negativo de R$ 2.055,17 por hectare.
A melhora vai depender do ciclo das commodities e da recuperação dos preços. Mas eu acho que 2027 ainda vai ser um ano ruim
Ao ser perguntado se esse passivo vinha se acumulando e se havia previsão de alívio no horizonte, Cleiton Gauer foi pragmático quanto aos riscos que cercam o novo ciclo: "Sim, foi acumulando. A melhora vai depender do ciclo das commodities e da recuperação dos preços. Mas eu acho que 2027 ainda vai ser um ano ruim. A gente vai acumular ainda mais, dado que estamos indo para um ano de risco maior em razão do El Niño [de 2026/2027]", conclui.
Sem margem operacional nos preços futuros para pagar o passivo das safras passadas, e ingressando em mais uma janela de volatilidade climática com a carteira de seguros esvaziada, o agronegócio de Mato Grosso chega a uma encruzilhada: a crise deixou de ser um problema de manejo no solo para se tornar uma batalha de sobrevivência nos balanços contábeis.