Medalhista olímpico fez sucesso no atletismo e hoje toca projeto em MT
Prata nos Jogos Olímpicos de Sidney 2000 e bronze em Pequim 2008, Vicente Lenílson conta sua trajetória
Arte/Rodinei Crescêncio
Vicente Lenílson, de 44 anos, é um ex-mecânico que trabalhava com motocicletas em Currais Novos, no Rio Grande do Norte. O ex-atleta começou a correr após perder o emprego, aos seus 17 anos. O potiguar competiu com três gerações de velocistas brasileiros, onde tem duas medalhas olímpicas, uma em Mundial e duas em Pan-Americanos conquistadas com o revezamento 4x100 m. Em entrevista exclusiva ao #rdnews, o velocista contou como surgiu a paixão pelo esporte, falou das dificuldades na carreira e expressou o que as suas conquistas representam na sua vida. Vicente também frisou o motivo de encerrar a carreira aos 34 anos de idade, além de destacar o projeto que hoje coordena na capital mato-grossense. Por fim, Lenílson pediu mais atenção do poder público às categorias de base e aconselhou crianças e jovens que desejam ser atletas olímpicos.
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Confira os principais trechos da entrevista:
Como surgiu a vontade de praticar atletismo e quando percebeu que podia alcançar um nível profissional?
Comecei a praticar atletismo já tarde, com meus 17 anos, onde fui assistir um treino de futebol na minha cidade de Currais Novos e vi um garoto fazendo uma corrida de 200 metros. Foi quando eu vi que ele era extremamente rápido em relação aos jogadores que estavam em campo e me deu uma certa curiosidade para saber como se iniciava no atletismo.
Como foi o início da sua carreira em Currais Novos? Teve dificuldades?
O atletismo sempre tem dificuldades, na época eu era uma criança simples, com pouco recurso financeiro, onde meus pais e amigos tinham que ajudar para manter os meus treinamentos, para a viagem de alguma competição, até quando veio o meu primeiro patrocinador, que foi um cliente da oficina de moto onde eu trabalhava, que era um profissional público e acabou bancando essas viagens. Foi assim que eu comecei a minha vida, e logo em seguida, houve alguns convites para alguns clubes no estado do Rio de Janeiro, onde eu percebi que era aquilo ali que poderia mudar a minha vida.
Rodinei Crescêncio
Como era a sua vida antes de entrar para o atletismo? Trabalhava em qual área?
Eu era um garoto que, infelizmente, isso não é bom falar, não gostava muito de estudar [risos], e o esporte foi tão bom que reverteu isso, mas eu era uma pessoa que estudava e trabalhava em uma oficina mecânica de moto, e antes de eu conhecer o atletismo, apenas trabalhava durante o dia e estudava a noite.
Prata nos Jogos Olímpicos de Sidney 2000 e bronze em Pequim 2008, no revezamento 4x100m, o que essas conquistas representam na sua vida?
“São duas medalhas que na somatória mudaram toda a trajetória da minha vida”
Elas representam uma parte da minha história. A minha história não está pautada apenas nessas duas medalhas, mas sim desde a minha primeira medalha nos Jogos Escolares até a minha última no encerramento da minha carreira. É sempre bom você estar em um cenário de medalhistas olímpicos, agora recentemente, eu estava em um congresso olímpico em Salvador, e houve ali uma brincadeira de quem tinha mais medalha, então eu estava no cenário de quem tinha duas medalhas olímpicas e pouquíssimos atletas estavam nessa condição. Então são duas medalhas que na somatória, mudaram toda a trajetória da minha vida.
Qual foi a melhor parte da sua vida como atleta profissional? Qual foi a sua maior conquista?
A melhor parte da minha vida é a que estou hoje como atleta profissional, usando uma parte do meu nome de medalhista olímpico para oportunizar aproximadamente 150 jovens através do Instituto Vicente Lenílson. Se eu não tivesse tido o êxito no esporte, não teria tido tanta facilidade de retribuir para o programa. As duas medalhas olímpicas não tem como negar que não são. Eu sou um dos atletas que mais foi convocado pela Seleção Brasileira durante os 20 anos que eu atuei no atletismo, mas a melhor vitória da minha é a vitória da minha vida. Hoje, através do esporte, tenho grandes amigos, amigos do mundo inteiro, tenho uma condição financeira melhor da qual quando eu comecei como atleta, tenho a oportunidade de conduzir o nosso Instituto da melhor maneira possível, então eu considero essa a melhor vitória da minha vida.
E a pior?
“A pior parte da minha vida como atleta foi a ausência da minha família”
A pior parte da minha vida como atleta foi a ausência da minha família, dos meus pais. Eu sou da cidade de Currais Novos, no Rio Grande do Norte, e a nossa família sempre foi muito próxima, e eu fui o único filho a ter que sair de casa para competir. Então a ausência da minha família foi a mais difícil.
Quando e porque decidiu encerrar a carreira no atletismo?
Eu encerrei a minha carreira em 2011, quando eu já estava com 35 anos. O esporte do alto rendimento do qual eu fazia, o cansaço e desgaste físico é muito intenso, então eu já não era mais um garoto para aguentar treinar todos os dias, duas vezes ao dias puxar uma certa quantidade de peso como eu puxava, vinha um pouco de lesões, onde percebi que estava no momento de parar.
Em que pontos acha que o Brasil deveria melhorar no apoio aos atletas olímpicos?
Acho que o Brasil não precisa melhorar nesse quesito de atletas olímpicos, estão muito bem servidos com os programas que tem, mas acho que precisa investir nas formações de base, nas crianças e jovens, para que futuramente eles possam chegar no nível olímpico com mais facilidade. Hoje os programas são muito voltados para o hoje, exemplo, os atletas olímpicos vão ter um apoio maior dois anos antes da Olimpíada, mas as crianças precisam ter um apoio contínuo permanente até que ela se torne um atleta olímpico.
Qual a sua visão sobre os investimentos feitos pelo Governo do Estado nas categorias de base? Como é a estrutura atual para praticar atletismo em Mato Grosso?
Hoje Mato Grosso é o estado que mais investe no esporte no Brasil. Isso falo porque trabalhei na Secretaria de Esportes e tínhamos ali um orçamento de R$ 800 mil para o Bolsa Atleta, agora está se encaminhando para quase R$ 5 milhões. Onde eram 100 atletas, hoje está chegando nos 600, incluindo técnicos. Então eu não conheço um estado que invista no esporte mais que o Mato Grosso. Pelo lado negativo, nós temos o COT da UFMT, onde nós temos muita dificuldades para usar aquela estrutura. Eu como experiente da pista, ela sendo usada, ela vai estragar. Ela não sendo usada, ela vai estragar com mais facilidade. Até faço um apelo para que os gestores da UFMT possam rever essa situação de como usar o COT da instituição.
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