Cuiabá, 18/09/2026

Cineasta expõe desafios para produzir em MT: A arte é 5% glamour e 95% trabalho

Juliana Segóvia fala sobre mudanças no mercado do audiovisual no estado, criação de curta premiado e defende necessidade de incentivos ao setor

Arquivo pessoal

Com múltiplas identidades, Juliana Segóvia, cineasta negra e lésbica, conversou com o #rdnews e mostrou as dificuldades em se fazer cinema em um estado rico, mas onde o investimento em cultura ainda é limitado. Mestre em Cultura Contemporânea e uma das fundadoras do Coletivo Quariterê, alcançou o posto de diretora mais premiada do estado com seu filme colaborativo “A Velhice Ilumina o Vento”. Dentre suas principais obras, destacam-se “Mansos”, “Benedita” e “Aqui Jaz a Melodia”. Na entrevista, Juliana destaca a mudança nas produções audiovisuais e o impacto de novas narrativas a partir da presença de profissionais negros no mercado de trabalho. A cineasta ainda chama atenção para um cenário que se preocupa com representações menos estigmatizadas e mostra o lado oculto de fazer cinema no estado.

Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista

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Divulgação

Juliana Segóvia durante a gravação de "Mansos"

A partir de qual ideia o Coletivo Quariterê surgiu?

Ele vai completar oito anos esse ano e surge a partir de uma perspectiva bem contra colonial, de lutar contra vários tipos de opressões, pensar também a questão da interseccionalidade.

E como você analisa o impacto do Quariterê hoje em dia?

Eu acho que um momento bem emblemático foi no ano passado. Eu nunca tinha visto a gente ser convidado tanto para estar em espaços, para dialogar, para fazer exibição. Eu fui o quanto eu pude, onde deu, porque a gente não tem tantas pernas e tantas pessoas para poder estar presentes nos espaços. Somos no máximo entre dez e doze. Dentre essas participações e esses convites, teve uma exibição no IFMT do filme Mansos, uns dois dias, com mais de 300 alunos. Eu acho que isso é muito emblemático, no nível quando a gente entende a responsabilidade de ser convidado para fazer exibição no filme e propor debate depois com esses alunos. Então, isso é uma resposta do que a gente tem significado.

Eu sinto que nós gostaríamos de ter mais projeção. Isso é óbvio, a gente tem um problema muito sério de comunicação, Instagram, Facebook, mas é muito difícil isso, porque demanda planejamento, demanda tempo. Eu sei que o dia que a gente conseguir se adequar na comunicação, a gente vai conseguir ter mais respaldo ao nível que eu digo de ficarem conhecidos tanto as nossas produções, quanto os editais que a gente vence.

Arquivo pessoal

Juliana Segóvia no set do filme "A Velhice Ilumina o Vento"

Seu curta-metragem "A Velhice Ilumina o Vento" já acumula 25 prêmios. A produção foi sua primeira direção fictícia e uma dentre as 11 mil propostas do país inteiro selecionadas pelo programa Rumos Itaú Cultural. Pensando a abordagem de subjetividades nessa obra, você acredita que há espaço para o consumo desse tipo de produção em Mato Grosso? 

 Eu acho que tudo está atrelado à educação. Então, quando a gente tem a Lei Federal 10.639/03, que implementou nas escolas o estudo sobre a influência dos países da África na nossa cultura, a gente tem uma lei que vai impactar no consumo de uma criança que vai se tornar adolescente, vai impactar diretamente no que escola vai estar ensinando e as perspectivas que envolvem raça, gênero, sexualidades e representações. Em muitas escolas, a gente [Coletivo Quariterê] tem feito um projeto de cineclubismo em aplicação agora no município, que vai tentar a captação de recursos para circular Mato Grosso, chamado "Cineclube Encruzilhada". Nasceu em 2018. E quando a gente vai fazer essas exibições, faz as que propõem debate. São filmes de cinema racializado e, quando uma criança vai levar essa discussão pra família, nem que seja algo simples, vai impactar futuramente na mentalidade dessa criança quando se tornar adulto. Eu cresci vendo Xuxa, era minha referência estética. E aí, quando você cresce tem uma distorção da própria imagem e isso vira um conflito muito grande. Então, eu acho que tem uma relação direta em relação à educação, à formação de público.

O filme começou a ser gravado em 2019, mas foi finalizado em 2022. Por que demorou? 

A gente gravou aos finais de semana porque a maioria das pessoas ainda eram CLT e parte da equipe era também. Foram uns cinco finais de semana sequenciais e não tínhamos recurso para fazer esse filme, foi colaborativo. O restante das pessoas foram convidadas dentro desse aspecto de gênero, sexualidade e raça. Houveram pessoas com experiência, mas a maioria sem. A gente gravou em 2019, e agora? Dinheiro para finalizar a pós-produção. A distribuição não é daqui porque ainda não tem uma distribuidora com a perspectiva que a gente acredita, então é lá do Pernambuco. Daí a ideia de se inscrever no Rumos Itaú Cultural. O projeto foi contemplado em 2019-2020, R$ 50 mil para essa finalização, foi dividido em seis meses e não tinha como mudar esse prazo, eu não tinha dinheiro pra pagar e queria que tivesse qualidade cinematográfica, que o filme tivesse esse lugar de poder circular nacionalmente, ser premiado, de valorizar a nossa equipe que trabalhou de modo colaborativo.

Divulgação

Valda, personagem do filme "A Velhice Ilumina o Vento", interpretada pela atriz Benedita Cândida

Qual o caminho percorrido até o filme conseguir ganhar reconhecimento e tantas premiações? 

As distribuidoras de curta-metragem no Brasil não são muitas. Temos vários estados, mas é porque o cenário de distribuição, onde o pessoal considera lucrativo mesmo, é o de longa-metragem. E é um mercado também avassalador. A Ana da Tarrafa, produtora e distribuidora, tem uma perspectiva parecida com a nossa [Coletivo Quariterê] de pensamento, de gestão, da distribuição dos filmes. Ela tem um arcabouço de entendimentos sobre festivais e mostras do Brasil, e não só redes cineclubistas e projetos sociais que fazem exibições em sistema prisional. Então, ela é uma pessoa que tem essa dimensão da distribuição não só pra inscrever em festivais grandes, mas ela tem um pensamento da distribuição de informação de público e da questão social. E aí, a gente conheceu ela, entrou em diálogo e descobrimos que ela estava alinhada totalmente com os nossos conceitos, nossa ideologia, nossa visão de mundo.

Mas a gente também teve a felicidade do curta ser bem aceito em festivais respaldados, como Tiradentes, né? A gente não teve muitas obras matogrossenses que foram exibidas em Tiradentes, em festivais. E quando você passa para um festival igual esse de Tiradentes, seu filme fica em outro patamar, a ponto que uma produtora assistiu, e quase que a Benedita Cândida [atriz que interpreta a Valda] entrou pro casting do Justiça 2 [série da Globoplay]. No final ela já estava praticamente contratada, mas não chamaram ela porque optaram por uma atriz que tinha um corpo mais robusto, por uma questão que a diretora deu preferência. E aí, teve Penedo também, um outro festival super respaldado nacionalmente. Significa muito quando o filme tem essa possibilidade de ir circulando nesses festivais, porque as pessoas vão conhecendo, isso vai transformando a questão das pessoas se identificarem com a narrativa, vai transformando a história. E aí, como ele já foi conhecido num festival, o outro festival vai falar: "Esse filme aqui passou no outro festival". Sem contar que teve essa lógica das premiações e muitas foram via júri popular, que eu acho o lugar mais interessante até que do que júri oficial, porque é o lugar que vira e fala assim: "A galera se identificou com a narrativa". 

Pedro Brites

Juliana Segóvia ao lado de Benedita Cândida, que interpreta Valda, após as gravações do filme em Cuiabá

Você disse que as pessoas se identificaram muito com o filme. Onde você acha, exatamente, que houve o despertar dessa identificação?

Em todos os momentos que eu tive a oportunidade de acompanhar as exibições, que foram muitas, alguém falava que lembra de uma avó, que lembra de uma tia, que lembra de uma vizinha, que lembra de alguém da família, enfim, um nível de parentesco, ou uma amiga, ou amiga da mãe, ou da própria mãe que vai em bailes, que vai dançar, ou o humor da mãe. Então, eu acho que a personagem que a Benedita interpreta, que é a Valda, é uma mulher brasileira que está em todo lugar. É que a gente não vê essa mulher brasileira representada nos cinemas, mas é uma mulher brasileira que a gente sabe das dores. No caso, a representação dela ali é da autoestima, da alegria. E a gente conhece pessoas assim, no cotidiano. A gente conhece essas personalidades, essas pessoas, que são a maior parte da nossa população. Enquanto pessoas negras habitando o estado de Mato Grosso, a cidade de Cuiabá, eu acho que está nesse lugar de identificação por representação mesmo.

Desde 2011, quando se formou na UFMT, quais mudanças enxerga no cenário da produção audiovisual em Mato Grosso?

São várias mudanças: o aspecto acadêmico, a implementação do curso de Cinema na Universidade Federal de Mato Grosso mudou muito. A implementação das cotas raciais, eu não peguei. Eu estava num mestrado quando começaram no Brasil. Eu fiz Comunicação Social com habilitação em Rádio e TV, e o número de pessoas negras era baixo. No curso de Comunicação, era uma maioria branca. E ter esse nível  de pessoas negras que hoje vejo dentro da universidade pública tem fortalecido a existência de novos coletivos, de grupos de pessoas que discutem não só o mercado de trabalho, mas a representação de mulheres, de pessoas negras LGBTQIAPN+, e também o nível de construção dessas narrativas, do que vai estar representado na tela. E outra alteração que eu vejo foi fundamentalmente os editais. De 2015 pra cá, a gente começou a ver um crescimento de editais públicos e a classe do audiovisual se movimentando e se articulando para conseguir se estruturar enquanto pessoas pra competir dentro desse universo, o que é uma expressão maior de nível de oportunidade, de acesso, mas que obviamente está longe de ser o ideal.

A gente está num estado muito conservador e as maiores verbas destinadas, seja por Município ou pelo Estado, são para os grandes sertanejos, que têm grandes incentivos, e a gente sabe que isso faz parte do projeto político de divulgação do próprio agronegócio

O que falta para Mato Grosso se transformar em um polo de produção audiovisual?

Eu acho que o estado do Mato Grosso é um dos únicos em que o imposto recolhido de empresas não é voltado para a cultura. Então, o Estado não tem essa consciência política de pensar os incentivos que envolvem o setor privado para além do público em questão de mão de obra. É justamente por não ter esse polo que não tem essa configuração de educação do nível social, do entendimento da importância dos projetos culturais artísticos. A gente está num estado muito conservador e as maiores verbas destinadas, seja por Município e pelo Estado, são para os grandes sertanejos, que têm grandes incentivos, e a gente sabe que isso faz parte do projeto político de divulgação do próprio agronegócio.

Aqui tem um aspecto nichado também, esses divulgadores do agronegócio através da arte. E aí eu acho que fica essa luta entre quem está adentrando o mercado de trabalho, vendo se vale a pena se manter nessa área porque é muito instável para quem é autônomo - que fica três, quatro meses trabalhando muito, mas acontece de ficar dois, três meses sem trabalho e aí tem que fazer uma salvaguarda de dinheiro. É um tipo de precarização da nossa existência enquanto profissionais. A gente consegue sobreviver e ter renda, mas é um lugar absolutamente instável. 

Existe outro caminho para a sobrevivência da produção audiovisual em Mato Grosso sem depender de editais?

Aqui em Mato Grosso não tem como depender de edital. Acho que, pra todo mundo, o edital vira um complemento de renda. Eu trabalho para editais que são aprovados, que às vezes são projetos que escrevi ou projetos de outras pessoas, mas presto serviço também para empresas de São Paulo. Muitas pessoas trabalham nesse universo do audiovisual prestando serviço para inúmeras instituições, entre públicas e privadas. Editais acabam sendo algo de complemento mesmo, não tem como sobreviver de edital, é impossível. 

Julia Muxfeldt

A criação da Lei Aldir Blanc em 2020 como uma medida emergencial para apoiar o setor cultural durante a pandemia - e que evoluiu para uma política nacional em 2022, com efeitos permanentes - conseguiu frear os impactos causados pela Covid-19?

Realmente foi um salvaguarda de sobrevivência para muita gente. Dentro da lógica do universo que eu atuo, eu me coloco como uma trabalhadora, não só uma artista que pensa só no criativo, porque a gente acaba ouvindo “amor à arte e tudo pela arte”, e não, é pelo contrário. A arte é trabalho também e quando a gente convive nesse meio do audiovisual, é muito trabalho: 5% glamour, 95% trabalho, muito suor, muita dor de cabeça, muito cansaço. Isso pra quem se dedica a entender a relevância do audiovisual e do cinema como uma grande responsabilidade. Pra quem entende, sabe que está na busca de construção de identidades mato-grossenses para acessar esse diálogo nacional, mas a gente ainda está num percurso de poder ter mais reconhecimento.