Especialista vê risco calculado em estratégia do Cuiabá para 2026
Após queda no Estadual e frustração na Série B, clube aposta em transparência e renovação para reorganizar o projeto esportivo
Rodinei Crescêncio
O Cuiabá começa 2026 pressionado após desempenho em campo abaixo, que acabou resultando na eliminação precoce no Campeonato Mato-grossense. Para o especialista Jenisson Bartniski, a sequência de resultados negativos quebra a recente hegemonia regional do clube e gera impacto esportivo e psicológico.
Em entrevista especial ao #rdnews, Bartniski avalia que a decisão da diretoria de usar elenco mais jovem no Estadual é estratégia comum, mas que exige equilíbrio para não afetar a competitividade. A postura do presidente ao assumir a responsabilidade é vista como sinal de transparência. Segundo ele, o momento pede reconstrução gradual para retomar a competitividade na Série B.
Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista
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O Cuiabá não conseguiu o acesso à Série A em 2025 e inicia 2026 sob forte pressão dentro de campo. Como você avalia o impacto esportivo e psicológico dessa frustração no planejamento atual do clube?
A frustração vivida pelo Cuiabá é significativa porque vai além de resultados isolados, ela representa a quebra de uma narrativa de hegemonia recente. A derrota para o Primavera na final de 2025 impediu o pentacampeonato estadual, somando-se ao desempenho abaixo do esperado na Série B e à eliminação precoce em 2026 diante do Sport Sinop. Esse conjunto de fatores gera impacto esportivo e psicológico simultâneo, aumentando a pressão interna por respostas rápidas, influenciando o planejamento e exigindo a reconstrução da confiança, tanto no elenco quanto na estrutura do clube.
A eliminação nas quartas de final do Campeonato Mato-grossense acende um sinal de alerta ou pode ser relativizada dentro do contexto apresentado pela diretoria?
É possível sustentar o discurso de que o campeonato estadual tem peso reduzido dentro de um planejamento nacional. Porém, para um clube do porte do Cuiabá, que construiu sua identidade recente também a partir do domínio local, essa competição funciona como termômetro de organização, confiança e continuidade técnica. Nesse sentido, a combinação das frustrações reforça a percepção de um ciclo que precisa ser revisto, não apenas em termos de elenco ou estratégia.
AssCom Dourado
O presidente Cristiano Dresch afirmou que a eliminação não foi um acidente, mas consequência de uma decisão administrativa. Na sua visão, assumir publicamente essa estratégia fortalece ou fragiliza o clube institucionalmente?
É positivo que Cristiano Dresch tenha assumido publicamente essa leitura, pois o posicionamento tende a proteger jogadores e comissão técnica de críticas diretas, centralizando a responsabilidade na gestão. Esse tipo de postura é coerente com o perfil do dirigente, marcado por declarações firmes e autocríticas. Nesse contexto, a estratégia não necessariamente fragiliza o clube, ao contrário, pode transmitir transparência e liderança, desde que seja acompanhada de ações práticas que sustentem o discurso.
Disputar o Estadual com elenco de custo reduzido, priorizando atletas da base e jogadores em retomada física, é uma estratégia comum no futebol brasileiro? Ela costuma trazer resultados no médio prazo?
Essa estratégia é relativamente comum, e tende a se intensificar com as recentes mudanças no calendário do futebol brasileiro, que antecipam o início das competições estaduais. Alguns clubes já adotam esse modelo há anos, como o Athletico Paranaense, que utiliza a base como parte estruturante do planejamento, prática inclusive elogiada por Cristiano Dresch. Em termos de resultados, há casos pontuais de sucesso, mas o cenário brasileiro mostra que a valorização e a venda precoce de jovens atletas tornam o processo instável. Assim, o retorno no médio prazo depende menos da fórmula em si e mais da consistência do projeto esportivo.
Dresch revelou que o clube investiu cerca de R$ 30 milhões nos últimos anos na formação de atletas e que era necessário dar rodagem aos jovens. No seu ponto de vista, esse investimento justifica a utilização do Campeonato Estadual como laboratório? Até que ponto essa aposta pode comprometer a competitividade?
Utilizar o Campeonato Estadual como espaço de testes pode ser uma estratégia válida, sobretudo quando há investimento consistente na formação. No entanto, é fundamental que o elenco mantenha um núcleo de jogadores experientes, capazes de dar equilíbrio competitivo e orientar os mais jovens em diferentes momentos da partida. O ponto central é o alinhamento entre planejamento e comunicação. É importante que o clube, como o Cuiabá, apresente um discurso claro à torcida sobre os objetivos na competição. Se a proposta é desenvolver atletas, isso precisa ser explicitado para ajustar expectativas e permitir que os jovens atuem com maior compreensão do processo. O risco à competitividade existe, mas tende a ser mitigado quando há equilíbrio entre formação, experiência e transparência institucional.
Como você avalia a comunicação do presidente ao assumir a responsabilidade? Transparência nesse momento ajuda a conter a crise ou pode ampliar a pressão sobre jogadores e comissão técnica?
A postura de Cristiano Dresch segue a mesma linha que ele já demonstrou em outras oportunidades, centralizar a responsabilidade como forma de blindagem. Esse tipo de comunicação tende a conter parte da crise no curto prazo, porque sinaliza liderança, algo que reduz a personalização das críticas dentro do elenco. Ao mesmo tempo, a transparência aumenta o nível de cobrança sobre a gestão, o que é natural quando o dirigente assume publicamente a estratégia adotada. O efeito prático depende do que vem depois do discurso: se houver alinhamento entre fala e ação, a comunicação fortalece a percepção institucional, caso contrário, pode ampliar a pressão.
O fracasso no acesso à Série A e a eliminação precoce no Estadual podem afetar o ambiente interno do clube e o relacionamento com a torcida?
Os resultados recentes tendem a impactar o ambiente interno e a relação com a torcida porque mexem com expectativas construídas ao longo do crescimento do Cuiabá. Desde a fundação, o clube viveu uma trajetória de ascensão acelerada e conquistas que culminaram na presença na elite nacional, o que elevou o padrão de cobrança. O torcedor, naturalmente passional, sente essas oscilações, mas isso não significa abandono. Cabe ao clube transformar o momento de frustração em oportunidade de aproximação, investindo em comunicação, ações de fidelização e experiências que mantenham o torcedor engajado. Quando há transparência, a pressão tende a se converter em apoio, ajudando a sustentar o ambiente interno durante a reconstrução esportiva.
A aposta na base pode representar um novo ciclo para o Cuiabá ou indica uma necessidade financeira após a não subida para a elite nacional?
A permanência na Série B naturalmente reduz receitas, mas o Cuiabá tem histórico de gestão com política de “pés no chão”, evitando movimentos financeiros arriscados. Nesse cenário, apostar na base cumpre um papel duplo: é ao mesmo tempo estratégia esportiva e mecanismo de sustentabilidade econômica. Além de favorecer a renovação do elenco, a formação pode gerar ativos relevantes, como ocorreu com o lateral esquerdo Rikelme, cuja negociação se tornou a maior venda da história do clube. Assim, mais do que uma reação pontual à perda de receita, a aposta na base sinaliza um possível novo ciclo, alinhando desenvolvimento técnico e equilíbrio financeiro.
AssCom Dourado
Em termos de gestão esportiva, o Cuiabá está assumindo um risco calculado ou pode estar entrando em um processo de instabilidade mais profunda?
O cenário aponta mais para um risco calculado do que para uma instabilidade estrutural. As derrotas foram sentidas, mas fazem parte de um momento de reformulação. O ponto central é a capacidade de reação do Cuiabá. O desempenho no Campeonato Estadual evidenciou limites do elenco utilizado, indicando que ajustes são necessários para competir em torneios nacionais. Se a reformulação for rápida e bem executada, o risco tende a se manter dentro de um planejamento, caso contrário, pode prolongar a fase de instabilidade esportiva.
Olhando para o restante da temporada, qual deve ser a prioridade do clube agora. Reconstrução gradual, resultado imediato ou consolidação de um projeto de longo prazo?
Mesmo com a eliminação para o Sport Sinop, a temporada ainda está no início, e o calendário reserva competições centrais para o Cuiabá Esporte Clube, como a Copa do Brasil e a Série B. Nesse contexto, priorizar apenas o resultado imediato tende a ser uma escolha limitada. O cenário indica a necessidade de reconstrução gradual, com ajustes estruturais que permitam consolidar um projeto sustentável. A reformulação exige tempo, integração do elenco e clareza de objetivos, elementos fundamentais para que, no médio prazo, o clube retome competitividade sem renunciar ao planejamento de longo alcance.