Hélio relembra trajetória nos clubes e é saudoso do futebol de antigamente
Marcado na história do futebol de MT, Hélio se diz torcedor do Mixto, Operário e Dom Bosco, mas confessa: ainda não consigo torcer para o Cuiabá
Arte: Rodinei Crescêncio
Nascido em 15 agosto 1945, no interior de São Paulo, Hélio Machado caminhou desde cedo no mundo esportivo. Aos 8 anos, ganhou a sua primeira chuteira para iniciar uma história marcante no futebol. Aos 17, veio a sua primeira conquista na carreira de jogador, o primeiro contrato profissional. A oportunidade surgiu no Fernandópolis Futebol Clube, onde jogou por muito tempo e conquistou quatro títulos com o time paulista. Mais tarde, aos 27 anos, decidiu parar a carreira de atleta e dar lugar a novos rumos em sua vida. O amor pelo esporte está no sangue, isso porque Machado não ficou longe dos gramados. Após pendurar as chuteiras, se formou em Educação Física, fez um curso de técnico de futebol, e mudou-se para Mato Grosso, onde fez o seu primeiro trabalho no estado como treinador no time do Piriquito do Porto, em 1974.
Em entrevista especial ao #rdnews, o ex-jogador relembrou a sua trajetória no futebol, falou da sua chegada a Mato Grosso e revelou momentos marcantes durante as passagens pelo Mixto, Dom Bosco e Operário-VG. Dentre as três equipes que trabalhou no estado, o Mixto foi o time que mais marcou a sua carreira de treinador, isso porque também atuou como presidente do clube e contribuiu para o desenvolvimento do Tigre da Vargas.
Veja, abaixo, principais trechos da entrevista
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Como surgiu o amor pelo futebol e como foi a sua trajetória nesse esporte?
A minha primeira chuteira eu ganhei aos 8 anos de idade, nunca esqueço nem a marca, que foi da Gaeta. Comecei a dar os meus primeiros chutes em uma cidade do interior de São Paulo, chamada Populina, era um esporte amador, depois mudamos para Fernandópolis, onde iniciei a minha carreira profissional. Aos 17 anos assinei o meu primeiro contrato com o Fernandópolis Futebol Clube, joguei lá por alguns anos, quando tive várias oportunidades de sair para outros times, mas não quis porque o futebol naquele tempo tinha pouquíssimos jogadores que ganhavam bem. Eu sempre trabalhando e estudando, optei por não seguir carreira no futebol. Aos 27 anos desisti de uma vez do futebol como jogador. Me formei em Educação física e me mudei para Mato Grosso. Vim ocupar um cargo bom no Estado. Entrei com muita coragem. Comecei a trabalhar com o Esporte estudantil. Jogando em algumas peladas por aí, o finado Delis de Oliveira me viu jogando e me convidou para ir treinar no Palmeiras do Porto. Como o time não tinha uma organização, acabei assumindo o clube montamos um bom time como dirigente. Em certo momento, o técnico do Palmeiras caiu e decidiram me colocar como treinador da equipe. A partir daí minha carreira não parou mais.
Rodinei Crescêncio
Jogava em qual posição?
Ponta de lança. Essa posição era conhecida na época por atuar ao lado do centroavante .
Como era futebol na época em que você jogava. Mudou muita coisa dos dias atuais?
Quando eu jogava era um futebol, iminentemente amador. Esse amador que eu falo é jogar por amor pela camisa. Não era um unha inflamada, ou um cabelo arrancado que iria fazer o jogador ficar fora do jogo. Ao contrário de hoje, dor de barriga ou de cabeça tira um jogador de campo. Eu jogava com muito amor, era um futebol aguerrido, e isso não significa que tinha mais craques, mas eles apareciam porque existiam poucos times que disputavam os melhores atletas. O futebol mato-grossense no período de 70, 80, não perdia para ninguém, tinha times que disputavam com outras equipes dos grandes centros quase no mesmo nível. Nós tivemos a oportunidade de participar desse período bom do nosso futebol.
O que te motivou a vir embora para Mato Grosso? Como foi a sua chegada aqui?
Na verdade eu vim para Mato Grosso através de uma ocasionalidade. Eu vim participar de um casamento, em Rondonópolis, e de lá me dirigi até Cuiabá para tentar um emprego para minha irmã. Na época eu conversei com o secretário de Educação do Estado, Joaquim Viana, e ele me fez um convite para ser diretor da pasta de Esportes. Eu aceitei o convite na hora.
Passou por dificuldades na carreira?
Trabalhando como técnico em uma cultura totalmente diferente, amadoristicamente falando, onde os dirigentes eram abnegados, mas não eram profissionais de futebol, então a gente tinha que contornar muito a situação. Não tinha um diretoria formada como é hoje, que tem diretor de marketing, financeiro, naquele tempo era presidente e tesoureiro. As dificuldades que a gente tinha eram principalmente em termos que estrutura. Os times de Cuiabá, nenhum tinha campo de futebol. Às vezes eu carregava os nossos jogadores em uma caminhonete procurando um campo para treinar. Uma outra dificuldade que tinha e que existe até hoje, era a parte financeira, porque nem sempre os pagamentos saiam em dia. Tínhamos que contornar essa situação. Hoje, quando o jogador fica com o salário atrasado, já faz uma onda e a imprensa já vem em cima. [Emocionou] Graças a Deus, com esse meu comportamento, me sinto reconhecido…por muitos atletas, que hoje me consideram. Me ligam, mandam mensagens perguntando como estou, querem saber quando vou voltar para o futebol. Tudo isso porque eu sempre tive essa preocupação. O que eu nunca quis para mim, nunca queria para eles também.
Tem quantos filhos? Alguém da família seguiu os seus passos no mundo da bola?
Não. O meu filho caçula até poderia conseguir alguma coisa no futebol, se tivesse vontade, porque ele sabia jogar. Já o Hélio não era muito bom [risos]. Mas o fato do Marquinhos ser filho de um técnico de futebol, dificultava para ele, porque onde ele treinava, algumas pessoas falaram que ele jogava porque era filho de treinador. Isso o aborreceu e ele desistiu do futebol. Hoje é advogado, assim como o Hélio. Nenhum deles iriam chegar a ser um Hélio Machado no futebol.
Teve um período que você deu uma pausa do futebol, mas depois voltou como presidente do Mixto. Como foi esse momento da sua carreira?
Arquivo Pessoal
Eu me afastei em 83, quando o presidente do Mixto chegou até a mim para falar de uma situação do clube. Eu já era tetracampeão no time, decidi me afastar do Mixto. Eu já sabia que nós não íamos ganhar o estadual. Se eu vou começar um campeonato sabendo que não vou disputar o título, é claro que não vou seguir no comando. Fiquei fora, mas por pouco tempo. O Dom Bosco me contratou para o Campeonato Brasileiro, terminou 83 e voltei para o Mixto. Depois, fiquei um tempo afastado novamente, mas voltei em 87, quando o Orlando Prass assumiu o Mixto com a condição de que eu voltasse para a diretoria do clube. Eu era um faz tudo. Com o futebol no sangue, voltei para a dirigência do Mixto, e fui assistir o primeiro jogo justamente contra o Dom Bosco. Mixto me perde o jogo e o técnico entrega o cargo. Orlando Prass pediu para eu assumir a função só até o restante do campeonato, o que não aconteceu.
Em 89 houve um desgaste entre eu e ele, quando resolvi deixar o Mixto. Sai após ser campeão pelo clube em 88. Em 89, voltei para o Dom Bosco, quando fomos vice-campeão perdendo para o Mixto. Um fato curioso é que o goleiro titular do Mixto no ano anterior era o Éderson, ídolo da torcida mixtense, e o Niquita era banco. O Éderson se machucou e eu coloquei o Niquita pra jogar, e no último jogo do campeonato, o Éderson queria jogar. Coloquei o Niquita pra jogar. No ano seguinte, ele de volta ao Mixto, foi o melhor nome em campo, quando pegou até pensamento e nós perdemos um jogo por 1 a 0. Em 94, eu voltei para o futebol, quando treinei o Dom Bosco no último grande campeonato do estado.
Teve um momento que você ficou meio revoltado com a diretoria mixtense sob comando de Eder Moraes e foi trabalhar no Operário várzea-grandense. O que aconteceu naquela época que te aborreceu?
Em 2011, fui convidado para ser presidente do Mixto. Na verdade eu queria o técnico e não dirigente. Pegamos um Mixto sem campo para treinar, não tinha jogadores, não tinha uniformes e nada x nada. Assumi o time com quase R$ 2 milhões de dívidas, mas encaramos as dificuldades. Montamos um time e no ano seguinte fomos campeões da Taça Governador e vice-campeão do estado. Em seguida, houve um movimento da Torcida Boca Suja, juntamente com Eder Moraes, para obrigar eu renunciar à presidência do clube. Me convenceram a renunciar porque o Eder Moraes iria voltar para o comando. Pra mim ele já estava dentro, porque havia assumido a parte financeira do time e não honrou os compromissos assumidos.
“Uma coisa que eu tenho preocupado bastante é o comportamento dos torcedores, que vão ao estádio e querem que o time deles ganhem de qualquer maneira. Quando eu não estava trabalhando, eu ia ao estádio para ver um bom futebol e que vencesse o melhor”
Em 2013, eu alertei sobre a história dele dentro do clube. Resolvi entregar o cargo e disse que não queria mais saber de futebol. César Gaúcho, presidente do Operário-VG, foi me procurar para ser diretor de futebol dele. Desde então, falei que não assumiria porque tinha acabado de deixar o comando do Mixto. Essa negociação foi a mais demorada que eu tive dentro do futebol. Como eu vinha pagando uma dívida no Mixto, ele me ofereceu um salário que dava pra eu pagar todo o mês o que eu estava devendo. Dia 22 de dezembro, eu acertei com ele, mas pedi para que não divulgasse nada na imprensa porque eu tinha um compromisso com a família no fim do ano. Eu na praia, meia-noite, tocou o meu celular, com alguém me xingando porque eu tinha ido para o Operário-VG.
Dia 10, eu cheguei e fui apresentado no clube. Na apresentação, eu falei que não vim para ganhar do Mixto, mas sim para ajudar o Operário a classificar para a Série D. Se pra isso acontecer precisasse ganhar do Mixto, tudo bem. Mas se nós perder para eles e classificar para a competição, o nosso objetivo estava alcançado. Graças a Deus, nós classificamos para a Série D e infelizmente o Mixto não classificou para nada. De lá para cá, o time está onde está depois da minha saída. É bom deixar registrado que eu deixei o Mixto na Série D, com duas Copas Brasil e uma Copa Governador.
Eu não sai do Mixto, me obrigaram a renunciar porque iriam pagar as dívidas do clube. A única pessoa que cumpriu com o combinado chama-se Dezinho, que era presidente da Boca Suja, e tinha uma dívida que não podia deixar de ser paga. Ele honrou. Os demais não fizeram nada.
Torce para qual time em MT?
Eu torço para os três: Mixto, Operário-VG e Dom Bosco. Não consigo ainda torcer para o Cuiabá. Mas eu torço para que ele ganhe os jogos para permanecer na Série A, mas ainda não sou torcedor do time. Se eu for ver Operário x Cuiabá, eu vou torcer para o Operário. A mesma coisa queria se fosse contra o Mixto, porque eu tenho uma ligação muito grande com o time. A torcida também me relaciona muito com o Mixto, fala que eu. Sou mixtense. Apesar do forte ligamento com o Tigre da Vargas, eu também torço para a evolução do Dom Bosco e Operário várzea-grandense.
Qual a sua visão do futuro do futebol mato-grossense?
O nosso futebol só voltará a ser forte, com Mixto Operário e Dom Bosco fortes. Só com o Cuiabá nós seremos fragilizados. Nos últimos 10 anos só dá o Cuiabá, então as crianças de hoje em dia vão torcer para eles, porque não ouvem falar do Mixto e Dom Bosco campeões. Parabéns aos dirigentes do Dourado que montaram um bom time, com uma estrutura muito boa. Infelizmente o Mixto ainda não tem essa estrutura que tem o Cuiabá. Hoje vai mais gente no Dutrinha torcer mesmo para o Mixto, do que vai na Arena Pantanal torcer pelo Cuiabá. Essa é uma torcida fiel, mas nós não podemos esquecer que estamos envelhecidos. Nossa torcida está envelhecendo. Hoje eu tenho netos que já falam no Cuiabá, então se o Operário, Dom Bosco e Mixto não se fortalecerem rapidamente, dentro de pouco tempo nós vamos estar esquecidos, enquanto o Cuiabá vai tomar conta, porque eles têm estrutura, e isso faz com que ele permaneça na elite do futebol. Não vão cair nunca para a Série C, a não ser que os Dreschs larguem mão do time. O Mixto está aí com novos dirigentes, assim como o Operário também, vou torcer para que o Dom Bosco também arrume isso para o nosso futebol voltar a ficar forte, como já foi respeitado em todo o Brasil. Qualquer lugar que você fosse do Brasil o pessoal conhecia os times aqui de Cuiabá, principalmente o Mixto, que era o mais reconhecido nacionalmente.
Com experiências de sobra, quais conselhos você deixa para os amantes do futebol?
Uma coisa que eu tenho preocupado bastante é o comportamento dos torcedores, que vão ao estádio e querem que o time deles ganhem de qualquer maneira. Quando eu não estava trabalhando, eu ia ao estádio para ver um bom futebol e que vencesse o melhor. Hoje, muitas vezes, passamos dos limites da racionalidade. Quando você agride um jogador de cor, é uma imbecilidade. Meu sentimento é ir para o estádio para ver um bom espetáculo. Ninguém erra por querer, nós temos que se conscientizar ao adversário. Reconhecer que no jogo deve vencer o melhor. O respeito em relação ao torcedor, equipe, jogador, é muito importante.
Rodinei Crescêncio
Considerações finais
Eu trabalhei com alguns dirigentes que perderam até família por se dedicar tanto ao futebol. Foram momentos que eu presenciei de presidentes vendendo propriedades, bens, móveis, para honrar compromissos. Esses momentos me marcaram muito, de ver treinador se humilhar pedindo para jogador jogar. Eu queria destacar que não se tem mais futebol com amor, hoje se faz futebol com profissionalismo. O sentimento tem que estar de lado e a razão tem que sobrepor o amor. Essas situações a gente não conseguia separar lá atrás. Eu dava a vida para os times. Hoje, o nosso futebol só se fala em dinheiro. Eu, particularmente, não tenho mais aquela alegria de antigamente pelo futebol, sou corintiano, assistido os jogos para ver o que vai acontecer.