Cuiabá, 03/11/2026

Há 35 anos revelando atletas, Profeta relembra carreira e cita dificuldades

Há 17 anos, Profeta é responsável em ajudar crianças a realizar sonho de jogar futebol

Arte/Rodinei Crescêncio

Conhecido nacionalmente por revelar jogadores de futebol, Carlos Roberto Cabral da Silva, o Profeta, segue há 35 anos com a missão de ajudar crianças a realizarem sonhos na vida profissional e a trilharem em bons caminhos para se tornarem seres humanos do bem. Profeta é responsável por descobrir grandes nomes no mercado da bola, como por exemplo dos mato-grossenses Brenner, do FC Cincinnati, Vitor Leque, do Cruzeiro,  Walce, do São Paulo, Luiz Eduardo, o Cuiabano, que está no Grêmio, José Wellington, do Flamengo, entre outros. Apesar das muitas dificuldades durante a sua trajetória à frente da Associação do Pessoal da Caixa Econômica (APCEF), o professor quer continuar realizando o seu trabalho para que mais jogadores tenham sucesso no mundo da bola. Em entrevista exclusiva ao #Rdnews, Carlos Cabral falou sobre a sua trajetória sob o comando da garotada, explicou como surgiu o apelido "Profeta", e revelou o que te motivou em ajudar a desenvolver o futebol nas pessoas. O técnico lembrou ainda das suas maiores revelações no mercado, pediu mais atenção do Poder Público aos projetos filantrópicos e destacou o dia a dia com os meninos na Escolinha do Profeta.

Arquivo Pessoal

Como surgiu o apelido Profeta?

Quando eu vim de Goiás para cá para trazer um membro da família que iria ficar aqui em Cuiabá, e quando eu estava voltando para Goiânia me deparei com um quadro de meninos dormindo em pontos de ônibus, se drogando com esmalte, cola de sapato. Foi ali que eu resolvi não voltar mais para Goiás, pedi ao juiz a autorização e abri uma casa no bairro Boa Esperança para acolher alguns desses meninos que dormiam na rua. Comecei a fazer esse trabalho e logo juntei um grupo de pessoas e nos oferecíamos um arroz com galinha lá na Catedral de Cuiabá. Naquela época tinha uma polícia chamada Sara nas proximidades da igreja, que era muito brava. Eu estava lá fazendo o trabalho de alimentação e palestras com eles e falei para a polícia que não ia levar nenhum deles, ou levasse eu junto. Na ocasião estava tocando uma música do padre Zezinho na igreja, onde falava as seguintes palavras: “grita profeta, reclama, reclama, justiça". Um dos meninos olhou para mim e falou: “oh, a partir de hoje seu apelido vai ser profeta”. A polícia não levou ninguém e os meninos ficaram com a gente.

O que te motivou a ajudar a desenvolver o futebol da garotada?

O que me motivou, trabalhando com meninos de rua, eu percebi que era muito difícil o retorno deles para casa. Eu analisei que seria muito importante fazer um trabalho nas comunidades, é nada melhor do que o esporte, que é um instrumento de socialização para ensinar jovens e adolescentes.

Quem são as suas maiores revelações no futebol

Eu tenho um que saiu há muito tempo de Mato Grosso, chamado Milson, foi pro Botafogo do Rio (RJ) e foi campeão junto com o Bebeto. Hoje ele tem um trabalho com atletas fora do mercado de trabalho. Temos outros com maiores evidências, como o Brenner, que está no Cinsutec, Vitor Leque, do Cruzeiro, Walce, que joga no São Paulo, temos o Zé Welligton, que está no Flamengo, entre outros nomes importantes. Temos muitos jogadores que estão no mercado nacional e internacional que começaram no projeto social da Escolinha do Profeta.

“O segredo é acreditar no ser humano e amar aquilo que você faz”

Profeta

Qual é o segredo para revelar jogadores como por exemplo o Brenner, Walce, Vitor Leque?

Não existe segredo. Existe valorizar as potencialidades, ou seja, toda criança tem uma potencialidade, como a gente trabalha com o futebol, percebemos que essas crianças tem algo diferente. Todo começo é a família, e nos encontramos muitas famílias arrebentadas, sem informações. Nós amamos muito essa criança que chega lá com essas dificuldades. Todo este trabalho nosso é voluntário, não ganhamos nenhum centavo com isso, a gente ganha de Deus, a retribuição de ver tantos talentos mudando a história de vida da família deles. O segredo é acreditar no ser humano e amar aquilo que você faz.

Arquivo Pessoal

““Sou um milagre de Deus, porque eu tenho poliomielite, paralisia infantil, eu fiquei 6 anos no hospital fazendo várias cirurgias””

Profeta

Passou por algum momento difícil na sua profissão?

Eu sou um milagre de Deus, porque eu tenho poliomielite, paralisia infantil, eu fiquei 6 anos no hospital fazendo várias cirurgias. Eu tive ajuda de muitas pessoas, então o que eu faço hoje é uma retribuição do que eu tive no passado. Atualmente, passo por um momento difícil com a minha saúde, ano passado comecei a sentir tontura na beira do campo, quando fui fazer alguns exames e percebi que na gestação da minha mãe, eu fui gerado com um problema no coração e vou precisar fazer uma cirurgia. Depois disso eu fui para Curitiba fazer um cateterismo a fim de saber a gravidade. Agora devo passar por essa cirurgia para tapar esse “buraco”, porque ele pode ocasionar outro problema sério no futuro e eu posso não ter força para fazer o procedimento.

Como a escolinha sobrevive?

As mesmas dificuldades que nós tivemos no passado continuamos tendo hoje. O Poder Público e o município não abraçam os projetos filantrópicos, hoje quem abraça são as pessoas abnegadas, que veem a importância de estender as mãos para essa ferramenta esporte. Nós temos dificuldades desde materiais escolares até o lanche, além do local para trabalhar. As pessoas filantrópicas nos dias atuais são guerreiras, porque continuam com as mesmas dificuldades do passado.

Como você analisa o apoio do Governo a esses atletas da base?

Parece que hoje existe alguma iniciativa, mas isso no passado nunca existiu. Pra ter uma ideia, se eu quiser mandar um menino para fazer um teste no Rio de Janeiro, a gente tem que está pedindo recursos através de rifas entre outros meios. Muitas vezes a família do atleta não tem condições para pagar a passagem. Hoje se o atleta não se mobilizar para conseguir os recursos, ele não sai daqui. É bom lembrar que o maior PIB da Federação é o Mato Grosso. Isso é uma vergonha.

Como é a sua relação hoje com os meninos no dia a dia na escolinha?

A nossa relação é de muita confiabilidade e amizade. Conseguimos trabalhar alguns assuntos com uma profundidade muito grande sobre a formação deles. Essa confiança que eles depositam em nós, dá a oportunidade de passar experiências que a vida nos deu, para que eles possam crescer e tornar grandes cidadãos e sendo pessoas do bem que vão somar muito com o estado e o município.

Arquivo Pessoal

Quantos alunos estão inscritos no projeto atualmente? Quem pode se inscrever?

Hoje nós temos 250 alunos inscritos, mas estamos atendendo quase 300 inscrições. Tenho mais 250 em outro projeto do bairro Pedra 90. Qualquer criança entre 5 a 16 anos podem nos procurar para entrar para a escolinha.

No seu ponto de vista, além da carreira profissional, o que mais o esporte representa na vida desses meninos?

O esporte hoje representa tudo. De maior dificuldade ou vulnerabilidade, o esporte preenche a lacuna da ociosidade. O esporte é o remédio dado na hora certa, que faz a diferença na vida dessas crianças.

Qual o sentimento de ver o seu trabalho dando fruto na vida de tanta gente?

O nosso trabalho tem um sentimento de muita gratidão. Estou simplesmente retribuindo o que recebi no passado. É muita felicidade saber que através de uma iniciativa de um grupo de pessoas, você se transforma um ser humano. Isso é muito lindo.

Arquivo Pessoal

Sabemos que existem vários momentos marcantes durante a sua trajetória nesse projeto. Gostaria de compartilhar algum momento que mais marcou a sua vida?

No período que a gente tinha junto com a pastoral do menor, tinha o Centro do Pequeno Trabalhador, onde nós recebíamos os meninos de rua e lá havia um restaurante, que nós oferecíamos o almoço para eles. Quando você vê um menino desse que estava na rua roubando, fumando droga, e agora trabalhando, ganhando seu sustento com honestidade, isso é muito gratificante. Quando vemos um menino chegando no Clube da Caixa, dizendo que não tem nenhum sacolão de cesta básica em casa, e depois vemos o sucesso desse atleta no futebol, isso também é uma gratificação enorme para todos nós, não tem preço.

Qual conselho você deixa para quem tem o sonho de seguir carreira de jogador?

É muito bom sonhar, mas é mais lindo realizar. Não desista do seu sonho, acredite em você. O maior vencedor de você, é você mesmo. Pessoa que vai fortalecer aquilo que já existe dentro de você, que é ser vencedor.