Cartão de crédito vira cilada e dívidas se tornam vício emocional, diz especialista
Consultora financeira explica como o uso descontrolado do crédito alimenta um círculo vicioso de dívidas e dá orientações práticas para reorganizar o orçamento
Arte: Rodinei Crescêncio/Rdnews
O cartão de crédito facilitou o consumo, mas também ampliou a distância entre desejo e planejamento, além de dificultar no comprometimento na hora de juntar dinheiro para as chamadas “reservas de emergência”. Para compreender como esse instrumento se transforma em um gatilho de dívidas, a consultora financeira Patricia Capitanio - com longa trajetória em instituições bancárias - explica, em entrevista ao #rdnews, porque o dinheiro é, antes de tudo, uma questão emocional. A especialista também aponta caminhos realistas para quem deseja organizar a vida financeira sem complicações.
Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista:
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Rodinei Crescêncio/Rdnews
Considerando sua experiência, qual é o primeiro passo indispensável para alguém começar a organizar de forma concreta a própria vida financeira, principalmente nesse início de ano?
Eu falo que o primeiro passo para a gente olhar para a vida financeira, é ter uma clareza real, limpar os ruídos e entender como é a nossa vida financeira. A grande dificuldade das pessoas é entender de fato o que elas devem, qual que é o custo fixo e variável que elas têm. Por isso você precisa saber, durante o mês, se você não comer nada, se você não sair com o carro, se você não fizer nada, qual que é o custo fixo que você tem todo mês? Então eu preciso começar o mês com R$ 5 mil. Ok, então esse é o meu custo fixo. E o que são as variáveis? É a alimentação, é o combustível, às vezes uma roupa que eu preciso comprar para o meu filho, às vezes um estacionamento que eu vou pagar. Então eu tenho esses gastos variáveis.
“ Comprar de uma forma desestruturada é um vício, como se fosse uma droga, como se fosse um alcoolismo, e isso precisa ser tratado. Se você utiliza o cartão [de crédito] de forma errada, ele afeta seu financeiro e afeta seu emocional”
A primeira dica que eu posso dar é: seja realista com você, entenda onde está indo o seu dinheiro. Outra grande dificuldade das pessoas é viver com menos do que elas ganham. Por isso as pessoas hoje estão no cartão de crédito, por isso que muitas pessoas estão devendo, estão com o nome negativado, porque elas estão gastando mais do que elas ganham e muitas vezes é porque elas não conseguem ter essa percepção, porque os créditos financeiros dão essa sensação de poder gastar mesmo mesmo não tendo dinheiro. Feito isso, eu tendo esse diagnóstico da realidade da minha vida financeira, aí eu entro para um outro fator: “Ok, me sobra dinheiro ou me falta dinheiro?”.
Como você disse, muitas pessoas tratam o cartão de crédito como uma extensão da renda mensal. Como interpretar esse fenômeno e quais riscos ele traz?
O cartão de crédito é uma modalidade que traz uma ilusão, porque eu consigo comprar algo que até então eu não poderia comprar. Então, vamos supor a seguinte situação: “Me deu uma vontade de comprar roupa nova”. Se eu olhar, minha conta está zerada. Se eu não tivesse o cartão de crédito, o que ia acontecer? Eu não ia comprar. O cartão de crédito nos permite comprar, só que as pessoas estão cada vez mais querendo comprar sem ter dinheiro, sem ter como pagar depois. Além disso, foram absorvendo os outros custos que a gente tem todo mês como a alimentação, o combustível ou farmácia, e começaram a passar no cartão de crédito também. Automaticamente elas pegam esse dinheiro que antes comprava à vista e foi gastando com outras coisas. É nesse momento que essa pessoa passa a depender exclusivamente do cartão de crédito. O que elas fazem? Recebe, paga o cartão, fica sem dinheiro, e automaticamente ela não tem dinheiro para comer, para combustível, para farmácia, e reutiliza o cartão. Ele fica naquele círculo vicioso. Tem pessoas que estão há 2, 3, 5, 10 anos nesse ciclo de não conseguir eliminar o cartão de crédito. Só que eu falo: o problema não foi o cartão de crédito; o problema são as pessoas que não sabem utilizar o cartão de crédito da forma correta. Comprar de uma forma desestruturada é um vício, como se fosse uma droga, como se fosse um alcoolismo, e isso precisa ser tratado. Se você utiliza o cartão de forma errada, ele afeta seu financeiro e afeta seu emocional.
Quando alguém já chegou ao limite e não sabe mais o que fazer, quais são as situações que normalmente levam essa pessoa ao esgotamento total do controle financeiro?
Geralmente a pessoa vai pedir ajuda quando ela não aguenta mais aquele ambiente. Eu falo que a consultoria deveria ser antes de tudo isso, porque quando a pessoa já está com uma situação financeira difícil, não sobram muitas opções para a gente trabalhar. Mas sempre tem saída. Até hoje eu não peguei nenhum cliente que não teve saída. Claro que, às vezes, são caminhos que vão demorar, alguns que vão trazer sequelas, mas tem saída. Quando a gente olha para esse comportamento de exaustão, a pessoa precisa começar a observar sinais. O primeiro sinal é faltar dinheiro todo mês. Eu recebo e o dinheiro evapora. Outro sinal: estou sempre vivendo só para pagar cartão de crédito. Passa-se anos e anos e não está sobrando dinheiro, mesmo pegando 13º salário, férias, dinheiro extra, aumento de salário, e nada muda. São sinais de que você tem um problema financeiro que precisa tratar.
Muitas pessoas não têm condições de pagar uma consultoria financeira, mas hoje existe muito conhecimento gratuito na internet: vídeos, perfis de profissionais nas redes sociais, palestras. Eu dou muita palestra pelo estado e vejo pouca adesão de poucas pessoas. Por quê? O assunto financeiro, por mais que todo mundo precise, é um dos assuntos que a gente ainda foge. A gente fala de política, discute vários temas, mas quando vai para o dinheiro ainda existe desconforto de achar que “a gente dá conta sozinho”. O primeiro passo é ter consciência, buscar conhecimento e entender que pedir ajuda encurta caminhos. O problema, às vezes pequeno, se torna gigante na mente da pessoa e ela fica tão envolvida emocionalmente que não consegue ver que tem saída.
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Você já atendeu algum caso em que ficou muito claro que a origem do endividamento estava em um transtorno mental ou em um comportamento compulsivo específico?
O último caso que eu peguei que assim, de fato, eu falo que a gente cria uma blindagem, eu tento não me envolver nos problemas dos meus clientes, mas foi um caso do jogo do Tigrinho. Eles são totalmente emocionais. Eu tive um cliente agora que, em três meses, conseguiu se endividar totalmente. Fora isso, ele pegou empréstimos consignados na folha de pagamento da empresa que ele trabalha, pediu dinheiro emprestado para a empresa, a empresa foi e forneceu, e ele teve que vender a própria casa para tentar não sujar o nome. Mas o fato mais emocional é porque ele tem ansiedade, jogava à noite, quando a esposa dele ia dormir. Ele ficava ali com a mente vagando, então entrava e jogava. E isso se repetiu por vários meses. Então são fatores muito emocionais e a consequência vai ser o financeiro.
Como fazer para construir uma "reserva de emergência" sendo que o brasileiro, no geral, não aprende desde cedo a cuidar e planejar com o próprio dinheiro?
Eu costumo falar que a gente tem sinais de que poderia ter sempre uma reserva de emergência. Por exemplo, quem é assalariado recebe o 13º salário, todos os anos. O que a gente faz com o 13º? Geralmente a gente gasta com coisas aleatórias. Ou eu recebo férias e vou lá e gasto esse dinheiro, ou muitas vezes eu tenho uma restituição de imposto de renda, eu vou lá e também gasto esse dinheiro. Então, se você pegar só os extras que entram, você já conseguiria formar sua reserva de emergência. Se você é autônomo e pega sua renda do último ano menor, qual foi o mês que você menos ganhou? “Ah, foi R$ 10 mil." Ok, então o seu custo de vida tem que ser de R$ 10 mil. Os meses em que você ganha R$ 12 mil, R$ 13 mil, R$ 15 mil, essa diferença você tem que guardar pra você montar sua reserva de emergência.
É possível começar a economizar com valores pequenos sem entender profundamente de investimentos?
Pode, e é o ideal. Precisa ser valor alto? Isso é uma crença gente. Comecem a guardar R$ 100. Se você guardar R$ 100 todos os meses, em um ano você tem R$ 1,2 miol. Então coloca numa “caixinha” em um banco virtual, ou coloca na poupança, não tem problema nenhum agora no começo. O seu principal objetivo é ter a disciplina de guardar dinheiro todos os meses e não a rentabilidade. A rentabilidade passa a ser em um segundo momento. O grande segredo do investimento é disciplina e constância.
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Jornalista Thalita Queiroz entrevista a consultora financeira Patricia Capitanio na sede do Portal Rdnews
Por que pedir descontos e pesquisar preços ainda é visto como algo negativo socialmente?
A gente vem atrelado às crenças. Fomos criados, desde lá na nossa infância, que a gente não quer ser o ruim, o vilão. Então, ao pedir desconto, eu tenho que ser insistente. Na nossa cabeça, a pessoa já tinha que me oferecer desconto. Só que não! É uma tática de negócio. Eu preciso sair do lado emocional e trazer para a razão. Se eu pedir desconto, quem vai ganhar sou eu. É um benefício pra mim, então eu vou pedir desconto. Hoje em dia ninguém vai ao supermercado mais pesquisar preço. A gente quer comodidade. Só que comodidade tem um custo financeiro. Eu desafio meus clientes. Eu falo: “Peça desconto a partir de hoje, todos os dias”. Tudo que você ganhar de desconto, sei lá, abasteci e ganhei desconto de R$ 5. Joga esses R$ 5 na poupança. Tudo que você ganhar de desconto, no mês inteiro, você aplica. Eu já fiz isso por vários meses. Dá R$ 200, R$ 300, dependendo do mês. Só dos pequenos descontos que você vai negociando.
Nós acabamos de ver o sorteio da Mega da Virada, que bateu recorde de apostadores, rendendo R$ 181 milhões aos ganhadores. Como interpretar o sonho de enriquecer pela loteria e a ideia de que “sorte é estratégia financeira”?
“Somos uma sociedade que quer buscar atalho. Por isso acreditamos em investimentos milagrosos e, com isso, muitas pessoas acabam caindo em fraudes ou acreditam devotamente na Mega Sena e em tantas outras coisas que podem facilitar nossa vida.”
Somos uma sociedade que quer buscar atalho. Por isso acreditamos em investimentos milagrosos e, com isso, muitas pessoas acabam caindo em fraudes ou acreditam devotamente na Mega Sena e em tantas outras coisas que podem facilitar nossa vida. De fato, sorte não é estratégia. A estratégia é você primeiro viver com menos do que você ganha. Se eu ganho R$ 5 mil, eu preciso viver com R$ 4 mil. Se eu ganho R$ 7 mil, eu preciso viver com R$ 6 mil. A gente precisa voltar no tempo e internalizar isso porque existem vários fatores que fogem da nossa alçada. Pedir desconto, pesquisar preço e aprender a falar não para compras aleatórias também são estratégias reais.
De que forma o “consumo por merecimento” pode se transformar em um problema financeiro recorrente?
Talvez isso seja um pouco difícil. Principalmente com relação a essa constância, porque parece que todo mês a gente tem uma emergência. Só que, na maioria das vezes, não é uma prioridade - e esse é o X da questão. Imprevistos vão acontecer, isso é um fato, mas eu preciso entender o que realmente é um imprevisto emergencial necessário, para aprender a dizer não quando nos deparamos com aquele que não é necessário. Um churrasco hoje, por exemplo, sai por R$ 50, R$ 100 em um único dia. Se eu começar a reduzir um desses momentos e guardar esse valor, eu já estou criando uma economia. A gente tem uma geração de 1980 pra cá que não quer passar vontade. Tudo que a gente vê, a gente acha jeito de ter naquele momento. Só que isso tem um custo financeiro. A gente utiliza muito o “eu mereço”, “se eu morrer amanhã eu não vou levar nada”, “é só R$ 20, é só R$ 10”, e isso são justificativas. Pensa o seguinte: a nossa mente tem consciência do que é certo e do que é errado, só que a justificativa vem pra explicar o motivos de fazermos determinadas coisas. Por exemplo, eu não preciso de uma roupa. Eu olho pro meu guarda-roupa, racionalmente tem um monte de roupas, só que quando eu passo na frente de uma loja, o que a minha mente fala? “Você trabalhou tanto, você merece. Ah, é só uma roupa”. Então a sua mente vai criar uma justificativa pra você comprar, e aí a gente precisa ser mais forte. É a mesma coisa quando você está fazendo uma dieta, vem alguém e oferece um doce, o que você tem que falar? Não! Então a vida financeira funciona da mesma forma. Quando você precisa economizar, você vai ter que falar alguns "nãos".
Qual é o principal conselho para sair definitivamente das ilusões financeiras?
Geralmente, quem tem sucesso financeiramente através do seu suor, pode ter certeza que são as pessoas que levam sua vida financeira mais equilibrada. Quem tem dinheiro não precisa mostrar, não sai gastando tudo o que tem, porque o que é mais importante é a conta bancária e o comportamento disciplinado. Comodidade custa caro e o dinheiro é emocional antes da matemática. Por exemplo, eu tinha uma dificuldade muito grande de falar não pra vendedoras de lojas que me mostravam roupa. Nossa, se ela tirasse um monte de roupa e me mostrasse, eu tinha dificuldade de falar não pra ela, porque, poxa, ela tirou tudo, olha o trabalho que ela teve. Mas não, está errado. Porque é a função dela tirar a roupa, dobrar a roupa, guardar a roupa, mostrar a roupa. É a função dela, da mesma forma que eu tenho as minhas funções no trabalho. Então eu preciso sair do lado emocional. Eu preciso trazer pra razão e acordar dessas ilusões financeiras.