Ativista crê em ressocialização, mas teme que Bruno volte a ser ídolo do futebol leia
Ana Emília, referência no ativismo feminista e negro, comenta polêmica contratação de goleiro em VG
Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews
Mulher, negra, militante e feminista. Além de doutoranda, Ana Emília atua há anos de sua história para combater o ciclo da violência contra a mulher. Além de ser mãe de duas mulheres presentes e avó de uma menina que torce para ser "uma futura militante" dos direitos das mulheres, ela confessa que na geração que nasceu, cresceu e foi criada, a violência era tratada como natural. Foi em 2003, após ingressar na academia, que em contato com outras mulheres passou a pensar diferente. Discípula de Shelma Lombadi de Kato, aprendeu a defesa das mulheres enquanto assessora jurídica da primeira desembargadora do país. Foi também, por duas gestões, presidente do Conselho Estadual da Mulher, representando a OAB-MT. Enquanto professora, advogada, palestrante e capacitadora sobre o combate à violência Brasil a fora, é uma apaixonada pelo trabalho. Por isso, também se declara contra a contratação do goleiro Bruno, feminicida, em qualquer time de futebol. Ela teme que logo ele se transforme em um ídolo.
Confira os melhores trechos da entrevista:
Quando começou sua trajetória de militante e como se entrelaça sua história com o combate a violência da mulher?
Venho de uma geração onde a criação era extremamente machista e patriarcal. No decorrer da minha vida, vi muita coisa, vivenciei e ouvi, e pela minha criação, nada disso era violência, toda situação era naturalizada. Comecei a perceber que não era normal. Em 2003, como titular no Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, fiquei muito próxima de outras mulheres mais jovens do que eu e com outra mentalidade. Tive outra visão. A partir de 2006, com a sanção da Lei Maria da Penha, e já como assessora jurídica da desembargadora Shelma, tive a oportunidade, junto com ela, de instalar as primeiras duas varas de violência doméstica e familiar aqui em Cuiabá, as primeiras do Brasil. Além disso, as primeiras no Brasil a receberem processos eletrônicos referentes as medidas protetivas.
Além de Lei, debates e campanhas, denúncias cresceram em relação a esse tipo de violência. Por ser de uma geração anterior, como foi perceber essas transformações?
A partir da década de 80, quando teve a revolução feminista, as coisas começaram a ter outro entendimento do Brasil, mas à discussão para o combate a violência contra a mulher começou em 2003, por meio das pautas políticas públicas para as mulheres em Brasília. Já se tinha um entendimento do que era a violência, mas se chamava de homicídio casos como o da Ângela Diniz e de outras mulheres que vieram à tona em nível nacional. O enfrentamento da violência contra a mulher foi a partir das delegacias especificas a nível federal, com a Lei Maria da penha, e maior engajamento do judiciário. Embora tenhamos não só em Mato Grosso, mas nível Brasil, a tímida presença dos Executivos Estaduais e Municipais, de qualquer maneira, houve um avanço. A lei Maria da Penha motivou o encorajamento das mulheres no que diz respeito às denúncias.
Rodinei Crescêncio
Ativista do movimento feminista e negro em MT, Ana Emília durante entrevista exclusiva à jornalsita Mirella Duarte, na sede do grupo Rdnews
A justiça e as delegacias especializadas na violência contra a mulher auxiliam muito nesse combate, mas porque ainda há tantas mortes por feminicídio?
A violência contra a mulher é cultural, tem que haver uma mudança de mentalidade, o que é muito mais difícil e moroso. Precisa quebrar paradigmas, desconstruir. Ela passa de geração para geração, por meio da superioridade masculina em função da inferioridade feminina. Aonde isso começa? Dentro de casa. Tudo começa dentro de casa, a cultura de paz e igualdade entre homens e mulheres também deveria acontecer nas nossas casas. Quando deveríamos dar, e ainda não damos, aos nossos filhos e filhas os mesmos direitos, os mesmos deveres, as mesmas oportunidades e responsabilidades. Ainda há, hoje, dentro das nossas casas a separação dos meninos e meninas como: você é homem e pode, você é menina e não pode. É obvio que as meninas, desde sempre, são criadas para ficarem no ambiente privado, e isso vem desde os presentes, como bonecas e coisas de casa. Enquanto os meninos recebem objetos para atuarem com público, como bola e bicicleta, caminhão ou carrinho. Eles são preparados para ganharem o mundo.
Rodinei Crescêncio
Ana Emília na entrevista ao Rdnews, quando falou sobre violência
Sobre a polêmica deste início de ano, O que pensa sobre o retorno do goleiro Bruno para o futebol? Mesmo ele sendo um feminicida condenado e ter cumprido parte da pena, qual a mensagem que se passa?
No caso dele, de goleiro, ou em qualquer posição que atue no futebol, há um alto risco de se tornar um ídolo das crianças e adolescentes e vejo isso com certo temor. Foi considerado culpado e condenado por feminicídio com requintes de crueldade. No meu entendimento, sou contra a contratação dele nesta situação em qualquer time de futebol. Certamente ele deve ter outras habilidades e há um sério risco de daqui a pouco ele ser um ídolo, com todo esse passado triste. Acho que não seria o momento. Não que a gente deva condená-lo por toda a vida, mas acho que ele deveria desenvolver outra habilidade e não exatamente esta.
Acha que o judiciário poderia interferir mais nesse caso? Qual sua leitura?
Não sei até que ponto o judiciário poderia interferir nesse momento, acredito na ressocialização sim. Não estou falando desse caso especificamente (goleiro Bruno), acredito que as pessoas podem e muitas mudam sim. Quando estive gestora de políticas para as mulheres em situação de prisão, por exemplo, algumas daqueles ex reeducandas se tornaram mestres em educação, acadêmicas de Agronomia e Letras. Às vezes estar presa ou preso, faz com que a pessoa leve um choque. Lá dentro da prisão é diferente. Acredito que as pessoas podem botar a vida nos eixos depois de serem presas ao pensar isso não é pra mim.