Ao lado de Kanté e Benzema, preparador físico de MT conta rotina no futebol árabe
Thiago Melo, é destaque como preparador físico do Al-Ittihad time de futebol da Arábia Saudita
Arte/Rdnews
Morador de Sinop (a 476 km de Cuiabá), Thiago Melo é destaque como preparador físico do Al-Ittihad, da Arábia Saudita, atuando ao lado de grandes nomes do futebol, como por exemplo Kanté, Benzema, Fabinho, Marcelo Grohe, Romarinho e Luiz Felipe. Longe da família, o mato-grossense deixou a sua terra natal para viver novos desafios na profissão, que tem lhe proporcionado grandes experiências no mundo da bola. Em entrevista especial ao #rdnews, o preparador físico destacou pontos importantes da sua profissão e contou como surgiu o interesse de atuar na área. Thiago detalhou também como é trabalhar no futebol saudita, falou sobre as suas conquistas e projetou o futuro ao lado da sua família.
Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista
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O que faz um preparador físico? Quais são os principais cuidados com os atletas?
Hoje, no futebol, o trabalho interdisciplinar é fundamental para que as equipes trabalhem de maneira eficiente para alcançarem os seus projetos e objetivos. É o tipo de trabalho que as equipes de diferentes departamentos realizam juntas dentro de uma organização com um só objetivo, deixando o ego de lado. Portanto, hoje o preparador físico é muito mais do que somente colocar jogadores para correr. Vai muito além disso. São vários fatores e processos que precisam ser preparados, aplicados e analisados junto com toda comissão técnica para decidir o que é o melhor para a equipe. Desde preocupação com a qualidade de vida (sono, dor, fadiga, etc), até desenvolver os treinos tentando ao máximo diminuir os riscos de lesão dos atletas, deixando assim os atletas o mais saudável possível.
Como surgiu o interesse de atuar nessa profissão?
Quando tentei jogar futebol, eu era apaixonado por treinar, e quando percebi aos 22 anos que não chegaria a lugar nenhum como jogador, decidi entrar para faculdade de Educação Física, pois através dela sabia que seria possível. Aos 24 anos - após dois anos trabalhando na confecção de lingerie juntando algum dinheiro, pois como venho de uma família humilde e simples, as coisas não eram nada fáceis - graças a Deus tive forças para lutar e terminar o curso.
Como e onde um preparador físico pode atuar?
Primeiramente, é preciso se formar em Educação Física. E o preparador físico pode trabalhar em qualquer esporte. Acredito que o mais importante seja se especializar na área desejada a trabalhar.
Atualmente você é preparador físico do Al-Ittihad. Como está sendo essa experiência?
Já estive aqui na Arábia em outras duas experiências, em 2013 a primeira vez, e entre 2020 e 2022. Fiquei um ano e dois meses em casa após me casar, hoje estou aqui novamente, e posso dizer que estar participando desse momento incrível de transformação do país. É uma experiência que não tem preço.
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Qual é a realidade do futebol saudita. Como é a estrutura, os investimentos e os salários?
Como muitos sabem, depois da chegada de craques como CR7, Benzema e Neymar, os investimentos estão cada vez maiores, e isso faz parte do plano estratégico da mudança do país. Parte desse investimento são os altos salários que os jogadores ganham cada vez mais. A estrutura também está num momento de transformação muito grande, mas ainda está muito aquém até dos grandes clubes do Brasil. Por exemplo, ano passado eu tive a oportunidade de visitar o Ninho do Urubu [instalações do Flamengo] e posso dizer que aqui ainda está muito longe desse nível tanto na base quanto no profissional, mas estão caminhando a passos largos para transformação e por dar as melhores condições para todos.
“É uma experiência dos sonhos trabalhar com esses atletas”
Quais times e em quais países você já trabalhou como preparador físico?
No Brasil, trabalhei pela última vez no time de casa pelo Sport Sinop, onde eu vivo como minha amada família. Aqui na Arábia, trabalhei na Seleção Saudita, no Al Hilal e agora no Al Ittihad. Antes trabalhei por 7 anos nos Estados Unidos em High School, universidades e outros times.
Você convive diariamente com grandes estrelas do futebol, como N'Golo Kanté e Karim Benzema. Como é o dia a dia de trabalho com esses atletas?
Além desses craques, também integram a lista Fabinho ex-Liverpool, Marcelo Grohe e Romarinho que são ídolos, Luiz Felipe que é naturalizado italiano e um craque, o Igor Coronado, que é chamado de Mago aqui, também é especial. É uma experiência dos sonhos trabalhar com esses atletas. Consigo entender o porquê desses jogadores chegarem no nível que chegaram, porque além do talento nato, a disciplina, comprometimento, além de tudo, a maioria deles é humilde, mesmo sendo tão bem sucedidos profissionalmente e financeiramente falando.
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Quais são as suas conquistas ou títulos no currículo?
No futebol profissional, o mais relevante foi o Campeonato Saudita da temporada 2022.
Como era a sua rotina no Brasil? Sempre trabalhou como preparador físico? Quais as boas lembranças da cidade natal?
Minha rotina no Brasil é bem simples junto com minha família. Quando estou no Brasil, tento passar o maior tempo possível com minha família e, sempre que dá, vou ao interior do Rio [de Janeiro] visitar minha mãe, minha família e amigos. Teve uma época que pensei em ser treinador, mas isso foi por pouco, pois minha paixão mesmo é a preparação física. Da minha cidade natal, as melhores lembranças são da minha família e dos amigos que tenho. Já são mais de 20 anos de amizade.
“Os USA me deram a oportunidade de ter uma qualidade de vida que jamais pude imaginar”
O que te motivou a sair do Brasil?
Foi por acaso, quer dizer, foi por Deus. Procurando cursos de treinador de futebol, encontrei o site da Tetrabrazil Soccer Academy que me deu a oportunidade de conhecer e trabalhar nos Estados Unidos, país que me afastou um pouco do futebol profissional, mas não da preparação física, pois trabalhava muito individualmente com atletas. Os Estados Unidos me deram a oportunidade de ter uma qualidade de vida que jamais pude imaginar. Mas ao terminar o mestrado em 2020 lá, vi que era hora de procurar outros ares e voltei pra Arábia Saudita para trabalhar na seleção de beach soccer.
Como é a sua rotina familiar?
Por enquanto, a família ainda está no Brasil, devido ao ano escolar das crianças, e o trabalho da minha amada esposa. Mas aqui, a minha rotina é acordar, ir para a academia no condomínio onde moro para manter a saúde em dia, preparar o treino do dia, e sair para trabalhar no fim da tarde, pois devido ao calor, que agora deu uma aliviada, os treinos sempre são no final da tarde ou à noite. Quando a família chegar aqui, será maravilhoso, pois como os treinos são no final da tarde e noite, teremos bastante tempo para aproveitar e matar a saudade que sentimos um do outro.
“Ser preparador físico é muito mais do que somente colocar jogadores para correr. Vai muito além disso”
Quais são as diferenças entre o futebol da Arábia Saudita e do Brasil?
Acredito que estão cada dia menores as diferenças, pois a liga está cada ano abrindo espaços para mais estrangeiros jogarem. A previsão é de que ano que vem todos os times possam ter até 10 estrangeiros, com isso melhora a qualidade do nível do futebol. Mas ainda assim, a questão cultural é a maior diferença, como por exemplo a vida noturna, pois devido ao calor, dorme de dia, e fica acordado à noite. Um fato curioso que acontece aqui são as orações durante o treino que são paralisadas, pois é anunciado nas mesquitas em todo o país. Em relação a parte tática e técnica, está cada vez mais evoluindo devido a globalização no futebol, principalmente nesse momento de tanto investimento.
Falando sobre o futuro, quais são os seus objetivos a serem realizados nessa profissão?
Eu sempre digo que o futuro a Deus pertence, pois sou muito fiel a Deus. Mas junto com minha esposa e filhas do coração vamos decidir juntos e quem sabe um dia eu tenha a oportunidade de trabalhar em uma grande equipe no Brasil, para poder fazer o que amo e estar junto da família.