Cuiabá, 01/11/2026

Advogado quer presidir FMF, vê falta de transparência e propõe revolução

Gilberto Leite/Rdnews

Ussiel Tavares anuncia candidatura à FMF e levanta polêmica sobre falta de transparência na entidade

Advogado, ex-procurador geral de Cuiabá e ex-presidente da OAB-MT por dois mandatos, Ussiel Tavares sempre foi conhecido por envolver-se em polêmicas com seus colegas de profissão e de outros setores por causa do tom incisivo com que costuma expor e defender suas ideias.

Além de manter seu escritório e causas para as quais é contratado, agora pretende promover uma revolução no futebol mato-grossense. E diz ter "afinidade" com o meio esportivo, afinal, já foi presidente do Tribunal de Justiça Desportiva.

Ussiel está em campanha à presidência da FMF, entidade que congrega clubes de futebol profissional do Estado e que hoje é presidida por João Carlos, "eterno" parceiro do antecessor, Carlos Orione, que faleceu no ano passado. A eleição será em maio. Ele falou ao #rdnews.

Por que pretende presidir a Federação Mato-Grossense de Futebol?

Como todo brasileiro, gosto de futebol, sempre acompanhei e até jogava antigamente. Hoje em dia não consigo mais, mas acho que posso sim contribuir para com o futebol mato-grossense, fazendo uma gestão mais profissional, com uma estrutura melhor, mais adequada com a assessoria de imprensa, de marketing, para trabalhar o futebol como espetáculo, não como é hoje - fazendo jogos de futebol às 15 horas no domingo por conta de uma emissora que tem um contrato que nunca ninguém viu. Mas principalmente é porque temos de ter na federação uma transparência maior.

Pode apontar alguns erros?

Há vários. Sou candidato, mas sequer sei se posso ser, porque as eleições da federação são uma caixa de surpresa, não se sabe quem são as pessoas aptas a votar porque quem vota nessa eleição são as ligas municipais dos clubes, mas não sei responder quem são os clubes aptos. Hoje, há prazo de cinco dias para realizar a eleição, mas é sem proporcionar aos outros candidatos a oportunidade de observar o processo eleitoral. Isso tem que acabar. No site (da FMF) não tem uma única informação sobre o estatuto ou quem é apto a votar. Minha intenção é mudar isso.

Não tem medo de acharem que o senhor caiu de paraquedas na história?

Não. Quero discutir o processo, posso até retirar a candidatura, apoiar outra, o que eu quero é o compromisso de que os dirigentes se comprometam a rever o estatuto e a torná-lo uma coisa mais transparente. Estou disposto a ajudar desde sendo presidente até conselheiro da federação. Quero ajudar.

Quanto ganha um presidente da FMF?

Não tenho certeza, mas ouvi dizer que é mais de R$ 20 mil. Essa movimentação financeira da federação vem em grande parte da CBF. Quando um time de Mato Grosso disputa a Copa do Brasil, por exemplo, só pela participação no primeiro jogo o clube recebe R$ 500 mil. Tem que abrir essa informação, como eu disse antes, tratar o futebol como espetáculo.

Gilberto Leite/Rdnews

Para advogado Ussiel Tavares, a Arena Pantanal nem deveria ter sido construída

A CBF tem verba reservada para as federações. O senhor sabe de quanto é essa verba?

Não sei, porque ninguém fala e ninguém divulga. E divulgar é o único propósito para participar dessa discussão. Dar transparência total, porque isso não faz mal a ninguém. (Carlos) Orione fez isso (não divulgar valores nem como os gerenciava) durante 30 anos, fazia com certo talento, mas o que o atual presidente tem que entender é que as coisas mudaram, não pode mais uma entidade que detém essa responsabilidade se fechar e não prestar contas a ninguém.

Sabe como essa verba é investida?

A Federação não publica nada. Não estou acusando ninguém nem dizendo que estão desviando dinheiro, só não tenho informação para dar um juízo de valor mais apurado.

No Brasil inteiro chamam a Arena Pantanal de elefante branco. O senhor sabe como mudar isso?

A rigor não deveria nem ter sido construída, porque o futebol daqui ainda é muito incipiente para ter uma arena dessa importância. O que era mais fácil: gastar o que se gastou na arena ou reformar o Verdão? Como jogar um patrimônio daqueles fora, simplesmente não aproveitando nada a não ser o local? Era tão importante fazer a Copa aqui? Não era, mas já que está feito, temos que ter uma destinação àquilo, assim como a Arena do Palmeiras, onde frequentemente se realiza shows. Tem que se diversificar o uso, talvez com parcerias da iniciativa privada, reformar o Dutrinha para ter custos menores, porque só para abrir a Arena Pantanal já se tem um gasto muito grande. Deixá-la apenas para jogos mais importantes, fazer o futebol voltar a ser atraente. É elefante branco sim, posso garantir, mas, de repente, com uso compartilhado, pode melhorar. O que a prefeitura usa de imóveis alugados na capital? De repente, concentrar algumas secretarias na própria arena ajude. Tem que ter criatividade, porque o ano passado teve o que, três jogos importantes lá? Qual foi o valor destinado à Federação? É preciso saber e mostrar isso.

A realidade dos clubes locais, cheios de dívidas e sem grandes elencos e nem público, tem como ser melhorada?

Sim. Os clubes que não têm condições de investir na contratação de jogadores, que façamos convênios com clubes dos grandes centros para trazer jogadores que queiram, no jargão do futebol, rodagem. Temos que buscar o investimento nas categorias de base. Existem alguns programas fora de Mao Grosso que incentivam, por exemplo, a troca de notas fiscais por bônus na aquisição de ingressos para assistir os jogos. Então temos que buscar alternativas que deram certo.

O futebol mato-grossense tem jeito?

Acredito que sim porque o que me leva a pensar isso é que a grande fonte de criação de novos jogadores é a popular várzea, campos de futebol da periferia. Em São Paulo, não se tem mais isso, não tem mais campo de futebol para descobrir jogadores. A maioria dos jogadores está nas mãos dos empresários e aqui ainda não se tem essa malícia para deixar atletas nas mãos de empresários. O peladão, por exemplo, juntava 500 times, não é possível que não saísse nenhum jogador bom nessa disputa. Tem que se usar essas competições para prestar mais atenção aos jogadores. Acho que tem condições sim. O Mixto tem uma torcida maravilhosa, a rivalidade entre os times do interior; o Dom Bosco, com uma participação histórica; o Operário, que cada hora chamam de um jeito, mas tem torcida, querem sim discutir futebol. Todo mundo ia antigamente ver os jogos independente do clube, era um ponto de encontro, hoje não tem mais isso.

Gilberto Leite/Rdnews

Advogado Ussiel Tavares classifica a Federação  de caixa-preta e observa que não se sabe ao certo, por exemplo, quanto é o salário de quem comanda a entidade