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ECONOMIA Sábado, 07 de Novembro de 2026, 15:10 - A | A

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CONTAS NO VERMELHO

Robusto aos olhos do país, agronegócio de Mato Grosso vive asfixia por dívidas e juros altos

Renegociações bancárias e repactuações de dívidas de safras passadas alcançam 18% de todo o crédito rural do estado; projeções indicam margens negativas para soja e milho

Leticia Avalos
Vídeos: Annie Souza

As lavouras de Mato Grosso projetam aos olhos do país uma robustez inquestionável. Da temporada 2016/17 às estimativas para 2026/27, a área de soja no estado subiu 38,67%, atingindo 13,05 milhões de hectares, ao passo que a safra de milho avançou de 30,77 milhões para 53,35 milhões de toneladas. Longe da vista do público, entretanto, as planilhas do agronegócio enfrentam uma asfixia histórica: um endividamento sistêmico empurrado por quebras de safra, carência de cobertura securitária, custos em alta e taxas de juros restritivas.

Famato/MT

Lavoura de soja em Mato Grosso colheitadeira

O gatilho dessa crise foi pela instabilidade do clima dentro da porteira. Historicamente, os modelos meteorológicos projetam um comportamento binário para o El Niño no território brasileiro: chuvas torrenciais e inundações no Sul, contrapostas a secas severas no Norte. No Centro-Oeste, contudo, a equação foge à regra clássica.

"El Niño mais intenso não necessariamente significa impacto mais intenso para o agro. Porque diferente do Sul e do Norte, que têm características claras do que vai acontecer, aqui no Centro-Oeste é imprevisível", explicou Cleiton Gauer, superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), ao .

El Niño mais intenso não necessariamente significa impacto mais intenso para o agro. Porque diferente do Sul e do Norte, que têm características claras do que vai acontecer, aqui no Centro-Oeste é imprevisível

Gauer lembrou que o histórico climático do estado desafia previsões simplistas. No ciclo 2015/16, sob um El Niño de alta intensidade, o impacto mais severo recaiu sobre a segunda safra de milho, trazendo apenas uma leve oscilação para a soja. Já na safra 2023/24, a dinâmica foi inversa: mesmo com reflexos climáticos menos generalizados pelo estado, a oleaginosa sofreu um revés agudo.

“Por que o impacto na produtividade da soja foi tão alto em 2023/24? Porque houve um reflexo direto de um veranico concentrado: em uma área específica, em um período determinado, atingindo as cultivares de ciclo mais curto, que foram as primeiras semeadas”, detalha o superintendente. “Quando olhamos a média do estado, houve uma queda significativa, embora produtores que semearam mais tarde não tenham sido afetados. Foi um acaso concentrado”.

A armadilha do mercado e o apagão do seguro

A frustração produtiva da safra 2023/24 desmontou uma das crenças mais tradicionais do produtor rural: a de que a retração na colheita local provocaria uma alta compensatória nas cotações globais.

"Não necessariamente um impacto produtivo tem reflexo indireto nos preços, como vimos em 2023 e 2024. Deixamos de produzir e o produtor achou que isso refletiria numa melhora de preço por conta da diminuição da oferta, mas isso não aconteceu. Existe esse risco de mercado", pontuou Gauer.

Annie Souza

Cleiton Gauer, IMEA, Famato

 O superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária, Cleiton Gauer, aponta que histórico climático de Mato Grosso desafia previsões simplistas para o campo

 

Os números do Imea confirmam esse descompasso: a cotação média ponderada da soja em Mato Grosso, que havia atingido a máxima histórica de R$ 147,47 por saca na safra 2021/22, despencou para a faixa de R$ 107 a R$ 114 nos anos seguintes. A saca do milho seguiu rota idêntica, derretendo do pico de R$ 60,27 para cerca de R$ 44,00.

Se o preço despencou, o custo de produção explodiu. Abaladas pelo conflito entre Rússia e Ucrânia e pelos gargalos logísticos globais, as despesas operacionais da agricultura subiram de patamar. Na comparação com a média das safras de 2016/17 a 2020/21, o custo médio total saltou 86,71% na soja (indo a R$ 7.171,07/ha) e expressivos 100,86% no milho (atingindo R$ 6.019,05/ha).

É nesse cenário de custo recorde por hectare que entra o elo mais frágil da cadeia: a desproteção das lavouras. O documento do Imea revela um verdadeiro "apagão" na contratação de seguros agrícolas em Mato Grosso. Se em 2021 o valor garantido por apólices de seguro rural para soja e milho alcançava R$ 3,90 bilhões (com 3.195 apólices ativas), os dados consolidados do Sistema de Subvenção (SISSER) mostram que, em 2025, o montante despencou para meros R$ 290 milhões, cobrindo irrisórias 331 apólices.

Sem apólices subsidiadas e diante do alto valor dos prêmios privados, os produtores enfrentaram os veranicos de peito aberto. Sem a indenização das seguradoras para cobrir as quebras, o prejuízo operacional escorreu diretamente para o fluxo de caixa das fazendas.

Aprosoja-MT

Milho safra lavoura aprosoja campo plantação

Cotação média da saca do milho derreteu de R$ 60,27 na safra 2021/22 para cerca de R$ 44,00 nos anos seguintes

A bola de neve: de R$ 1,6 bilhão para R$ 21,79 bilhões

A consequência contábil de colher menos com custos altos e vender por preços deprimidos manifestou-se na incapacidade de quitar os compromissos financeiros ao final do ciclo.

Questionado sobre a herança deixada pela safra 2023/24, Gauer é taxativo: “Tem muita gente pagando essa conta até hoje. Foi uma conjunção de fatores. Naquele momento, começamos a observar o endividamento subindo. Além de os produtores não terem tido receita, houve um problema sério de preços. Isso continuou apertando as contas nos anos subsequentes; o setor foi praticamente engolido por esse cenário. Enfrentamos um processo contínuo de redução das margens, avanço da inadimplência e elevação dos chamados ativos problemáticos — que refletem justamente quem precisou renegociar. As prorrogações e repactuações representam a maior fatia de todo esse endividamento.”

Tem muita gente pagando essa conta [da safra 2023/2024] até hoje. Foi uma conjunção de fatores. Naquele momento, começamos a observar o endividamento subindo. Além de os produtores não terem tido receita, houve um problema sério de preços. Isso continuou apertando as contas nos anos subsequentes; o setor foi praticamente engolido por esse cenário

Os relatórios do Banco Central compilados no estudo do Imea dão a dimensão exata dessa escalada. A carteira de "crédito problemático" no crédito rural de Mato Grosso - conceito que abrange créditos vencidos em atraso, operações prorrogadas e renegociações - explodiu.

Em 2022, o volume problemático representava modestos R$ 1,61 bilhão (2,08% da carteira). Em 2024, sob o impacto do veranico, disparou para R$ 11,90 bilhões. Em 2025, atingiu R$ 19,78 bilhões e, em abril de 2026, cravou a marca inédita de R$ 21,79 bilhões — um salto de 1.144% em relação a 2020 e o equivalente a 18,22% de todo o crédito rural concedido no estado, o maior patamar de toda a série histórica.

Mais da metade desse estoque está alocada sob a rubrica de operações renegociadas. Na prática, isso atesta que os produtores e as instituições credoras apenas empurraram a conta de 2023/24 para as safras seguintes, transformando perdas de custeio pontuais em dívidas estruturadas de médio prazo.

Quando as renegociações informais ou bancárias não foram suficientes para segurar as execuções, o caminho foi a via jurídica. De acordo com a Serasa Experian, Mato Grosso lidera com folga os pedidos de Recuperação Judicial no agronegócio em todo o país desde 2023. Somente em 2025, o estado registrou 332 pedidos — ficando muito à frente de Goiás (296), Paraná (248) e Mato Grosso do Sul (216).

O torniquete dos juros reais e o horizonte sombrio até 2027

A estratégia de "empurrar com a barriga" as contas da quebra de 2023/24 encontrou uma barreira macroeconômica intransponível: o custo do dinheiro.

Entre 2017 e 2020, o produtor financiou a compra de maquinários e a expansão de terras com taxas de juros controladas e uma Selic que chegou à mínima de 2,00% ao ano. No entanto, a taxa básica de juros atingiu 14,50% ao ano, projetando uma taxa de juros real próxima de 10%. Nas linhas oficiais do Plano Safra, os juros de programas vitais como Moderfrota, Procap-Agro e Inovagro sofreram aumentos de até 6 pontos percentuais.

O resultado prático é que rolar uma dívida não honrada em 2024 sob juros reais de dois dígitos corrói de forma acelerada qualquer saldo positivo de caixa. Para piorar, as projeções do CPA-MT (Senar/Imea) apontam que os ciclos agrícolas atuais operam no vermelho:

  • Soja (2026/27): O custo total estimado é de R$ 8.153,44 por hectare, enquanto a receita bruta projetada fica em R$ 6.733,48/ha. Um prejuízo operacional de R$ 1.419,96 por hectare.

  • Milho (2026/27): O custo total previsto chega a R$ 7.418,49/ha para uma receita bruta estimada em apenas R$ 5.363,32/ha. Um saldo negativo de R$ 2.055,17 por hectare.

A melhora vai depender do ciclo das commodities e da recuperação dos preços. Mas eu acho que 2027 ainda vai ser um ano ruim

Ao ser perguntado se esse passivo vinha se acumulando e se havia previsão de alívio no horizonte, Cleiton Gauer foi pragmático quanto aos riscos que cercam o novo ciclo: "Sim, foi acumulando. A melhora vai depender do ciclo das commodities e da recuperação dos preços. Mas eu acho que 2027 ainda vai ser um ano ruim. A gente vai acumular ainda mais, dado que estamos indo para um ano de risco maior em razão do El Niño [de 2026/2027]", conclui.

Sem margem operacional nos preços futuros para pagar o passivo das safras passadas, e ingressando em mais uma janela de volatilidade climática com a carteira de seguros esvaziada, o agronegócio de Mato Grosso chega a uma encruzilhada: a crise deixou de ser um problema de manejo no solo para se tornar uma batalha de sobrevivência nos balanços contábeis.

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